- Você está distante. - minha tia me chamava de volta ao mundo real.
Saí do quarto e a Érin não quis descer, disse que descia depois, que não queria que ninguém a visse com cara de choro. Eu estava na cozinha enquanto a tia Angelica fazia o almoço. Perdido em pensamentos e sensações.
- Sei lá, me distrai um pouco.
- Como foi a conversa com a Érin?
- Foi tudo bem. - contei a ela sobre como a Nathalie foi arrogante com a Érin no shopping. - Mas no final ela entendeu.
- Essa garota não tem jeito. Não sei o que você viu nela.
- Nem eu.
Viajei no tempo, lembrei da Érin menina, do sorriso doce, das nossas brigas sem fundamentos, do jeito como ela se afastava de mim quando estava com raiva, de como ela ficava quieta no meus braços quando estava triste. Eu sempre dei a ela o que ela queria, um ombro amigo que não pede explicações, acolhe o outro sem precisar saber o motivo de sua dor. As vezes ela me contava o que a entristecia, as vezes não. Talvez eu tenha dado tudo que ela queria mas nunca o que precisava. O jeito como a Érin não fala dos seus problemas é reflexo de uma insegurança que a gente nunca soube tratar. A Érin se escondia do mundo e a gente se escondia com ela, nunca dei a mão a ela para que enfrentasse o mundo, ajudei ela a se esconder e isso fazia de mim um herói. Hoje vendo a reação dela ao sair dos meus braços entendi que tudo foi errado.
- Tem alguma coisa te incomodando. - a tia é sempre discreta quando quer perguntar alguma coisa, não se intromete na vida dos seus e sempre deixa a gente a vontade pra falar.
- Estou um pouco confuso em relação a Érin.
- Quer conversar?
Continuava a mexer nas panelas sem olhar muito pra mim. Ela sabe quando a gente não quer atenção e respeita, continuava a fazer o que estava fazendo e agia como se a conversa não tivesse o grau de seriedade que tem.
- Sei lá, eu me preparei pra tudo quando voltei ao Brasil, eram milhares de hipóteses, a Érin podia estar casada, podia ter se mudado, podia ter morrido, podia ter filhos, era tanta coisa.
- Mas?
- Eu nunca pensei que encontraria ela do jeito que a deixei. A Érin não mudou nada sabe? Tem o mesmo jeito de olhar, o mesmo jeito de falar, o mesmo jeito de ficar brava. - fiquei em silêncio alguns segundos - Ela ainda tem a mesma inocência de antes. Eu fui o único cara que ela beijou na boca e ela ainda é virgem.
- Acho bonito quando uma mulher casa virgem, apesar de que isso já quase não acontece.
- A Érin parece uma menina. As vezes eu acho que estou atropelando a vida dela. Tem coisas que eu quero muito e ela ainda está descobrindo.
- Mas pelo tempo ela já deve estar se acostumando.
- A gente nunca teve relações tia.
Ela parou de mexer nas panelas e olhou pra mim por um instante. Ficou em silêncio observando.
- Pra quem só queria saber de sexo, acho que você mudou bastante.
- É isso que está me incomodando, saber o quanto eu mudei. A Érin mesmo depois de tantos anos continua sendo a mesma menina, eu olho para ela e parece que eu tô vendo a mesma menina de treze anos que deixei no Brasil. Eu olho pra mim e não vejo mais nada do garoto que eu fui quando morava lá.
- Ô meu amor, mudar foi uma escolha sua. Não da pra querer que todas as pessoas mudem também, algumas pessoas são felizes sendo quem são.
- Eu sei tia, mas a Érin não merecia que eu tivesse mudado tanto.
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Entre o amor e a vingança
RomanceEla: Érin, 23 anos, virgem. Sem muitos amigos, perde o único irmão e melhor amigo aos onze anos. Sofre diariamente com os maus tratos de um pai violento, vê sua vida mudar aos doze anos com a entrada de um novo aluno na escola que em pouco tempo se...
