Passar um dia sem falar com o Erick foi como levar um tiro no coração, um tiro que não mata, um coração que de teimoso não para de bater e que doi ainda mais a cada pulsar rebelde. Foi só uma noite, mas foi uma das piores noites. Não falar com ele porque estou com raiva é fácil, mas não falar porque ele não se agrada da minha companhia foi dolorido de mais. Nos dois anos que fomos amigos perdi as contas de quantas vezes parei de falar com ele, mas só agora, dez anos depois, é que consigo enxergar o quanto fui egoísta. Crescer na solidão faz de você uma pessoa fria, só quem vive nos braços do amor é que aprende o quanto a compreensão é importante num relacionamento. Quando você sabe que ninguém se importa com você não há motivos para se importar também, mas vendo o Erick ali sentado à mesa me ignorando é que percebi que nem tudo pode ser como eu quero.
Nos últimos dias tenho me esforçado para ser uma pessoa melhor, lembro do meu irmão dizendo que eu era uma menina maravilhosa e que quando eu crescesse seria uma adulta muito legal. Ele estava enganado, já cresci e continuo sendo a garota estranha que ninguém quer estar perto, a diferença é que agora não faço questão de amigos, pouco importa se as pessoas gostam ou não de mim, quero mais é que elas me odeiem só assim não preciso esperar delas a menor demonstração de carinho. Mas com o Erick sempre foi diferente, para ele sempre quis ser uma pessoa boa e agora não é diferente, aos pouco volto a enxergar no Erick o menino que despertava em mim a vontade de ser boa.
Naquela noite dormi agarrada ao corpo do Erick, uma necessidade urgente de senti-lo perto de mim. Foi uma noite maravilhosa, tê-lo novamente em meus braços foi a melhor sensação que pude experimentar. Naquela noite quase fizemos amor, só não aconteceu porque o Erick não quis, meu príncipe estabeleceu limites que ele não ultrapassa e eu morro de vergonha de dizer que não quero esses limites para mim. Mais uma coisa que ele não se pergunta se eu realmente quero.
Aos poucos começo a entender que amar uma pessoa não é só ter no coração sentimentos por ela, é mais do que isso, é ter respeito, é o desejo de cuidar, de se importar com o que o outro sente. Tenho me esforçado em ser uma pessoa melhor, todas as vezes que precisei avisei ao Erick sobre a presença do Victor e do Pedro em nossa casa, fiz questão de dizer a ele todas as vezes que precisei ir a casa de um deles também. A única coisa ruim é que o Erick nunca encarou muito bem a minha proximidade com o Victor, depois de um tempo acabei aceitando ele como amigo, gosto da companhia dele e isso não agrada em nada o Erick, mas ele também tem se esforçado em melhorar e não me impede de me aproximar do Victor.
Aos poucos o Erick e eu começamos a nos encaixar no relacionamento, ele procura me respeitar e eu a ele. Tudo entre nós tem sido conversado, quando não gosto de alguma coisa que ele faz, ao invés de brigar como antes tento conversar mas nem sempre da certo. Tem dias em que a gente briga feio, principalmente se o assunto for o Victor, eu tenho vontade de nunca mais falar com o Erick, mas sempre que lembro do dia em que ele parou de falar comigo volto atrás e engulo o orgulho. Um dia desses fiquei algum tempo sem falar com ele, uma hora talvez.
Morrendo de ódio fui estudar no escritório dele, que fica no primeiro andar da casa, pouco tempo depois meu príncipe entrou na sala me encontrando com vários livros espalhados pela mesa e o notebook, que ele me deu de presente pouco depois de ter entrado para a faculdade, aberto enquanto fazia algumas pesquisas. Eu estava tão distraída com o estudo que não o vi chegar, quando percebi ele estava parado na porta, braços cruzados na altura do peito, um olhar tão doce que era difícil sentir raiva, tinha no rosto uma expressão de arrependimento, por certo se deu conta de que não devia ter me dito as coisas que disse. Olhei para ele e voltei o olhar para a tela do computador, queria mesmo ignorar a sua presença, embora a vontade de beijá-lo fosse maior.
- Vai mesmo ficar me ignorando?
Respirei fundo e soltei todo o ar dos pulmões.
- Eu bem que queria, mas não consigo estudar com você ai me olhando.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Entre o amor e a vingança
RomanceEla: Érin, 23 anos, virgem. Sem muitos amigos, perde o único irmão e melhor amigo aos onze anos. Sofre diariamente com os maus tratos de um pai violento, vê sua vida mudar aos doze anos com a entrada de um novo aluno na escola que em pouco tempo se...
