Capítulo 62
Chuck
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Estaciono o carro no estacionamento da lanchonete onde Brooke trabalha e encaro minhas mãos no volante. Minhas roupas ainda fedem a hospital, mas não quis ir para fraternidade antes falar com ela. Por alguma porra de motivo, sinto que preciso explicar a Brooke o porquê que "desapareci" o dia todo. A resposta dessa minha ausência bate forte em meus pensamentos e aperto com mais força o volante, até os nós entre meus dedos ficarem brancos. Penso em socar qualquer coisa, no entanto a voz de Brooke na vez em que acabei perdendo a cabeça dentro do carro, se faz presente no meu inconsciente. Ela tem razão, não adianta porra nenhuma eu me machucar. Não adianta porra nenhuma. Fecho os olhos respirando fundo e jogo a cabeça para trás, a apoiando no encosto do carro. Encaro o nada e penso em tudo. Hoje poderia ser a porra do último dia de Cathy, mas não foi. Uma contradição de sensações se inicia internamente e as mando se foder. Poderia ter acontecido algo muito pior hoje, mas não aconteceu, então tenho que deixar de ficar pra baixo por isso. Preciso aproveitar enquanto ainda tenho chance. Esse pensamento me leva direto à Brooke novamente e olho para as janelas enormes da lanchonete, a observando passar para lá e para cá, entregando e recolhendo pedidos. Mesmo daqui onde estou, sei que ela está brava. Transparece no seu semblante o quão furiosa ela está. E mesmo tendo a consciência de que serei apedrejado, um sorriso de lado brota em meus lábios pelo simples fato de que a acho incrivelmente fof... — não, fofa não, a princesa disse que só pronunciamos esse elogio quando é algo referente à cachorros e crianças, então; — gostosa, isso, incrivelmente gostosa quando ela fica brava comigo. Já até imagino sua careta ao me encarar, seus olhos se espremerão e os lábios carnudos dela ficarão em uma linha reta, seu olhar me enviará uma mensagem subliminar de que a qualquer dia ela irá me matar e porra... Percebo que fiz certo em ter vindo para cá, ao invés de estacionar o carro no estacionamento do bar da noite anterior. O que é encher a cara de álcool, perto do ficar na companhia de uma bomba relógio, que é Brooke? Pensar nessa comparação me deixa agitado; estou mesmo trocando tudo por ela? Meus olhos continuam a observando, como se ela fosse o melhor filme para se ver. Brooke não só me acalma, ela me transforma e nem sei dizer se essa porra é em um bom sentido ou não. Talvez seja os dois, já que conseguimos estourar em raiva e tensão sexual facil e rapidamente quase toda vez em que nos desafiamos olho a olho. Retomando a pergunta; sim, estou... Estou trocando tudo por ela e sequer estou sentido falta do antes.
Porra, parando para pensar meus dias antes daquele esbarro e do seu afronto, eram tão monótonos quanto os dela são. Eram; treinos, aulas, bares, festas, hospital e fim. Agora, parece que tudo evoluiu para um quê mais... Colorido? Agitado? Não sei. É algo estranho, mas ao mesmo tempo confortável. É Brooke...
Resolvo sair do carro e ir até lá a dar um "oi". Deixar claro que estarei aqui quando ela sair. Que preciso dela, quando ela sair... Talvez ouvir sua voz, nem que seja uma reprovação rápida; faça a merda do meu dia melhorar um pouco. Empurro a porta da lanchonete e quando meus olhos encontram sua silhueta dentro daquele uniforme, suas órbitas negras me encontram no mesmo segundo. Sorriu de lado, porque sou sempre o primeiro a sorrir e como esperava; ela não me envia seu sorriso de volta. Se fosse qualquer outra garota no lugar dela me enviaria, tenho absoluta certeza, no entanto Brooke é Brooke. Seus olhos ficam nos meus por mais alguns instantes, antes dela se virar ficando de costas para mim. A observo se apoiar na bancada principal dessa lanchonete e a mesma começa a brincar com a luva idiota na sua mão direita. Respiro fundo pelo simples fato de que; será mais difícil do que imaginei que seria lhe explicar o porquê sai cedo do quarto. Queria ter outra merda para usar como desculpa ao invés do; "você sabe como é; minha irmã quase morreu, então precisei ir". Caminho na sua direção e pela primeira vez não encaro sua bunda. Talvez seja porque já a mapeei por inteiro na noite anterior, ou talvez seja porque não faz sentido olhar para a bunda de Brooke nessa saia, quando a visão dela sem nada é mil vezes melhor. Só paro de caminhar quando estou a meros centímetros de distância das suas costas.
