Capítulo 65

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Há quinze anos...

O inverno predominava no grande jardim da família Yagami, porém não era rigoroso a ponto de espantar as duas crianças que brincavam alegremente, colhendo os primeiros lírios que milagrosamente sobreviveram ao frio de Westfield. A pequena Salma corria exibindo as flores em seu cesto, sorrindo para o seu irmão mais velho.

— Onde estão seus lírios, Kai? Ouvi você dizer que eu não veria nem a cor deles!

— No ano passado, eu peguei todos os lírios. Acho justo que você pegue os seus esse ano! — desculpou-se Kai, obviamente usando um pretexto para disfarçar a sua derrota.

— Não pareceu que você quis deixar seus lírios para mim! — Fez um esforço tão grande para procurar por eles.

— Tá bom, eu admito! Esse ano você foi mais esperta. Não se pode vencer todas! Mas na próxima vez, não irei facilitar.

Salma e Kai caminhavam lentamente a despeito do vento frio e rigoroso que soprava em seus rostos. A menina olhava atentamente para os lírios em sua mão e sorria, o que despertou a curiosidade do irmão.

— Salma... do que está rindo?

Salma olhou para o irmão, mas o sorriso não desaparecera do seu rosto.

— Já prestou atenção nesses lírios, Kai? Veja como ainda estão vivos e coloridos, mesmo com toda a força do inverno.

— Bem, eu vejo assim, mas... acho que é só porque eles têm que ser desse jeito, não é?

— Mas, você nunca se perguntou como eles conseguem permanecer assim?

Kai ficou em silêncio, pensativo. Salma não esperou por uma resposta e complementou:

— Seria tão bom se, assim como esses lírios, também pudéssemos manter essa chama da viva acesa em nós, bem assim, cheios de cor, para que as pessoas pudessem ver de longe.

— Mas isso não funciona com a gente, Salma. Somos seres humanos e somos... mais frágeis.

Então, Salma deixou cair um único lírio, de modo que este foi levado para longe sem o menor esforço pela corrente de frio. Kai se pegou observando o trajeto da flor e, inconscientemente, se pôs a refletir no que a irmã acabara de dizer. Salma deu um leve toque no nariz de Kai para chamar de volta a sua atenção.

— Está vendo? O vento não consegue levar você daqui, mas levou facilmente o lírio. Acho que o seu argumento está errado! — disse ela, sorrindo.

— Mas então... por que isso acontece? Como o lírio consegue sobreviver ao frio, enquanto nós sofremos tanto nesse período?

— Isso é porque o lírio não se preocupa com o frio, porque ele sabe que é inevitável! Não há como conter o frio. O que podemos fazer é nos abrigar da melhor forma e viver intensamente durante esses dias. E não nos esquecermos de que, aconteça o que acontecer, o frio é passageiro. Assim como tudo em nossa vida.

Kai sorriu e passou o braço direito por cima do ombro da irmã.

— Bem, por falar em frio... precisamos ir para casa! A mamãe vai adorar esses lírios coloridos, que são mais fortes e mais fracos do que nós.

Os irmão estavam começando a caminhada de volta para casa quando, repentinamente, Salma teve uma crise de tosse muito forte. Foi um ataque tão forte que ela se agachou e teve dificuldade para respirar. Kai a segurou pelos ombros e exclamou:

— Irmã! O que foi? O que está sentindo?

— Eu... não sei! — Salma tentava responder, ainda tossindo incessantemente. Kai olhou para o chão coberto de neve e seu corpo estremeceu ao ver uma porção de sangue vivo em contraste com o chão alvo.

— SALMA!

Kai virou levemente o rosto da irmã para que ela não visse o sangue e, em seguida, tirou o seu próprio casaco e a envolveu para protegê-la do frio.

— Vamos, eu vou te levar para casa. Papai saberá o que fazer!

Kai ergueu o corpo enfraquecido da irmã, de modo que ela ficasse totalmente acomodada em suas costas.

— Kai... eu consigo andar...

