125. A noite.

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Pov'Meredith.

Parece bobo você olhar para o lado — figurativamente — e perceber que não tem ninguém. A casa estava silenciosa, uma paz quase que sufocante reinava no lugar. Depois do café, quando Thiago saiu, fui para o banho. Fiquei ali um tempo apenas fazendo hora, deixando a água cair como se pudesse lavar a estranheza daquele silêncio. Depois me arrumei com calma, passando creme no rosto com a mesma atenção que daria a um vestido de gala. A todo momento parecia ouvir a porta abrir, um som imaginado, como se minha mente gritasse pelo som familiar do caos. Só quando estava pronta, peguei meu celular e liguei para meu marido.

Ligação on.

— Bom dia, querida.

— Bom dia, amor. Você sequestrou nossos filhos.

— Claro que não. Os verá amanhã. Hoje o dia é seu. Já decidiu o que pretende fazer?

— Eu não faço ideia. Não sei mais ser uma garota solteira — falei rindo, mas era só nervoso por ser real, por não lembrar o que se faz quando se tem tempo e liberdade.

— Liguei para as meninas. Aposto que uma delas vai gostar de bater perna no shopping — sua sugestão me pareceu uma trama já planejada, um plano doce para me arrancar de casa.

— Qual delas?

— Carina está entediada também.

— Ela já está a caminho?

— Acredito que chegará em alguns minutos — meu marido voltou a rir — não precisa se preocupar, estou cuidando de tudo aqui.

— Sabe? — fiz uma pausa dramática — há três anos, no dia que nós nos conhecemos, eu lembro exatamente o que fazia.

— Quer me contar?

— Estava olhando minha conta bancária, torcendo pra conseguir aquele carro no leilão, porque se não desse certo acabaria pegando dinheiro emprestado com Alex para não faltar nada. — Senti um nó se formar em minha garganta com a lembrança, algo entre o orgulho e a vulnerabilidade. — Passei o dia todo fazendo pesquisas sobre antiguidades, tentando achar uma peça que também pudesse me trazer mais dinheiro, mas não consegui naquele dia. Fui para o leilão não tão esperançosa... e você quase me levou o carro — tentei brincar no final porque senti que acabaria chorando.

— Desculpa.

— Tudo bem. E ganhei a grana... e o ricaço esnobe. Eu te amo, Andrew. Aquela noite e aquele domingo com você foram algo maravilhoso. Ainda lembro do nosso primeiro beijo.

— Você me deixou louco falando que não poderia falar de você nua antes de te beijar — ouvi a risada abafada dele — quando tudo que eu queria era te beijar... e te ver nua.

— Conseguiu. Você me beijou. E não por hoje ser casada com você — talvez por isso esteja casada com você — mas aquele foi sem dúvidas o melhor beijo da minha vida até aquele momento. Você personificou a frase "todos os beijos serão errados até o beijo certo."

— É bom saber que é feliz assim.

— Sou tão feliz que estou irritada porque amo o caos perfeito da vida que estamos construindo.

— Eu também amo ele...

Ouvi a batida irritada na porta.

— Carina chegou... Te vejo no salão do Império.

— Até lá, minha menina.

Andei até a porta e abri. Minha cunhada estava parada, mostrando sua expressão de deboche. Carina era uma figura, e eu amava isso nela. Vi seu olhar como quem diz “acorde, princesa”.

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