Pov'Thiago.
Ela me mandou ir comer, eu fiz, mas agora não queria passar por ali, Meredith estava no meio do maior monólogo do século, o mais assustador era que ela falava tudo aqui com a maior naturalidade do mundo, como se não fosse ela a menina abandonada, imaginar que tudo que ela narrava era sua história fazia meu coração doer, Meredith era uma das pessoas mais generosas que eu conhecia, e pensar que sofreu tanto não era legal.
- eu senti, nos primeiros dias, talvez meses, eu sentia sua falta, muito mesmo, de uma mãe, mesmo você não tendo sido uma de verdade nem quando estava aqui foi realmente uma mãe, mas sim eu sentia... Quer saber o que mais eu sentia? - ela fez uma pausa, me sentei no chão da sala de jantar e fiquei ouvindo - medo... Muito medo, eu chorava de tanto medo porque o papai começou a beber sem parar, ele saia e eu não sabia quando ia voltar... Ou se ia voltar....
Ouvi o som da sua risada desanimada, dava até pra imaginar a expressão dela, peguei meu celular e digitei uma mensagem para Andrew avisando que Ellis estava ali, ele respondeu avisando que estava voltando pra casa, não ia demorar.
- ele passou quase dois meses sem ter um dia sóbrio... Eu fiquei com Lexie em casa e não morremos de fome porque Helen cuidava da gente... Ela sim foi uma mãe, porque me amou muito, ela suportou nos ver sofrer, mas nunca deixou nos levarem para orfanatos, tentou nos levar para morar na casa dela, mas Thatcher fazia um escândalo quando não nos via em casa quando chegava, mas era melhor, eu acho, melhor que não ter nenhum deles, então eu suportei, suportei a dor do abandono, porque não queria não ter ele, ela cuidou de mim por diversas vezes... Então, sim, eu senti sua falta, mas não sinto, aprendi tudo sem sua ajuda, eu suportei tudo por eles, coisa que você não fez.
- inclusive ser esperta e casar com um ricaço - deu pra notar a ironia nas palavras dela.
- isso deve ser genético... - Meredith zombou - a diferença é que eu acertei no cara... Você pelo visto não.
"1x0" para Meredith, ela sabia ser cruel, mesmo com sua voz aveludada ainda dava pra ouvir o desprezo em seu tom, as vezes eu achava que eles achavam que eu não entendia todo o contexto da história deles, mas eu entendi bem mais do que deixava transparecer, sabia que o envolvimento do meu pai com ela foi casual e de certa forma por interesse de ambas as partes, eu também ouvi mais conversas do que eles imaginavam, mas sabia que Meredith amava meu pai.
- como tem tanta certeza?
- porque se estivesse bem de vida não estaria aqui... Então outra vez: porque voltou...
- eu tenho direito a metade daquela casa, eu quero - Ellis murmurou de um jeito frio.
- direito - a risada de Meredith me causou um frio na espinha - então... Você sabe o que é abandono de incapaz? Você abandonou duas crianças.
- eu não abandonei, deixei vocês aos cuidados do pai.
- não é assim que um juiz vai ver... E sabe o que nós não temos parecidas?
- o que?
- um bom advogado - Meredith gargalhou - e dinheiro, porque se tivesse não estaria aqui, e por eu ter estou bem aqui... Então some das nossas vidas - Meredith mandou.
- eu não vou sumir, posso não ter dinheiro para um bom advogado, mas conheço um - Ellis murmurou - eu não quero brigar, só preciso do dinheiro, e vou embora.
- terminou seu drink! Ótimo. Hora de ir.
Ouvi os passos de Meredith, levantei do chão e fui em direção a sala, cheguei a tempo de ver a porta se abrir, mas era meu pai entrando.
- o que ela faz aqui?
- estávamos conversando - Meredith murmurou tranquila mostrando seu sorriso de boa menina - mas já está de saída. Até nunca Ellis.
