Pov' Meredith
Entrei na delegacia sentindo meu sangue ferver, como se cada célula do meu corpo estivesse em combustão. Nessas horas, era impossível não sentir raiva do meu pai. Raiva por ele não ter sido, ao menos, covarde o bastante para simplesmente ir embora. Se tivesse feito isso, talvez tudo fosse mais fácil. Talvez eu o odiasse menos. Assim que cruzei a porta, dei de cara com o autor da ligação que me fez abandonar o jantar com Andrew.
— Alex — sorri, tentando conter a tempestade dentro de mim.
— Meredith — ele me envolveu num abraço firme e quente. Alex era meu melhor amigo desde que me entendia por gente. Crescemos juntos como irmãos, e eu o adorava por isso.
— Pegaram ele na rua? — perguntei, tentando não soar tão exausta quanto me sentia.
— Diz que ele não quebrou nada. —
— Não, estava voltando de uma ronda e o vi jogado na calçada... Achei melhor trazer ele para cá — respondeu com a mesma expressão de sempre: uma mistura de preocupação e cansaço.
— Obrigada — suspirei, derrotada.
— Como foi lá? — ele perguntou, se referindo ao jantar.
— Bom... Consegui o maldito carro — respondi, a raiva ainda corroendo qualquer chance de alegria. Nem mesmo o dinheiro me animava naquele momento.
— Bom... Vou levar vocês pra casa — ofereceu, prestativo como sempre.
— Você está trabalhando... Pode deixar, vamos de táxi.
— Tem certeza?
— Sim, você já fez muito levantando ele da sarjeta.
— Tudo bem... Vou buscar ele. —
— Obrigada — murmurei, e Alex apenas sorriu antes de desaparecer pelos corredores em direção às celas.
Meu peito ainda pulsava de raiva. Thatcher havia arruinado algo bom. Como eu explicaria aquilo para Andrew? O que ele pensaria de mim quando descobrisse que meu pai estava bêbado em uma delegacia? Era óbvio que ele fugiria, como todos os outros. Talvez nem ligasse mais. E, por mais que eu odiasse admitir, isso doía.
— Meredith — a voz arrastada de Thatcher cortou meus pensamentos — minha filha amada.
Ele se lançou sobre mim, me envolvendo em um abraço mal cheiroso e desajeitado.
— Me solta, pai. Você está fedendo. Eu tenho que devolver o vestido inteiro. —
— Você parece uma princesa — ele recuou, sorrindo com os olhos vermelhos e perdidos — minha princesa.
— Você deveria estar em casa com a Lexie — resmunguei, enquanto Alex nos acompanhava, mantendo meu pai de pé.
— Lexie não me quer lá — ele falou perto demais, com a voz embargada pelo álcool.
— Cadê seu dinheiro?
— Mere... Dith — ele riu, como se fosse uma piada interna — eu estava comemorando.
Suas palavras me causaram ânsia.
— Você gastou todo o dinheiro? —
Claro que sim. Eu sabia que ele havia recebido. Eu deveria tê-lo interceptado antes.
— Meus amigos comemoraram comigo.
— Seus amigos estão se fodendo pra você — murmurei, quase sem força.
— Mer — Alex me lançou um olhar de alerta por trás de Thatcher.
Meu amigo acenou para um táxi que passava e me ajudou a colocar meu pai dentro.
