Capítulo 80
Brooke
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Eu deveria ter ido com Chuck, mas não me sinto bem penetrando sua vida pessoal tão rápido. Do que estou falando? Já conheço sua mãe, sua irmã e ainda por cima estamos dividindo um quarto, uma cama e um guarda roupa. Se isso não é penetração de espaço pessoal, não sei o que é. Deixo essa ideia de lado. Foi melhor ele ter ido sozinho, talvez eu só o atrapalhasse. Meus olhos correm o quarto e sem ter muito o que fazer; acabo indo até aonde deixei meus desenhos inacabados e pego o qual estou fazendo para o concurso. O esboço no papel já está quase finalizado, então passá-lo para a tela será questão de algumas horas. Decido terminar o desenho, então pego minhas coisas e me sento no colchão, encarando os traços que já estavam no papel. É incrível com quanto mais encaramos algo que fizemos, mais defeitos acharemos. Como por exemplo agora, posso jurar que a espessura do que era para representar um casal no desenho está muito grossa. Fora as mãos estranhas. Talvez se eu tirar os dedos ficará melhor. Formas abstratas ainda são atrativas e incrivelmente fácil de se trabalhar. Arranco a folha e a amasso, decidida a fazer outro esboço do mesmo desenho, porém melhor.
*
Termino de riscar as últimas linhas na superfície plana da folha e no instante em que o grafite do meu lápis não está mais criando formas; observo o resultado. Analiso cada curva e sentimento que esse desenho transparece. Respiro fundo e risco rapidamente um traço sobre outro, para ver se posso chegar em um resultado melhor. Logo traço outra linha cinza e mais uma. No fim, bufo e arranco a 15ª folha do caderno, a amassando em uma bolinha de papel. Esses corpos não transparecem amor. Todos sabemos que na verdade nenhum relacionamento é o mar de rosas e seria idiota tentar transparecer isso. Deixo a folha amassada cair no chão e meus olhos acabam escorregando também para o carpete do quarto de Chuck — ou devo dizer; nosso quarto, agora? — cheio de bolhinhas de papel amassadas. O concurso quer a representação de amor pintado em uma tela. Mas o que é o amor? É quando um casal se beija? Faço uma careta; não. Apoio as mãos no colchão atrás das minhas costas, me inclinando um pouco e permaneço observando minhas tentativas fracassadas de desenhos, espalhadas pelo chão. Talvez estejamos singularizando essa palavra. Talvez o que quero mesmo retratar, vai além que um casal se entrelaçando. O amor tem diversas formas e desvios. Queria algo verdadeiro, algo raro e diferente. Choramingo e deixo de me apoiar, jogando minhas costas para trás, para encarar o teto. Imagino algumas formas diferentes, como um casal tomando banho juntos, ou um casal andando de bicicleta, mas logo afasto essas imagens dos meus pensamentos por serem previsíveis demais. Quando você está em um concurso, quanto mais criativa e inovadora você for, mais altas serão as chances de se alcançar o prêmio. Após um tempo, me levanto e começo a ajuntar as bolinhas de papel do chão, as desamassando conforme as pegava; a procura de uma em específico. No entanto, conforme minhas mãos iam desdobrando as bolinhas, percebo que em uma; gostei dos corpos, em outra; dos rostos e em outra; do cenário. Esse excesso de informações me desanima. Encaro dois papéis desamassados e os aproximo. Em um, o braço esquerdo da figura feminina ficou muito grosso, em outro o direito que ficou estranho. Rindo sem humor aproximo os papéis mais ainda, na intenção de amassa-los, no entanto paro no segundo em que as folhas se sobrepõem. Ergo as sobrancelhas ao perceber a metade de um desenho se encaixar perfeitamente no outro. Interessante. Pego a fita durex e me ajoelho no chão, começando a fazer exatamente a mesma coisa que fiz com as duas folhas, porém acrescentando os demais papéis amassados. Em um rasgar de folhas e um colar de durex, percebo um único desenho se formando. Agilizo o processo e quando enfim vários pedaços dos meus desenhos, amassados, rasgados e colados se transformam em uma única imagem diferente; um sorriso meio a meio surge no meu rosto. Não era exatamente isso que queria, mas acho que dá para trabalhar com essa ideia.
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Talvez Desconhecidos
Romance🏆 VENCEDOR DO THE WATTYS 2021, NA CATEGORIA NEW ADULT🏆 Brooke Westton sempre teve a vida corrida e cronometrada como um mero robô. As manhãs ela trabalha, as tardes assiste as aulas de sua faculdade e de noite retorna à lanchonete onde trabalha de...
