Capítulo 64

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O dia amanhecia sombrio em Westfield, como era de se esperar. Nem mesmo os intensos raios de sol que atravessavam violentamente as nuvens espessas eram capazes de iluminar aquelas terras tão manchadas pela maldade. O vento não soprava para dar um alívio ao calor quase insuportável. O odor de carne em decomposição invadia qualquer ambiente em que se estivesse. Os membros do grupo que conseguiram dormir apenas o conseguiram porque estavam extremamente esgotados, face ao horror e às tribulações aos quais estiveram expostos. Alex Stevens aguardava os outros sobreviventes no saguão do hospital. Ele conferia os pentes de munição e os suprimentos que iriam levar na travessia até a biblioteca. Ninguém, com exceção talvez do doutor Hurley, sabia o que os esperava dentro daquele prédio. O comunicador bipou próximo dali e Alex atendeu.

"Bom dia, sobrevivente! Espero que esteja p-pronto para o próximo passo. V-vocês foram excelentes no último confronto, pelo que eu soube. T-temo que a próxima travessia não seja p-problema para vocês."

Aquilo custou a vida de um dos nossos! — retrucou Alex, pelo comunicador — Se estou aqui hoje falando com você, é porque Lancelot se sacrificou e ficamos livres da horda.

"E-eu sinto muito, senhor Stevens. Aconteceu o que eu não queria que acontecesse. Faremos todo o possível para que o sacrifício do senhor Miller não tenha sido em vão."

É tarde para olhar para trás... me responda, doutor Hurley. O que nos aguarda do lado de dentro da biblioteca?

"B-bem, o doutor Delta provavelmente já tem ciência dos planos de vocês, e toda a casta de cientistas já deve estar esperando a sua invasão. Portanto, posso dizer que não apenas os mortos-vivos, mas as criações resultantes de mutações e variações do vírus já estejam de prontidão para assegurar que vocês não tenham acesso ao antivírus. Eu gostaria de dizer que existe uma alternativa para c-concluirmos esse p-projeto, mas infelizmente eu estaria mentindo para o senhor.

Beatrice realmente se tornou imune ao vírus e invisível às criaturas. Agradeço pelo que está fazendo por nós, doutor.

"O senhor e os outros s-sobreviventes fazem parte de um grande p-plano, que não poderei revelar por enquanto. Nós nos encontraremos muito em breve, senhor Stevens. Prometo que tudo isso fará todo o sentido quando menos esperar."

O clique do comunicador indicou que o doutor Bill Hurley já não estava mais disponível para conversar. Sahyd Youssef chegou ao saguão munido de sua ponto quarenta e se aproximou de Alex.

— Acho que não está faltando nada. Assim que todos estiverem prontos, partiremos.

Em menos de cinco minutos, todos já estavam prontos no saguão, ansiosos para sair. Contudo, Alex organizou uma última reunião antes de seguirem em frente. Posicionando-se à vista de todos, ele começou a falar.

— Meus companheiros... Acredito que nenhum de nós aqui presente esteja alheio à crise espantosa que estamos enfrentando. Cada um de nós tem uma história. Cada um de nós perdeu pessoas que amava. Se estamos aqui reunidos nesse mesmo lugar, significa que toda essa tragédia fez com que tivéssemos algo em comum. A Ômega destruiu as nossas vidas e está prestes a destruir o mundo. Não estaríamos vivos e respirando esse ar fétido se não tivéssemos trabalhado em equipe até esse momento. Lancelot Miller deu sua vida para que pudéssemos continuar vivendo. E eu juro por tudo o que há de mais sagrado que o sacrifício dele não será em vão. Partiremos para a próxima etapa de nossa busca e sinceramente não sei dizer se a Ômega está ciente do nosso ataque. Entretanto, não podemos mais ficar esperando enquanto tantas e tantas vidas se perdem, infectadas pelo Orpheu. Pode não parecer, mas temos muitos fatores a nosso favor. Temos pessoas infiltradas em território inimigo e é bem possível que nossas chances de vencer aumentem consideravelmente. A grande diferença é que agora temos uma estratégia de ataque, não iremos de cabeça no alvo sem avaliar os riscos, como fizemos anteriormente. Espero que todos estejam comigo. Prometo a cada um de vocês que farei tudo o que puder para levar a punição à Organização Ômega. Por mais que nada seja capaz de trazer as pessoas que amamos, ainda podemos salvar muitas vidas e, quem sabe, recomeçar nossa história.

