Capítulo 94
Brooke
~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~
Um por um, os pincéis que estava prestes a lavar, escorregam entre meus dedos e caem no chão, no segundo em que as palavras; "Papai me disse" deixam a boca de Beatrice. A garotinha, olha para os pincéis no chão e se agacha, começando a ajunta-los.
— Deixou cair B — ela pronuncia e me devolve os pincéis ao se levantar.
Engulo no seco e pego os pincéis forçando um sorriso para a pequena, com os cabelos levemente manchados de tinta.
— Beatrice, vou pegar suas coisinhas, enquanto você entra no banho, ok? — a questiono da melhor forma que consigo no momento e Beatrice concorda com a cabeça, fechando a torneira.
A pequena sai do toalhete e acabo por respirar fundo. Algo há de muito errado. Como John poderia saber que me chamo Bonnie? Eu sabia que desde o princípio isso estava estranho, primeiro o cara sabe os horários dos meus turnos, depois o horário que curso a faculdade... Agora meu nome verdadeiro? Só me pergunto como? Talvez ele seja algum detetive, além de administrador de hotéis. O que estou falando? Mesmo que ele fosse o Sherlock Homes da nossa geração, nada justifica essa "caça" em cima de mim. Um medo sem face corre em cada veia do meu corpo e uma sensação estranha me domina. Termino de lavar os pincéis e abandono o toalhete. Deixo os pincéis no escritório de recriação e caminho até o quarto de Beatrice, com a mesma pergunta pulando na minha cabeça como uma bola; "Como John sabe que me chamo Bonnie e não Brooke? E por que só me chama pelo segundo nome?". Abro o armário nada pequeno e nada vazio de Beatrice e respiro fundo. Há mais peças de roupas aqui, que em lugares de caridade. Uma rápida passada de olhos, me mostra o que já pensava; não há uma peça "ultrapassada", todas são extremamente novas, algumas até tem etiqueta e percebi que nenhuma tem quaisquer tipo de manchas, que normalmente toda roupa de criança tem. Acabo rindo mentalmente de mim mesma porque... Claro que as roupas da filha de Agnes e John não estariam manchadas, rasgadas, amassadas ou passadas da geração. Afinal, eles tem dinheiro para extravagar e comprar um vestidinho novo para a criança todas as merdas de dias. Com uma certa raiva; pego qualquer peça de roupa, que estava à minha frente e após abrir a gaveta do armário; uma calcinha. Deixo os tecidos sobre o colchão de Beatrice e olho ao redor do quarto, percebendo então que não é só nas roupas que a criança é mimada. Respiro fundo e olho na direção da porta do banheiro de Beatrice saindo vapor. Escuto a pequena errando algumas notas de uma música que não sei como, mas já escutei antes e acabo saindo do quarto. Estar naquele cômodo, por algum motivo estava me sufocando. No caminho do corredor até a sala branca, quase tropeço na porcaria do gato. Paro de caminhar e o felino ronrona, antes de tentar se esfregar nas minhas pernas. Resmungo um; "Sai" e o empurro com o pé para longe. Entro no cômodo sem vida, com um sofá enorme e acabo observando os quadros de John, Agnes e Beatrice em diversos lugares diferentes. Em uma fotografia, eles estão em algum lugar com neve, já em outra; estão em uma praia ensolarada. Bufo por algum motivo e desvio olhar das fotografias para a Tv, tocando sem som, um desenho animado qualquer. Entretanto, por mais que eu quisesse me concentrar nas formas coloridas que se mexem na tela digital, meus olhos se fixam em um quadro pequeno, no painel abaixo da televisão. Antes que me desse conta, meus pés estão me levando até lá e só paro quando seguro o quadro com uma fotografia solitária de John. O cara está mais jovem, bem mais jovem, porém seu rosto, seu sorriso permanecem o mesmo. Seria uma fotografia qualquer, que passaria despercebida, caso o emblema da escola onde estudei desde pequena, não estivesse na jaqueta do time dele. O emblema e a casa atrás do seu ombro. Me lembro de que quando era pequena, minha avó sempre que dava, me levava aos domingos na casa de uma amiga sua. Eram tardes extremamente chatas, onde sentávamos no sofá e enquanto as duas conversavam; eu devorava os cookies que a amiga da minha avó sempre fazia. Recordo vagamente de achar a casa mal-assombrada quando era criança e encaro a fotografia, respirando fundo ao ver a mesma casa que o John de anos atrás está parado na frente. Tento me recordar do rosto da amiga da minha avó e os poucos traços que me lembro; recordam bastante os de John. Uma confusão se inicia na minha cabeça com o que Beatrice havia dito e a casa dessa foto. O medo e o sufoco de antes se fortalece e algo me diz para ir embora. Correr para bem longe, enquanto ainda há tempo.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Talvez Desconhecidos
Romansa🏆 VENCEDOR DO THE WATTYS 2021, NA CATEGORIA NEW ADULT🏆 Brooke Westton sempre teve a vida corrida e cronometrada como um mero robô. As manhãs ela trabalha, as tardes assiste as aulas de sua faculdade e de noite retorna à lanchonete onde trabalha de...
