Pov’ Meredith.
Acabei dormindo na casa do Alex, o que, sinceramente, não era novidade. Há alguns anos, ele trocou a cama de solteiro por uma de casal. Disse que era por ser mais espaçosa — e talvez fosse —, mas eu sabia que, no fundo, era também porque, quando as coisas ficavam insuportáveis em casa, eu acabava indo parar ali, no quarto dele, enquanto ele dormia no colchão no chão. Eu tinha sorte. Muita sorte por ter o Alex.
Quando acordei, ele já não estava mais lá. Sabia que tinha saído cedo para trabalhar. Peguei minhas coisas e saí. Helen também não estava em casa, o que também não era surpresa. Era tão comum que eu já tinha minha própria chave da casa deles, assim como Alex tinha uma cópia da chave da nossa. Atravessei a rua, voltando para o caos.
— Meredith — Thatcher estava na cozinha preparando café. Pelo visto, alguém não tinha bebido na noite anterior.
— Oi, pai.
— Dormiu no Alex?
— Sim. Ficamos conversando até tarde e acabei pegando no sono.
— Eu vi você chegar... Mas não entrou. E Lexie está de mau humor. Brigaram de novo?
— Só bobagens, pai. Vou pro meu quarto. Preciso de um banho.
Era uma coisa boba, mas que eu valorizava: o quarto maior da casa, aquele com suíte, era dos meus pais, Ellis e Thatcher. Quando ela foi embora, ele nunca mais dormiu lá. Fui esperta e sugeri que trocássemos de quartos — assim ele não precisaria dormir no sofá. Ele aceitou. Claro que me preocupava com ele, mas também queria o quarto maior, com banheiro.
Apesar de odiar ser comparada com Ellis, eu sabia que minha inteligência, minha sagacidade, vinham dela. Thatcher era um sonhador, daqueles que nunca terminou os estudos. E, mesmo odiando admitir qualquer semelhança com minha mãe, eu sabia que tinha herdado dela a ambição, a capacidade de fazer as coisas acontecerem. Mas, ao contrário dela, eu jamais abandonaria minha família, era doloroso ver meu pai se afundando, eu preferia nunca partir, ver ele vem, Lexie tendo as oportunidades que não tive, minha ganância não era só por mim, mas por ele, para que eles também tivessem uma vida melhor, e não ser reconhecida por isso doía.
— Meredith, o café está pronto — ouvi meu pai me chamar depois de um tempo. Já havia tomado banho, mas continuava escondida no quarto, era um lugar seguro.
— Tô indo — respondi, mesmo sem muita vontade. Estava com fome.
Quando entrei na cozinha, vi Lexie sentada à mesa. Ela me olhou com um ar culpado.
— Tem aula hoje? — perguntei, me servindo.
— Sim... Já estou de saída.
— Quero conversar com vocês dois antes.
— Vou me atrasar — ela respondeu, tentando escapar. Mas eu sabia exatamente o que ela queria evitar.
— Pai, senta — pedi com firmeza.
— O que aconteceu, filha? — ele se sentou e me olhou preocupado.
Eu queria ter uma conversa tranquila. Mas ainda estava com raiva. Muita raiva. Levantei da cadeira e encarei os dois.
— Eu tô cansada — soltei.
— De quê? — Thatcher franziu o cenho.
— A Lexie me acusou de ser como a... Mamãe — engoli seco. Só de chamar Ellis de “mãe” já sentia a bile subir no estômago, para mim ela era só uma pessoa que pariu.
— Por que fez isso? — ele virou o olhar para ela.
— Foi sem querer... E a Meredith me deu um tapa.