Beatrice levantou a mão e pediu para falar.

— Alex... agora que estou imune ao vírus, eu tenho um pedido a fazer, se todos concordarem.

— Claro, Beatrice. E o que gostaria de pedir?

— Sei que a criatura que está no laboratório de exames não é mais o Dylan que conheço. Mas será que eu poderia ir alguns instantes depois de vocês? Eu gostaria muito de me despedir dele, já que... não temos certeza de voltaremos para cá.

Kai interveio imediatamente.

— De jeito nenhum, pirralha! Sei muito bem que você e Tracey se encarregaram brilhantemente daquele monstro, mas não podemos ficar nos arriscando de forma imprudente. Entende o que eu estou dizendo?

— Eu sei, Kai. Eu só preciso de alguns minutos. Além disso, a quantidade de sedativo que aplicamos vai ser suficiente para deixá-lo desacordado até... qualquer momento desses.

Alex se aproximou e apoiou a mão no ombro de Kai.

— Acho que devemos confiar nela, Kai. Ela e Tracey merecem nosso crédito. Elas já passaram por muita coisa.

Kai fechou os olhos por alguns instantes e em seguida se agachou um pouco para que seus olhos ficassem na direção dos olhos dela.

— Escuta aqui... A gente vai caminhar bem devagar e vai esperar por você. Quero que me prometa se acontecer qualquer coisa, mas qualquer coisa mesmo, você vai gritar o mais alto que puder. E quando acontecer, se acontecer, eu vou voltar correndo e não vou dar a mínima para esses caras. Será que fui bem claro?

— Mais claro do que esse dia nebuloso — ela respondeu, simulando uma continência — Além disso, eu sei o caminho, poderia ir até a biblioteca de olhos vendados.

Após abrir um sorriso, Kai abraçou Beatrice fortemente e a beijou na testa.

— Se cuida, pirralha!

Sahyd se aproximou de Alex e sugeriu.

— Temos bastante munição, mas não sei de quanto iremos precisar. O que acha de usar as armas brancas no início?

— Eu concordo! Podemos usar o armamento pesado para as criaturas mais rápidas, como os cães.

— Pode deixar os cachorros e afins comigo! — propôs Kai, repousando sua espada às costas — Não se esqueçam que não é só no contra os zumbis que vamos lutar. Deve ter um monte daqueles desgraçados da Ômega preparando elemento surpresa. Quanto mais munição economizarmos, melhor.

— Me encarregarei dessa parte do problema! — interveio Solomon — Seguirei mais distante, observando possíveis trincheiras improvisadas.

Annchi ficou ao lado de Tracey e lhe entregou um revólver 762, com todo o tambor carregado. A jovem agradeceu com um aceno de cabeça e guardou a arma em um coldre que inseriu em sua cintura.

— Você vem comigo, gatinha! Suas flechas são incríveis, mas isso vai te dar uma ajuda e tanto!

— Valeu, Annchi! Eu gostaria muito que sua mãe pudesse lutar ao nosso lado.

Annchi olhou para uma das janelas e não conteve um sorriso.

— Ela está lutando ao nosso lado. Só não quer admitir ainda.

O grupo se apontou e partiu, deixando Beatrice sozinha no saguão do hospital. Ela guardou a sua faca de combate na cintura e seguiu pelo corredor de emergência, se dirigindo até o setor de procedimentos biológicos. A sala estava escura, iluminada somente pela luz do monitor de batimentos cardíacos. Em um leito improvisado, composto por duas camas, estava a criatura que havia sido o garoto Dylan. Seu imenso corpo de cinco metros estava inerte, e os tubos que lhe proporcionaram oxigênio ainda estavam conectados à sua enorme boca. Solomon havia sugerido mantê-lo vivo e saudável na medida do possível, pois queria estudar a mutação que mantinha o garoto ainda vivo. Beatrice se aproximou do gigante e acariciou sua cabeça. Ficou durante alguns momentos em silêncio. A respiração do monstro ainda era fraca e lenta, porém aparentava uma certa tranquilidade. Beatrice aproximou seu ouvido das narinas de Dylan para sentir sua respiração. Quando ergueu a cabeça, sorriu com alegria e disse, baixinho.

— Oi, parceiro... senti saudades! Está pronto para a próxima aventura?


CODINOME: DELTAOnde histórias criam vida. Descubra agora