5. A briga.

92 9 8
                                        

POV Meredith

Entrei em casa e encontrei Lexie largada no sofá, devorando o que restava da pizza da noite anterior, como se fosse a coisa mais natural do mundo. A TV estava ligada em um filme qualquer, provavelmente um daqueles dramas água com açúcar que ela adorava fingir que odiava. Ela me lançou um olhar rápido, por não mais que dois segundos, e voltou a se concentrar na tela. Era como se eu nem estivesse ali. Quis puxar conversa, jogar qualquer coisa no ar só para quebrar o silêncio entre nós, mas sabia que isso acabaria em mais uma briga. E eu não estava com paciência para mais atrito. Na verdade, não estava com ânimo para absolutamente nada. Nem para tentar consertar. Estava esgotada de ser a que sempre cede, sempre engole, sempre recua.

- Trouxe torta, vou colocar na geladeira - murmurei, cruzando a sala direto para a cozinha. Fiz exatamente o que falei, quase como um reflexo mecânico. Depois, segui direto para o meu quarto. No caminho, percebi que Thatcher já estava no dele, o que por si só já era uma raridade digna de ser registrada. Às vezes, sentia tanta raiva que mal conseguia respirar. Eu sacrificava tudo - tudo - para manter aquilo de pé. A paz frágil daquela casa, os cuidados com dois ingratos que nem se davam ao trabalho de reconhecer. Tanta coisa que eu engoli para dar a eles uma vida menos miserável que a minha. Às vezes, minha vontade era de pegar aquela maldita torta e jogar com toda força na cara da Lexie, junto com cada gota de frustração que eu engoli por ela.

Eu queria gritar. Queria jogar na cara dela que não precisava daquela vida de merda. Que eu conseguiria me sustentar sozinha, obrigada. Que se fosse só por mim, meu dinheiro já me bastaria para viver com conforto, fazer as coisas que gosto, comprar o que quero, respirar sem carregar o peso de todo mundo. Mas não, eu era a idiota que cuidava do pai alcoólatra e da irmã ingrata. A maldita mártir.

- Desculpa - Lexie falou, num sussurro, quando me viu passar.

- Foda-se, vou dormir - respondi sem nem olhar para trás.

Fechei a porta do meu quarto e tranquei com a chave, o que era raro. Lexie gostava de invadir meu espaço de vez em quando, deitar na minha cama como se ainda fossemos melhores amigas. Mas hoje não. Hoje eu não queria ver a cara dela. Vesti meu pijama - o de pandas, o mais confortável e idiota de todos - e me joguei na cama. Peguei o celular e vi a notificação de mensagem do Andrew. Eu precisava focar nisso. Nele. Ele era minha chance. Minha escada. Alguém com dinheiro, estabilidade, poder. Um atalho para tudo que eu sonhei e nunca consegui alcançar sozinha.

"Ansioso por domingo."

Fiquei encarando aquelas três palavras por alguns segundos. Ele estava animado. Interessado. E eu? Eu estava em frangalhos, emocionalmente exausta, mas pronta para jogar o jogo. Porque eu sempre joguei bem.

"Não estou, mas te devo um encontro. Estou indo dormir."

"Machucou meu ego. Boa noite, Meredith."

Li a resposta pela barra de notificação, sem abrir a conversa. Eu gostava do jogo da sedução. Não era sobre ser difícil. Eu teria transado com ele naquela primeira noite, sem hesitar. Mas não era só sobre desejo. Era sobre o jogo. E ele gostava disso tanto quanto eu.

;)

Acordei com o som irritante da campainha tocando. O instinto foi pegar o celular para ver a hora, mas ele começou a vibrar com uma ligação ao mesmo tempo. Quando vi o número e a hora, quase tive um infarto. Saltei da cama e corri para a sala, tropeçando no próprio tapete.

Cadê o papai? E Lexie? Por que ninguém atendeu? Abri a porta num impulso, e lá estava ele. Andrew. Um monumento de homem, parado bem ali na minha porta, vestindo um sorriso intrigado e elegante.

- Bom dia, Meredith.

- Merda - soltei sem pensar. E então lembrei de outro detalhe. Meu visual.

- Merda duas vezes.

A PROPOSTA Onde histórias criam vida. Descubra agora