Cap. 28 Saudade dói onde os outros não vêem (parte 1)

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Acordar e não receber um bom dia, assim começa o dia mais difícil de ser vivido. Todos os anos é a mesma coisa, eu acordo e ele não esta la com aquele sorriso lindo pra me dar bom dia e dizer que eu sou a melhor irmã do mundo. A última lembrança que tenho dele é um corpo todo machucado e sem vida, o braço quebrado que meu deu o maior trabalho para vestir a blusa que ele mais gostava. É fui eu quem vestiu o meu irmão para o enterro, a minha mãe só sabia chorar, não conseguia nem olhar pro meu irmão e o meu pai se isolou no escritório, chorava sozinho a perda do filho mais velho. O único que ele amou de verdade. Quando meu pai anunciou que iria pagar uma pessoa na funerária para vestir o Alex eu disse que não, que eu ia fazer isso, que nenhum estranho ia tocar no meu irmão, se ele tinha cuidado de mim a vida inteira então eu ia cuidar dele agora, minha mãe tentou impedir, mas meu pai não estava nem ai.

Ver o corpo sem vida do meu irmão doeu de mais e doi até hoje. O corpo todo machucado, tão pequeno o meu herói, tão pequeno por fora e tão grande por dentro. Eu não era como as outras crianças que vêem no pai um super herói, meu herói de verdade era o Alex, eu olhava pra ele e só faltava ver a capa vermelha de super homem. Com nove anos eu vestia meu herói para a morte, um enterro simples que se quer honrou o gigante que ele foi. Lembro que naquele dia eu não chorei, me senti tão sozinha que lágrima nenhuma curaria a minha dor.

Fecho os olhos e lembro como se fosse hoje, eu estava na escola como todos os dias esperando o Alex no banquinho de madeira que ficava de frente para o portão. A Paulinha estava do meu lado, a gente brincava uma daquelas brincadeiras de criança de bater com as mãos, cantávamos música e achávamos graça quando uma das duas errava a batida. O Alex me buscava todos os dias na escola e naquele dia ele tinha prometido levar a Paulinha e eu pra tomar sorvete na saída. O tempo passava e nada do Alex, a Paulinha acabou indo embora, o turno da manhã foi embora e o da tarde chegou, as tias da escola, as únicas que me tratavam bem, me olhavam preocupada, eu fiquei o tempo todo sentada no mesmo lugar. Foi quando de repente vi a minha mãe chegar, o rosto inchado de tanto chorar, ela me pegou pela mão e me levou em silêncio. Perguntei várias vezes por que o Alex não tinha ido me buscar, mas a mamãe sempre dizia que ia me explicar quando chegasse em casa e nunca vou esquecer aquelas palavras.

" Seu irmão não vai mais te buscar na escola filha. O Alex foi morar com Deus no céu."

Se é possível dizer eu morri naquela hora, como assim meu irmão não vai mais me buscar? Morar com Deus no céu? Eu fiquei sozinha com meus pais, as duas pessoas que nunca me amaram, meu pai só sabia bater e minha mãe sempre me olhava com aquela cara de decepção, como se eu estivesse no lugar errado. A única pessoa que fazia eu me sentir amada foi embora e não voltou nunca mais.

Todos os anos eu ia ao cemitério no dia da morte dele. Nos primeiros meses eu ia todos os dias, passava a tarde no cemitério ao lado do jazigo do meu herói, contava pra ele como tinha sido meus dias e o quanto sentia a sua falta, até que meus pais descobriram e me proibiram de ir, diziam que fazia mau para mim. Mau sabia que mau me fazia estar eles, nunca que estar com meu irmão ia me fazer mau. Um dia meu pai bebeu de mais e chegou em casa brigando com a minha mãe, bateu nela e em mim também, eu fugi de casa naquela noite. Passei a noite no cemitério, minha mãe surtou quando eu não voltei para casa, no dia seguinte de manhã um dos coveiros me encontrou dormindo ao lado do jazigo do meu irmão. Ligou para os meus pais e eles foram me buscar, nem preciso dizer que apanhei dobrado naquele dia não é?

Só quando conheci o Erick é que minha vida voltou a ter um pouco de cor. Só então voltei a me sentir amada, confesso que na época eu morria de ciumes do Erick, ele era a única pessoa que me fazia ter alguma vontade de viver e eu morria de medo de perdê-lo. O Alex sempre me dizia para eu tentar me comportar como as meninas da minha idade, sabia o quanto eu sofria com a rejeição na escola e sempre fez de tudo para que eu me sentisse aceita. Dizia que quando a gente fugisse tudo ia ser diferente, que ele ia escolher a melhor escola para mim e que eu ia ter um monte de amigos. Eu sonhava os sonhos dele, e a gente vivia assim, um pro outro. Por isso todos os anos quando esta chegando a data de falecimento dele eu me esforço para fazer alguma coisa normal, por isso fiz tanta questão de ir ao luau com o Erick e de ir a praia no dia seguinte. De certa forma queria mostrar para o Alex que eu consigo ser normal e que ele não foi tão bom pra mim atoa. Acho ate que foi por isso que deixei o Erick me beijar naquela noite, lógico que não foi só por isso, havia sentimento envolvido, mas o pior foi ter baixado a guarda e ter deixado o Erick tocar de novo o meu coração.

Entre o amor e a vingançaHistórias para pegar e não largar. Descubra agora