110. O amigo.

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Pov'Thiago.


- você apareceu - Antony murmurou quando abriu a porta e descobriu que era eu - afinal quem é vivo sempre aparece - a hostilidade na voz dele me deixou um pouco incomodado.

- desculpa, posso entrar? Queria conversar.

Ele me olhou por uns segundos, parecendo decidir o que fazer, não sabia dizer se estava com raiva ou algo pior.

- tá... Entra, ia pedir pizza, a mamãe saiu coma Carina.

- valeu - entrei meio sem jeito, era a primeira vez que me sentia assim perto dele, minha aproximação com Antony foi simples, sem esforço, não foi por ele ser filho da namorada da minha tia, mas ele ser filho dela tornava tudo um pouco mais complexo, o que só me deixava com mais dúvidas, era pensar algo como "se não for ele as reuniões de família serão uma merda? Se for isso vamos ficar juntos para sempre? É isso que eu quero? Eu tenho que decidir agora se quero uma relação homoafetiva pelo resto da vida? E se não quiser? Eu posso voltar atrás? As pessoas vão ver isso como algo normal? Vão julgar minhas escolhas? Falar que sou indeciso? Uma hora ele gosta de homem, outra hora de mulher! Mas principalmente se eu gostar dos dois, gostar de homens, mas perceber que não vejo Antony assim? Voltamos ao ponto inicial: como serão as reuniões de família?

- a mamãe falou que o seu pai saiu do hospital - observei ele voltar para ao sofá e pegar o controle do vídeo game.

- sim.

- e que sua mãe foi presa.

- sim - fiz uma careta.

- foda.

- bastante - ainda estava parado no meio da sala sem saber o que fazer, meus sentimentos estavam confusos parecia errado sentar ao lado dele e fingir que estava tudo bem, parecia errado sentir vontade de sentar ao lado dele e pegar sua mão, mas também parecia errado continuar fugindo dele.

- vai ficar aí?

- eu sei que está com raiva de mim - murmurei.

- chateado, mas não com raiva - ele falou sério, o jogo ainda estava parado, observei ele pegar o celular e ligar para alguém, logo em seguida pedir a pizza - você quer borda recheada?

- sim, já sabe.

- cheddar, por favor... Obrigado, tchau... O que pensou?

- que sou um idiota - murmurei.

A risada dele me pegou de surpresa, Antony era sempre divertido, essa era a melhor parte de ser amigo dele.

- isso eu já sabia.

- meu avô é o cara mais homofóbico que conheço... Ele me chama de viadinho quando falo que gosto de cozinhar ... Ou qualquer outra coisa, minha mãe nunca me defendeu dele, eu sei que nenhum dos dois é referência nesse momento, mas ainda sim são minha família.

- justo.

- eu tenho dois tios casados e minha tia namora sua mãe - acabei rindo de nervoso - a minha madrasta tem quase minha idade... Tenho uma irmã de dois meses e meio... Minha melhor amiga é minha "tiadrasta" - outra risada - descobrir que sou afim do meu amigo e quase primo é fichinha quando se tem uma família disfuncional como a minha.

- acho que deveria procurar terapia, conheço uma ótima terapeuta - a risada dele me fez sentir um estralo dentro do peito, como se tivesse voltando a realidade, ainda não havia sido capaz de verbalizar aquele sentimento.

- acho que vou mesmo... Porque eu não faço idéia do que fazer agora... Minha vida tá fodida pra caralho.

Bem naquele momento eu sentia vontade de chorar, meu pai quase morreu, minha mãe foi presa, as pessoas que eu mais amava se odiavam.

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