Capítulo 84

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Após incontáveis dias de sofrimento, dor e saudade, a família Zhang estava novamente reunida. Por mais aterrorizante que fosse o ambiente onde se encontravam, Annchi não se lembrava qual foi a última vez que se sentia tão feliz. Por um instante, tão fugaz e quase imperceptível, ela se esqueceu de todo o pesadelo que viveu nos últimos dias. Contudo, haveria tempo suficiente para colocar as conversas em dia, recomeçar a vida, replanejar o convívio. Isso se eles superassem o enorme desafio que se encontrava à frente. O gigante Brandon Davis avançava com passos pesados e dizia, com sua voz mutante e furiosa.

— Você ousou me enganar por todo esse tempo... eu deveria ter suspeitado que havia um traidor entre nós! Jamais imaginei que tudo não passava de um ardil para tentar parar meu trabalho. Mas eu lamento dizer que tudo isso foi em vão. É muito bom ter vocês reunidos, pois assim poderei acabar com todos de uma só vez!

De repente, a cabeçorra de Davis foi violentamente atingida pelo impacto de uma bala vinda da Magnum de Alex. O policial ainda estava com o revólver apontado quando provocou.

— A gente ainda não acabou nossa conversa, seu asqueroso! Você é quem não vai sair daqui com vida. Sua existência, assim como o Orpheu, acaba aqui.

O monstro soltou uma gargalhada que ecoou por todo o salão.

— Realmente pensa que pode fazer algo contra mim, policial? Meus poderes agora não têm limites! É só uma questão de tempo até que eu possa descartar os cadáveres de vocês! Não terão sequer o privilégio de trabalhar como meus soldados! Vou enviá-los diretamente ao inferno!

Alex empunhou o rifle de precisão dado por Solomon e atirou novamente, causando um novo impacto no rosto de Brendon. O disparo despertou a fúria do gigante, que correu na direção do homem. Alex se desvencilhou de um poderoso golpe do braço do monstro, rolando no chão e disparando novamente com a Magnum na nuca da criatura. Sahyd Youssef deu cobertura a Alex, atirando freneticamente contra o peito de Brendon. Os disparos não eram suficientes para derrubar o gigante, mas causavam dor, o que anulava qualquer estratégia de combate por parte do monstro. Mia aproveitou a distração de Brendon e gritou.

— BEATRICE! O ANTIVÍRUS! CORRE ATÉ A SONDA!

— Tá... tá certo! — respondeu Beatrice, correndo com a ampola em direção à porta de saída. Seu caminho, porém, foi interceptado pelo monstro, que se colocou em sua frente e lhe desferiu um violento golpe com seu braço imenso. Beatrice foi lançada longe e caiu, quase inconsciente. O Eurídice continuava protegido em suas mãos. Dylan, furioso, levantou-se repentinamente e correu em direção a Brandon, o golpeando novamente, fazendo o gigante bater violentamente as costas contra o muro de pedra.

— Seu verme nojento! — gritou Brandon, ensandecido, contra-atacando seu opositor. Dylan se mantinha firme e iniciou uma luta corporal contra o outro gigante. Cada golpe era um terremoto dentro da caverna. Feng Huang correu até Brandon e disparou seu revólver contra as costas do monstro, chamando sua atenção. Alex, Sahyd, Solomon, Kai, Lancelot, Annchi, Mia e Tracey iniciaram um ataque em conjunto, cada um com sua respectiva arma. Brandon parecia estar acuado, mas em certo momento, seu braço direito esticou-se até golpear a parede da caverna, fazendo com que pedaços do teto caíssem sobre o grupo. Sentindo o peso do desmoronamento, os sobreviventes caíram, uns sobre os outros, atordoados. Dylan avançou novamente e conseguiu derrubar Brandon ao chão. Uma sequência de ataques com quatro braços teve início. Dylan golpeava o gigante incansavelmente. A cabeça de Davis bateu por várias vezes e ele estava quase ficando inconsciente, quando o inesperado aconteceu. O braço de Brandon, que estava livre no chão, se esticou na direção de Dylan, que estava sobre o seu corpo, e atravessou o abdômen gigantesco do Kraken. Os ataques de Dylan imediatamente cessaram. Era possível ver o braço esticado de Brandon sair pelo outro lado das costas do outro gigante. Um dos últimos que o Kraken foi capaz de ouvir foi a voz de Beatrice, que gritou, a plenos pulmões.