— Brooke — suspiro a chamando e mesmo estando de costas para mim nesse momento, sei que ela parou de mexer na sua luva, já que seus braços pararam de se mexerem, lentamente a morena se vira e fica de frente para mim, com seu olhar fixo no meu, espero para ver se ela iria falar algo, mas Brooke permanece em silêncio, suspiro e deixo de lado a ideia de conversar com ela só após a mesma deixar essa merda de lanchonete — Hoje, de manhã, acordei com a porra do meu celular tocando, era minha mãe... — sequer termino e o semblante de Brooke já passa de um rígido, para um derrotado e essa mudança me irrita, porquê é sempre isso que acontece — Cathryn piorou, já esperávamos isso, mas não agora, não tão cedo... Fiquei lá até agora, não tive como simplesmente dizer; "não", não posso dizer não à elas, por mais... — procuro uma palavra certa — Importante que nosso tempo juntos possa ser, porquê nosso relógio não está cronometrado, mas o de Cathy sim — bufo porque não queria falar essas merdas melancólicas para ela.
Brooke me faz rir. Se preciso descontrair; penso nas suas provocações, se preciso relaxar e respirar fundo; me lembro do seu sorriso e se quero socar a porra do volante, me lembro; dela me dizendo que pouco adianta socar ou não. Ver sua expressão abalada, me irrita mais do que vivenciar toda essa merda. Rapidamente desejo voltar na porra do tempo e inventar algo para lhe dizer no lugar dessa porra. Acabo rindo mentalmente de mim mesmo, o que estou falando? Odeio mentiras e tenho certeza que não conseguiria mentir para a princesa. Brooke abre os lábios carnudos como se fosse dizer algo, no entanto logo os fecha e os umedece, antes de se aproximar e me envolver dentro dos seus braços. Demoro um segundo para entender que ela está me abraçando. Um peso imenso deixa de prensar meu peito e sem pensar duas vezes, envolvo meus braços ao seu redor também, a abraçando fortemente, me embriagando no seu perfume. Agradeço mentalmente por ela não falar as mesmas merdas de mentiras que todos falam; "ela vai ficar bem", "tudo vai melhorar" e apenas me abraçar apertado. Esse é o nosso grito em silêncio.
Ficamos aqui, no meio da lanchonete, apenas parados dentro dos braços um do outro, até a princesa se afastar lentamente. Seus olhos passeiam meu rosto como se me esperasse falar algo, porém não digo nada. Não sei o que dizer.
— Vou pedir para sair mais cedo — sua voz soa baixa e sua cabeça está jogada para trás, a fim do seu olhar permanecer sobre o meu.
Ainda estamos perto demais um do outro, distância essa que quase nunca utilizávamos enquanto conversávamos, no entanto estarmos perto parece natural. Porra, preciso parar com esses pensamentos clichês. Estou me tornando um deles.
— Certo, te espero lá fora — concordo e deixo de lado o fato dela estar, pela primeira vez, me dizendo que pedirá para sair mais cedo.
Brooke concorda com a cabeça e se vira indo para a parte de trás do balcão, que dava acesso a cozinha, onde Gina estava. Deixo de acompanhá-la com o olhar, quando Brooke entra no pequeno lugar onde os pratos são feitos e me viro na intenção de ir para o estacionamento. No entanto, algo me chama a atenção. Viro meu rosto para uma das mesas, ao lado oposto a porta de saída e percebo um cara me encarando sério. Na verdade "sério" é apelido, o filho da puta parece querer me estrangular. O encaro de volta, diminuindo a velocidade dos meus passos, até parar de vez, no meio da lanchonete. A garotinha ao seu lado o chama, mas o bastardo mantém seu olhar fixo no meu. O que porra o cara está fazendo? Tentando me intimidar? No instante em que começo a revigorar, pensando que enfim descontaria a raiva do meu dia em um idiota qualquer, sua atenção se desvia para a garotinha ao seu lado e ele sorri para a mesma. Minhas sobrancelhas se unem. O quase-velho — já que o homem não aparentava ter 60 anos, mas menos que 40 com toda certeza não tem — deve ter problemas. Penso em voltar a trilhar meu caminho para fora daqui, mas o começo de uma discussão me chama atenção, vinda do local onde Brooke havia acabado de entrar.
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Talvez Desconhecidos
Romance🏆 VENCEDOR DO THE WATTYS 2021, NA CATEGORIA NEW ADULT🏆 Brooke Westton sempre teve a vida corrida e cronometrada como um mero robô. As manhãs ela trabalha, as tardes assiste as aulas de sua faculdade e de noite retorna à lanchonete onde trabalha de...
