124. O domínio.

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POV Meredith.


Como podia ser tudo tão igual, mas ao mesmo tempo diferente? Havia todos os medos ali, tudo que senti quando Zaya nasceu, entretanto era tudo comedido, quase como se os sentimentos estivessem organizados em caixas etiquetadas. O medo desenfreado que sentia da primeira vez, quando ela veio ao mundo, simplesmente não existia mais com a mesma força. Andrew estava bem mais participativo em tudo, atento, presente, redescobrindo com um certo senso de humor o que eram as noites sem dormir. Sabia que parte dessa diferença era culpa minha, ou talvez mérito dos meus medos, que o afastaram no início.

Saí da cama ao virar e não sentir Andrew nela. Estiquei o braço automaticamente, num reflexo que criei ao longo das madrugadas, e senti apenas o lençol frio. Olhei o berço portátil ao lado e Ryan também não estava lá. Espiei a hora no visor do celular e me dei conta de que depois da mamada, quando Andrew o pegou para arrotar, eu dormi — e, ao contrário do que pensei, já eram seis da manhã. Sai da cama ainda meio sonolenta, em busca deles. Passei no quarto de Ryan e o silêncio ali me deu a resposta: não estavam lá. Fui até o quarto de Zaya e o coração se acalmou ao encontrá-los. Os três dormindo juntos, como uma escultura viva de aconchego: Zaya deitada de um lado, Ryan acomodado em cima de Andrew, e Andrew… parecia em paz, como se aquele fosse o lugar mais certo do mundo para se estar.

A Meredith de três anos atrás jamais imaginaria aquilo. Aquela Meredith esperava, sim, que algo bom acontecesse — ela sonhava com isso todas as noites — mas nunca imaginou tanto. Ela tinha certeza de que a vida traria ou o amor ou o dinheiro, jamais os dois. Na visão dela, seria rica, teria conforto, os luxos que sempre desejou. Sua casa seria um retrato de época, cheia de antiguidades, peças raras, móveis de madeira escura e perfumes de outra década. Mas seria só isso, o máximo de amor que se permitiria. E agora lá estava ela, com a casa dos sonhos, suas antiguidades impecavelmente posicionadas, roupas caras penduradas em cabides de veludo, uma coleção de sapatos que mal cabia no closet, uma conta bancária saudável, um hotel só seu... mas o mais valioso da sua vida, o que realmente importava, estava ali: dormindo tranquilo nos braços uns dos outros.

— Eu consegui… nunca pensei que aquela proposta fosse me levar a esse momento — sussurrei para mim mesma, temendo acordá-los com qualquer ruído mais alto.

Saí do quarto sorrindo sozinha e fui até a cozinha. Sabia que logo Thiago apareceria, quase como um ritual, para preparar o café da manhã. Ele, sem dúvidas, era uma dessas surpresas da vida. Alguém que nunca imaginei que se tornaria tão essencial. Como alguém que não nasceu de mim, que nem tinha idade para ser meu filho, conseguia despertar em mim sentimentos tão maternais? Maya, sempre com suas teorias bem formuladas, uma vez me disse que meu amadurecimento veio cedo, desde Lexie. Meu lado maternal sempre existiu, mesmo quando eu era só uma menina. Ela dizia que eu tinha um instinto protetor quase visceral, presente em todas as minhas relações — inclusive com Thiago. E eu concordava. Mas o que me intrigava, de verdade, era o fato de conseguir amar tanto esse garoto, quando sentia um ódio tão profundo pela mãe dele. Claro, eu amava minha irmã. Mas odiava a mãe dela. Era isso. Samantha era um fator irrelevante na equação que formava Thiago na minha vida.

— Bom dia — ele entrou na cozinha com um sorriso despreocupado.

— Bom dia, criança — retribuí com um sorriso divertido — estava pensando em você.

— Em mim?

— Em quanto tempo você levaria pra acordar. Tô com fome... até pensei em começar a preparar o café, mas você ia ficar reclamando depois.

— Que bom que sabe — ele deu uma risada leve. — Passei no quarto da Zaya e vi os três dormindo juntos.

— É, eu também vi… depois ele fala que eu que não largo os dois — fiz uma careta, meio brincando, meio falando sério.

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