Capítulo 39

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Outono de 2023

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Outono de 2023

Dulce María

Assim que Daniel saiu pela porta da frente de casa em completo silêncio, eu tratei de puxar todo o ar que ainda restava em meu corpo.

Eu estava exausta. Ainda não tinha conseguido digerir tudo que tinha acontecido. Era difícil acreditar que alguém que eu confiava tanto, traiu minha confiança daquela forma.

Foram 18 anos. 18 anos deixando essa pessoa entrar cada vez mais na minha vida sabendo que Christopher estava vivo, sabendo que tínhamos uma filha.

Eu tinha vontade de gritar e chorar. Queria sentir qualquer coisa que não fosse aquela dor. 18 anos foram roubados de mim, e principalmente da minha filha.

Olhei para a escada, cogitando subir para o meu quarto, mas era certo que meus pensamentos não me deixariam pegar no sono por nada. Então se eu for pra macieira...

Virei caminhando na direção do jardim e senti meu coração disparar ao ver Christopher parado, de costas, com as mãos nos bolsos da calça, admirando o céu. Apesar de ser um dia triste, ele estava realmente estrelado.

Respirei fundo, caminhando na direção do jardim. Cruzei os braços na frente do peito, sentindo o vento gelado bater. Apesar de já termos passado pelo inverno, as noites de outono eram sempre frias.

— Incrível como o céu estrelado aparece até quando estamos em um dia ruim. — Falei me posicionando ao lado dele. Christopher me olhou pelo canto do olho e sorriu pelo nariz.

— Alguma coisa precisa fazer sentido em um dia ruim. — Ele disse dando de ombros.

— Lali está bem? — Perguntei me dando conta que ainda não havia checado minha filha, pois ele tinha dito que faria isso.

— Ela custou um pouco a ficar calma, estava muito nervosa e com pensamentos negativos, mas, no fim, o choro cessou e ela acabou deitando. — Suspirei alto, sentindo meu coração apertar ao saber que ela estava sofrendo assim. — Se toda essa situação é difícil pra gente, imagina para ela. — Ele suspirou. — Me custa muito entender que minha vida esteve nas mãos de alguém por 18 anos, que por causa disso, perdi muitas coisas de Mariana, inclusive todas as suas primeiras vezes.

— Ainda é muito difícil acreditar que Daniel fez isso. — Suspirei, engolindo em seco. — Eu sempre soube dos sentimentos dele por mim, mas nunca imaginei que ele fosse capaz de algo assim.

— Nós dois crescemos juntos. Talvez se eu lembrasse de tudo, pensaria diferente, mas no momento também não consigo acreditar que ele tenha sido capaz de algo assim. — Ele franziu a testa e virou o rosto para me olhar. Fiz o mesmo. — Foi muito difícil para mim escutar o médico dizer que minha mãe tinha tirado a própria vida, porque pensava que eu estava morto. O que deixa claro que ele sabia que essa informação me faria sumir. — Sua voz ficou trêmula e eu senti meu peito apertar, de novo. — Na minha cabeça, ela era a única pessoa que eu tinha no mundo, e doía saber que o tempo que lutei para manter ela viva desde que Mariana se foi, não serviu de nada. — Seus olhos se encheram de lágrimas, mas ele não desviou seu olhar do meu. — Eu não consegui voltar e ainda fiquei alimentando essa raiva de você, sem nem mesmo te conhecer, porque o médico me disse seu nome.

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