Capítulo 74

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Se a cena no salão de conservação de arquivos fosse ser descrita em uma palavra, grotesco com certeza seria o termo correto. O soldado Bruce Anderson, morto cruelmente pela aranha gigante, jazia em sua pata como se fosse um verme grudado em sua pele. Lady Octopussy sacudiu a pata de maneira assustadora uma única vez e o corpo de Bruce foi lançado com toda a força contra a parede do lado oposto. Aquilo que era um soldado deslizou em uma poça de sangue lentamente entre a parede e o solo, finalmente se deitando para sempre. Enfurecidos, Alex, Sahyd, Annchi e Solomon disparavam contra o monstro, que sentia o corpo arder com o calor das balas. É inútil, pensou Tracey, vendo claramente que a aranha jamais seria vencida por armas comuns. Ela percorreu o olhar pelo salão à procura de uma estratégia. E não demorou muito para que ela encontrasse uma garrafa de solvente embaixo de uma das escrivaninhas.

Tracey olhou para Lady Octopussy e, vendo que ela estava distraída, correu agachada até a mesa que abrigava o solvente e escorregou pelo chão, alcançando a garrafa e se levantando em seguida em busca de algo que pudesse causar combustão. À primeira vista, não havia nada que ela pudesse utilizar para criar uma mistura. Contudo, uma ideia passou pela sua cabeça enquanto Alex tentava de todas as formas atingir os olhos da aranha com a Magnum. Ela se agachou novamente e percorreu rapidamente o salão, com os olhos atentos em cada metro quadrado. Após quase um minuto de procura, Tracey encontrou, armazenado em um nicho de armário semiaberto, um isqueiro. Ela torceu para que houvesse gás o suficiente no dispositivo para que ela pudesse fazer o que pensava em fazer. Ela olhou novamente ao redor e viu que Lady Octopussy escalava o teto na tentativa de encurralar Alex e os outros incômodos. A atenção da criatura estava totalmente no lado oposto, o que deu a Tracey tempo suficiente para se levantar, correr até o armário e pegar o isqueiro sem fazer ruídos. Para quem havia roubado uma moto em Phoenix, aquilo foi brincadeira de criança.

Ela correu com o solvente e o isqueiro para perto de Alex e entregou a ele os objetos.

— Agora só precisamos que ela dispare a teia! — explicou Tracey.

— Garota, você é incrível! — exclamou Alex, e fechou a mão para o grupo, como um sinal de cessar fogo. A aranha descia vagarosamente pela parede e devorou o corpo de Bruce, que já estava em pedaços. O grupo precisou se segurar para não entrar em desespero diante do frenesi alimentar. Tracey não conseguiu impedir que uma lágrima rolasse por seu rosto. Pouco a pouco, a aranha digeria cada parte do homem até que não sobrasse nada além de seu coturno. Em seguida, ela escalou a parede novamente e correu pelo teto, sendo acompanhada pelos olhos apavorados dos sobreviventes. Eles mantiveram uma distância segura de Lady Octopussy e ficavam atentos a cada movimento dela. E foi então que a oportunidade de ouro surgiu. Vendo que as presas estavam longe do seu alcance, a criatura lançou sua teia em direção ao grupo e Tracey a agarrou como se fosse uma corda. A teia era absurdamente espessa e parecia muito mais difícil de agarrar do que qualquer um pudesse imaginar.

Mesmo assim, Tracey segurava a teia com as duas mãos enquanto a criatura se debatia furiosamente tentando se livrar da garota.

— Alex, não consigo aguentar muito tempo! — ela gritou.

Imediatamente, Alex derrubou um pouco do solvente na teia e, com o isqueiro, ateou fogo, criando uma labareda instantânea e assustadora. As chamas rapidamente subiram pela teia até chegar à Lady Octopussy. Assim que o componente inflamável entrou em contato com a saliva contaminada do monstro, a aranha entrou em convulsão. Ela tremia e se sacudia enquanto o fogo consumia todo o seu corpo imenso. O gemido de agonia da criatura era um dos sons mais horríveis de serem ouvidos por qualquer pessoa na face da Terra. Lady Octopussy se transformou em uma bola de fogo colossal. Em poucos instantes, o seu corpo foi dissolvido, não restando quase nada além de pedaços de pele contaminada.

Enfraquecida, Tracey quase desmaiou, mas foi amparada por Alex, que a repousou no chão.

— Merda... cadê a Beatrice?

— Nós vamos encontrá-la! — declarou Alex — Falta muito pouco, Tracey. O antivírus está praticamente em nossas mãos e tudo o que temos que fazer é inserí-lo na sonda que Bill mencionou e fazer com que o doutor Delta pague por todos os seus crimes!

— Aquele filho da puta... se ele ousar tocar em um fio de cabelo da Bea...

— Alex! — soou a voz de Annchi mais ao fundo da sala — Olha só pra isso!

Alex olhou, assim como Tracey e os demais. Uma espécie de porta camuflada se abriu, revelando uma profunda escuridão. Alex correu até Annchi para ver o que ela observava com tamanho espanto. Um túnel construído recentemente se estendia pelo que pareciam ser quilômetros. Alguns poucos dispositivos de iluminação distribuíam-se pelo corredor e um odor causado pela mistura de produtos químicos exalava pelo ambiente. Não havia explicação mais plausível. A biblioteca Vale do Eclipse era uma espécie de fachada que ocultava o esconderijo da Organização Ômega. Aquele caminho era utilizado pelo doutor Delta, por Kassandra Winslet, Mark Denver e quem mais quisesse perambular por Westfield sem precisar ser incomodado pelos Carnívoros.

— Como essa porta se abriu? — indagou Alex.

Annchi pareceu refletir por alguns instantes e respondeu.

— Ou alguém está brincando com a gente ou alguém dentro da Ômega está jogando do nosso lado. Brendon pode ser extremamente sádico, mas ele nunca facilitaria as coisas para quem quer que seja.

— Tenho certeza de que Mia está nos ajudando! — comentou Alex — Ela é o tipo de pessoa que não segue nenhuma regra.

— Pode ser... mesmo assim, tenho medo do que possa acontecer!

Alex sacou a Magnum novamente e se adiantou rumo à escuridão.

— O medo vai nos acompanhar daqui em diante e para ser sincero, isso é bom! Vamos, precisamos encontrar nossos amigos e o Eurídice.

No anexo do laboratório reservado para as pesquisas do doutor Delta, o som de um bipe de confirmação indicava que o tubo de ensaio, que acabava de emergir de um refrigerador, estava pronto para o seu primeiro teste. O pequeno frasco, contendo um líquido púrpura e borbulhante, foi pego com todo o cuidado possível entre o polegar e o indicador de mão esquerda de Brendon Davis. Os olhos do homem foram tomados por uma emoção que poderia ser julgada como insana. Sua mão boa tremia, a ponto de quase derrubar a seringa contendo a última variante do Orpheu. Abrindo um sorriso doentio, o doutor Delta falava consigo mesmo.

— Aqui está... a arma definitiva! A última variante do Orpheu! Algo jamais visto pela humanidade e jamais sentido por homem algum... e agora está aqui, bem na minha frente! Seja muito bem vindo, Hades!

E não conseguindo mais conter a ansiedade, o doutor Brendon Davis inseriu de uma só vez a seringa em seu próprio pescoço.

CODINOME: DELTAOnde histórias criam vida. Descubra agora