Tracey Murray se recusava a acreditar no que ocorria na caverna-laboratório, apesar das dores física e emocional estarem consumindo-a pelos golpes deferidos por Beatrice, que mantinha a expressão inabalável e ainda encarava a irmã. Tracey se levantou e, se apoiando na parede às suas costas, conseguiu se manter de pé. Ela analisava Beatrice dos pés à cabeça, procurando qualquer resquício do que antes era a sua irmã adorável. Naquele momento, ela não passava de mais um soldado, uma figura de combate que, aparentemente, estava disposta a cumprir as ordens dos seus mentores.
— Bea... eu não quero fazer isso... pára, por favor!
As palavras de Tracey pareceram causar exatamente o efeito contrário. Inicialmente, Beatrice caminhou lentamente em direção à irmã, mas depois correu, determinada, saltou novamente e atingiu em cheio o rosto da garota. Tracey rolou mais uma vez pelo chão e bateu violentamente contra a parede do outro lado da caverna. De repente, uma voz pareceu ecoar por todo o laboratório. Mais uma vez, a voz agora insuportável de Brendon Davis invadiu os ouvidos dos sobreviventes.
"Bem, cá estamos nós novamente! Sabem, anteriormente eu acabei subestimando vocês e esse foi um erro gravíssimo que acabou me custando muitas coisas. Mas agora é diferente, como vocês podem perceber! Podem destruir um crocodilo mutante, um cão cérbero e minha queridíssima Lady Octopussy. Mas como se sairão lutando contra alguém que amam como se fosse da família? Senhorita Murray, será que você vai ser capaz de tacar fogo em sua irmã, da mesma forma que fez com meu bichinho? Eu acho bom não se esquecer de que, nesse momento, ela está obedecendo somente aos meus comandos! Se você é tão valentona assim, não vai ter muita dificuldade em mais essa batalha, vai? Boa sorte a todos vocês!"
Annchi olhava indignada para os auto falantes distribuídos pela caverna, como se quisesse encontrar o próprio doutor Delta.
— Filho da puta, desgraçado! Você passou de todos os limites, Brendon! Espere só até eu te encontrar!
— Ei, vocês! — Tracey exclamou, se levantando novamente — Eu quero que vocês avancem para outra sala. Eu cuido de Beatrice!
Sahyd interveio:
— Tracey, eu não acho que seja uma boa ideia... devemos lutar juntos, principalmente... agora!
— Ela tem razão, Sahyd! — declarou Alex — A Ômega está controlando a mente de Beatrice para nos atrasar, pois sabem que não seremos capazes de fazer mal a ela. Porém, Tracey a conhece por toda a sua vida! Se há alguém que pode lidar bem com uma situação assim, com certeza é ela. Vamos, precisamos seguir!
Algo ou alguém abriu a porta automática no fundo da caverna, como se tivesse ouvido o que Alex acabara de dizer. Muito relutantes, os sobreviventes caminharam em direção à porta enquanto Beatrice continuava encarando a irmã, que ainda tinha dificuldades para se manter de pé. O grupo passou pela garota de preto, que não demonstrou reação alguma e não tirou os olhos de Tracey. Annchi e Alex olharam para trás, antes de passarem pela porta. Tracey, impaciente, ordenou.
— O que estão esperando? Vão embora, já perdemos tempo demais! Andem!
— Se cuida, Tracey! — disse Annchi, antes de se virar e passar pela porta automática, que se fechou assim que o grupo saiu. Tracey caminhou em direção à irmã e indagou:
— Ainda pode me ouvir, Bea? Se estiver escutando, preste atenção.... você precisa resistir a esse controle! Tente se concentrar e elimine essa pressão em seu cérebro.
Beatrice continuava olhando para Tracey, o semblante frio como aço e seus olhos sem doçura alguma. Finalmente, ela falou, mas ao invés de alívio, a voz de Beatrice causou pavor em Tracey.
— Eliminar invasores! Prioridade um!
— Não, Bea... essa não é você... acorda! Anda, fala comigo!
Quando Tracey chegou a poucos passos da irmã, esta precitou-se novamente e acertou um violento soco em seu rosto. A brutalidade do golpe fez com que Tracey fosse lançada ao chão novamente. Uma vez caída, Beatrice andou até ela e desferiu um chute forte no estômago da irmã, que se retraiu imediatamente, chorando de dor.
— Não se preocupe, Bea... eu vou tirar você desse sofrimento! Prometo a você! Vamos sair daqui juntas...