— Não, você não pode se esforçar muito! Acho que esse frio acabou te fazendo mal.

— Kai...

Salma adormeceu, extremamente fraca. Os lírios caíram de sua mão e Kai conseguiu pegá-los no ar, antes que chegassem ao chão. Ele olhou para eles e em seguida para a irmã, acima de seus ombros.

— Irmã... aguente, resista ao frio um pouco mais, assim como os lírios que você colheu. Logo, logo estaremos em casa.

Naquele dia, mais tarde, Salma estava deitada em sua cama, e as crises de tosse pareciam intermináveis. Masami Yagami, o pai de Kai e Salma contemplava aflito o sofrimento da filha, enquanto repousava a sua mão na testa da menina. Leona, sua esposa, permanecia ao seu lado, também velando pela saúde da filha.

— Querido... acha que pode ser...?

— Não há dúvidas! — Masami respondeu, antes que a esposa terminasse a pergunta — É a mesma enfermidade que matou os meus ancestrais. Não pode ser... eu acreditei que essa maldição já houvesse nos deixado!

— Vamos levá-la ao hospital imediatamente! — exclamou Leona — As crises começaram agora, ainda há tempo!

— É claro! — Masami se dirigiu ao filho mais velho, que chorava de soluçar na beirada da cama da irmã — Kai, meu filho... por favor, pegue os documentos de sua irmã na bolsa de sua mãe. Eu vou aprontar o carro para sairmos.

Kai secou as lágrimas com o braço e já se preparava para correr, quando a voz de Salma os interrompeu.

— Papai... Por favor, não...

Leona correu para acalmar a filha, que tentava a todo custo se levantar da cama.

— Salma, não se esforce! Fique deitada, nós já vamos levá-la ao hospital! Por favor, fique repousando!

— Eu li nos registros antigos da família... essa é uma doença que não tem cura, Mamãe... A minha dificuldade para respirar se prolongou ao longo dos anos... vocês sempre me disseram para não me esforçar demais, mas... eu não pude deixar que Kai fizesse tudo por mim a vida inteira!

Kai correu ao seu encontro e, cuidadosamente, posicionou a irmã de volta ao repouso.

— Não fale mais, Irmã... vai ficar tudo bem! O papai já está indo pegar o carro para irmos ao hospital! Esqueça essa coisa de doença que não tem cura. Vivemos tempos diferentes agora, não é como na época dos nossos ancestrais.

— Kai... você sempre foi tão bondoso... nunca deixe que a bondade abandone o seu coração!

— Para de falar besteiras, Salma! não fique falando tanto, ou seu pulmão vai se machucar ainda mais!

— Irmão... você cuidou tão bem de mim... até esse momento! Haverá um dia em que uma outra pessoa aparecerá em sua vida e também precisará do seu coração bondoso e dos seus cuidados. Quando essa pessoa aparecer, cuide dela assim como cuidou de mim... independente do que aconteça! Pode me prometer isso, Kai?

— Salma... por favor, pára! — Kai não conseguiu mais segurar as lágrimas.

— Me prometa, Kai... leve essa promessa junto com a sua honra!

Assim como Kai, Masami e Leona sabiam que a hora de Salma havia chegado e sua missão na Terra estava por se encerrar. Tal qual os lírios que se deixam levar pelo vento do inverno, assim o espírito de Salma se entregava ao fluxo inevitável da eternidade. Ela sorriu uma vez mais para o irmão e uma lágrima escorreu de seus olhos cansados.

— Kai... por favor, chegue mais perto!

Obedecendo, profundamente entristecido, o irmão aproximou seu rosto do rosto de Salma e esta afagou fracamente seus cabelos.

— Seja forte, Kai... suporte o Inverno e continue belo... assim como os nossos lírios. Proteja com sua vida as pessoas que amamos! — E, dizendo isso, segurou o rosto do irmão com as duas mãos e lhe deu um beijo carinhoso na testa.

CODINOME: DELTAOnde histórias criam vida. Descubra agora