1. O pedido.

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POV Meredith

— Próximo item, lance inicial de 400 mil dólares... Um lindo Impala azul...

As plaquinhas começaram a subir quase ao mesmo tempo, como num balé silencioso de ambição. Eu não tinha grana pra comprar um carro daqueles — nem de longe — mas, por sorte, esse não era meu papel. Meu trabalho era exatamente esse: encontrar essas relíquias cobiçadas para pessoas que podiam pagar sem nem franzir a testa. E, pra ser honesta, eu gostava. Me colocava bem perto de um mundo que eu nunca imaginei fazer parte. Um mundo de grifes, copos de cristal, festas em rooftops e homens com ternos sob medida. Eu observava tudo de camarote — ou, no caso, da fileira do meio — e me mantinha ali, circulando, sorrindo, encantando. Com um pouco de sorte, eu acabaria encontrando a pessoa certa... ou melhor, o homem certo. Tudo o que eu precisava era da oportunidade perfeita para garantir a minha vida, finalmente.

Levantei minha plaquinha, acrescentando trinta mil ao lance que já estava em 510 mil. Meu cliente queria aquele carro, ponto final. E ele não tinha o menor problema com o valor. Pena que era um velho chato e feio. E eu realmente não gostava de homens mais velhos. Não tão mais velhos. Meu limite mental era cinquenta — no máximo, cinquenta e cinco — desde que a genética tivesse feito seu trabalho, o dentista também, e um mínimo de charme ainda habitasse aquele corpo envelhecido. O que eu mais prezava, na verdade, era que ele pagasse a conta inteira sem se comportar como se tivesse me feito um favor. Eu detestava esses homens que se achavam no direito de exigir agradecimentos eternos só por bancarem um jantar medíocre.

Levantei minha placa mais uma vez. E de novo. Mais duas. O homem ao meu lado direito também não recuava. Estávamos em um tipo de duelo silencioso, só que com plaquinhas e muitos dígitos. Inclinei o corpo discretamente para tentar me aproximar e identificar quem era. Não dava pra ver o rosto com clareza, mas o conjunto me dizia algo: ele parecia bonito. Alto, bem vestido, com um ar confiante e uma energia que chamava atenção. Mantive meus ouvidos focados, tentando não perder o ritmo dos lances.

— Poderia parar de dar lances? — pedi com um sorriso polido, tom educado, aquele tipo de estratégia que já tinha funcionado outras vezes. Agora éramos apenas nós dois na disputa. O valor já batia 690 mil.

— Sinto muito, mas não. — Ele me encarou com firmeza, e era bonito. Na verdade, chamar aquele homem de “bonito” era quase uma ofensa de tão insuficiente.

— Setecentos mil? — ouvimos o leiloeiro.

— Setecentos mil. — Ele ergueu sua plaquinha sem hesitar.

— Setecentos e vinte mil?

Levantei a minha.

— Eu preciso desse carro — falei com seriedade, olhos fixos nos dele.

— Eu também... É meu aniversário. — Ele me olhou pela primeira vez como quem reconhece uma adversária digna. E, céus, ele era de tirar o fôlego. Um deus grego em terno bem cortado. Alto, ombros largos, postura impecável. Mesmo com o tecido caro, dava pra notar os músculos sob o traje. Barba meticulosamente aparada, cabelo levemente crescido no corte ideal, olhos verdes com um leve cansaço elegante — e sardas. Sardas espalhadas pelo rosto como se o universo tivesse decidido brincar de pontilhismo. Perdi o foco por um segundo, e foi o suficiente para perder o lance seguinte.

— Vendido ao nosso amigo.

— O quê? — voltei à realidade, engolindo a frustração — Puta que pariu.

— Boca suja — ele riu, com um ar debochado e satisfeito.

— Não, não... Olha, eu preciso desse carro — e minha voz saiu quase suplicante. A comissão daquela venda era a diferença entre pagar e atrasar todas as contas do mês. E eu estava desesperadamente precisando do dinheiro.

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