Quase 18 anos depois do desaparecimento de Christopher, seu pai acaba falecendo e deixando a empresa para sua única neta, Mariana. Dulce por ser a responsável pela menor, acaba tomando as rédeas da situação. Mas, ela não esperava que tudo isso trari...
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Inverno de 2023
Dulce María
O silêncio que tomou conta da minha sala de escritório assim que fechei a porta atrás de mim parecia uma eternidade.
Olhei no fundo dos seus olhos, tentando enxergar aquele brilho que eu via toda a vez que ele me olhava, mas não encontrei. Ele continuava com o olhar escuro e vazio.
— Acho que nós podemos poupar o momento de drama. — Ele disse se escorando em minha mesa, colocando as mãos no bolso. Franzi a testa.
— Drama? — Falei quase num fio de voz. Ele desviou o olhar do meu e pigarreou.
Christopher parecia mais velho, mas pra mim era como se o tempo tivesse parado na última vez que o vi.
— Posso resumir se você quiser. — Ele disse de forma fria e senti meus olhos se encherem de lágrimas. — No acidente, fui encontrado por um grupo de um pequeno vilarejo. Eles cuidaram de mim. Acordei sem entender o que eu estava fazendo lá, e nesse mesmo lugar, dias depois, descobri que minha mãe tinha tirado a própria vida. — Ele engoliu em seco, e eu senti que tinha rancor em sua voz. — Entendi que eu não precisava mais voltar. Que nada mais me esperava aqui, além de um pai amargurado com a vida, com o sonho impossível de fazer seu único filho vivo assumir sua empresa. Claro, a maior conquista da vida dele. — Ele riu sem humor e eu senti as lágrimas quentes escorrendo pelo meu rosto.
Nada mais esperava ele aqui? E eu? E a Lali?
— Me recuperei e me mudei para a Itália, onde construí meu restaurante e conquistei a minha liberdade. — Ele deu de ombros. — Mas, claramente meu pai não me deixaria em paz, então antes de morrer, fez questão de deixar uma porcentagem considerável dessa porcaria de empresa, me obrigando a voltar para uma vida que eu realmente esqueci e não faço questão de lembrar. — Sua última frase foi olhando no fundo dos meus olhos.
Seu olhar continuava vazio, obscuro, cheio de ódio, rancor e mágoa. Mas do que? O que eu fiz?
— Christopher, eu... — Tentei falar, mas ele ergueu a mão como se aquilo fosse me calar. E me calou.
— Eu vou ser direto, Dulce. — Ele disse sério, se afastando da mesa e se aproximando um pouco mais de mim. Eu engoli em seco. — Eu só vim até aqui porque eu quero que você venda suas ações. — Ele disse firme. — Você vai vender pra mim, e em seguida eu vou vender pro primeiro acionista que quiser. Vou voltar pra vida que eu construí, e esquecer que precisei me deslocar apenas para isso. — Quem esse idiota tá pensando que é?
— Simples assim? — Falei cruzando os braços e sentindo uma raiva absurda consumir minha garganta. — Você volta pro México depois de anos desaparecido, praticamente morto e quer chegar dando ordens? Quem você pensa que é, Christopher? — Senti minha boca arder ao pronunciar seu nome. — Quem você pensa que é pra chegar aqui e agir como se tudo que vivemos fosse nada? Como se eu tivesse culpa de alguma coisa? — Senti as lágrimas escorrerem sem parar, como se estivessem guardadas dentro de mim durante todos aqueles anos.