Beatrice se preparou para desferir outro chute no estômago de Tracey, mas antes que conseguisse, a irmã segurou o seu pé e a derrubou. Beatrice caiu no chão e, rapidamente, Tracey se levantou. Ela segurou firme a irmã pela gola do uniforme preto e bradou.
— Acorda, Bea!
Foi a vez de Tracey desferir um forte soco no rosto de Beatrice, que se retraiu, mas pareceu suportar a dor. Houve um segundo soco, mas não um terceiro, pois a jovem conseguiu segurar os dois braços da irmã e desferir-lhe uma cabeçada em seu rosto. Tracey ficou atordoada e sua visão ficou extremamente turva. Beatrice a segurou pelos cabelos e arrastou a irmã até que conseguisse jogar sua cabeça contra uma outra escrivaninha que estava próxima dali. Tracey lutou para não desmaiar com o impacto, que foi capaz de quebrar outra escrivaninha. Beatrice se aproximou lentamente e repetiu, em uma voz quase robótica:
— Eliminar invasores! Prioridade um!
Tracey levou as mãos à cabeça na tentativa de aplacar a dor e depois olhou para cima, vendo que a irmã estava novamente parada e em pé à sua frente, pronta para desferir outro golpe sem hesitar. Entretanto, a sua visão, que estava turva, fez com que ela enxergasse algo além do que era possível ver com um olhar comum. A silhueta de Beatrice se tornou apenas uma sombra e somente os seus olhos eram visíveis. Eles ainda eram opacos e impiedosos, mas um detalhe extremamente crucial chamava a atenção de Tracey. Os olhos de Beatrice choravam lágrimas de sangue. O vermelho do lamento da garota contratava com sua silhueta escura, formando a imagem mais triste que Tracey já havia visto por toda a sua vida.
— Bea... o seu coração está chorando... eu consigo sentir! Posso sentir a tristeza em sua alma!
Beatrice chegou mais perto. A visão de Tracey ficou nítida novamente e a silhueta negra que chorava lágrimas de sangue deu novamente lugar à garota de uniforme de combate, semblante severo e dicção mecânica.
— Eliminar invasores! Prioridade um!
Tracey rolou para trás em uma cambalhota e se colocou rapidamente de pé. Ela correu em direção à irmã e deu um chute em seu tórax, que a fez voar até o lado oposto da caverna, destruindo uma terceira escrivaninha com computador. Beatrice se levantou imediatamente e as duas correram, uma em direção à outra. Um assustador combate corpo a corpo se seguiu. Beatrice atacava sem piedade, enquanto Tracey defendia-se dos golpes e, na medida do possível, acertava o rosto da irmã, para que ela ficasse atordoada por alguns segundos, o que dava a ela a chance de tentar encontrar o microchip nas têmporas de Beatrice. Infelizmente, a garota era incrivelmente rápida e conseguia se desvencilhar de Tracey, agarrando seu pescoço em um mata-leão e lançando-a ao chão. Ainda deitada, Tracey atacou com os dois pés o rosto de Beatrice, que cambaleou para trás, ao que Tracey saltou e desferiu outro chute no rosto da irmã. Foi o suficiente para que Beatrice tropeçasse em uma das escrivaninhas que estavam tombadas e caísse de nuca, desmaiando e ficando finalmente fora de combate. Tracey correu até a irmã em um lapso de desespero.
— Beatrice!
Ela chegou perto da garota e tentou localizar o microchip, mas foi surpreendida por um som insuportável de uma sirene que aumentava e aumentava, ficando tão alto no interior da caverna que Tracey gritava, sentindo a sirene invadir o âmago do cérebro. Beatrice continuava inconsciente e Tracey não viu outra alternativa a não ser correr para fora do lugar, passando pela porta automática, que se abriu novamente e se fechou assim que ela chegou ao outro lado. Finalmente livre da sirene ensurdecedora, Tracey caiu de joelhos e a tristeza novamente invadiu o seu coração.
— Minha irmã... eu vou voltar e te livrar dessa agonia... É uma promessa!
Distante dali, na superfície, fora dos limites do laboratório, o impacto do embate das duas irmãs pareceu ter atingido de maneira dolorosa a figura que corria no entardecer em direção à biblioteca. O pôr do sol evidenciava a sombra do homem de um metro e noventa que se aproximava do local da batalha e que sabia exatamente quem encontrar, onde encontrar e o que fazer.
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CODINOME: DELTA
HorrorWestfield é uma grande e importante metrópole. Regida quase que completamente pelo capitalismo, abriga diversas empresas e oferece oportunidades a muitas pessoas, o que a torna uma cidade convidativa e perfeita para se viver. Porém, tudo muda radica...