— DYLAAAAAAN!

Ele ainda conseguira direcionar sua visão para a sua protetora. Apesar de toda a dor e do medo, Dylan se sentiu feliz por ter a última chance de olhar para a sua tutora, sua amiga, para aquela pela qual ela seria capaz de entregar sua vida. Como de fato o fez. A visão da caverna foi se apagando, bem como dos monitores destruídos, dos seus outros protetores caídos ao chão, presos sob os pedaços de rocha. O terror do doutor Brandon Davis foi se apagando por completo, dando lugar a uma claridade tão intensa que chegava a ofuscar seus olhos. Em instantes, Dylan já não estava mais na caverna-laboratório da Organização Ômega. E também já não era mais a criatura de cinco metros de altura e quatro braços. Ele era novamente uma criança e conseguia respirar um ar tão limpo e já não sentia mais medo ou raiva de coisa alguma. Dylan apalpou o seu próprio corpo para ter certeza de que a transformação se reverteu.

Sou eu novamente, ele pensou. E era realmente. O mundo, antes branco como uma luz absurda, foi dando lugar a um jardim que parecia interminável. As orquídeas, margaridas, violetas, peômias, lírios do campo e dentes-de-leão pareciam dançar sob uma brisa tão leve que era quase imperceptível. Como se fosse de propósito, a imensidão de flores estava perfeitamente dividida em dois campos, estando uma extensa trilha exatamente no meio. Dylan resolveu percorrer o caminho, que lhe era tão agradável aos olhos.

Sinto o cheiro e o reconheço. É o perfume da minha mãe... mas por quê? Como pode estar aqui?

— E por que não estaria? Estamos todos aqui! — disse uma voz muito familiar.

— Beatrice? Onde estão todos?

— Todos viremos em breve... Mas, por enquanto, preciso que cuide do nosso jardim!

Dylan deu mais alguns passos e se deixou guiar pela voz de Beatrice. Olhando ao redor, ele não deixou de perceber um detalhe.

— Não há mal algum aqui... Essas flores, todas elas... estão tão vivas que parecem conversar conosco.

— Isso é porque elas estão cheias de alegria! Porque você está aqui! — respondeu Beatrice, de algum lugar — De hoje em diante, não há mais o que temer, Dylan! Aqueles que há muito tempo te chamam pelo nome te esperam ao final dessa trilha.

Mamãe... Papai... Poderei ir mesmo até vocês?

— Dylan... Não nos veremos durante um bom tempo. Até lá, encha seu coração com a alegria que você reencontrou.

— Mas e você, Beatrice? E os outros?

— Ficaremos bem, eu prometo! A escuridão logo se dissipará e o sol voltará a brilhar, assim como nesse jardim!

— Então... É hora de ir?

— Sim, Dylan... Mas o tempo já não merece mais a sua preocupação. Deixa que cuidemos de tudo por agora. Dê um abraço aos seus irmãos do orfanato por mim. Diga-lhes que eu os amo... de todo o meu coração!

— Beatrice... Eu te amo tanto! Obrigado por tudo...

O imenso corpo caído no chão frio da caverna-laboratório já libertara o pequeno Dylan de sua prisão de agonia. E foi esse mesmo corpo que o enorme doutor Delta jogou sem respeito algum em um poço de ácido que estava próximo aos enormes contêineres de ensaio. Beatrice Murray foi tomada pelo mais profundo ódio, sentimento esse que estava mesclado com a tristeza e a saudade do seu último órfão. Como se uma força desconhecida eliminasse toda a dor que sentia, ela correu em direção ao monstro, sacou novamente sua faca de combate, saltou para cima da criatura e cravou com toda a força a faca em seu olho esquerdo, destruindo completamente o globo ocular e a córnea. Brandon gritou de agonia, cambaleou e foi ao chão. Era a chance que os sobreviventes precisavam. Alex juntou suas forças, se levantou e correu em direção ao gigante. Tracey se levantou em seguida, acompanhada de Kai e os outros. Alex apontou com o indicador a porta automática se abrindo e Beatrice entendeu o recado. Ela teria uma vida inteira para chorar por Dylan, mas aquele momento em específico era decisivo. O Eurídice estava em suas mãos. A horda de Carnívoros era o último obstáculo que a separava da sonda espacial. O Orpheu ainda corria em suas veias. Não havia mais tempo a perder.

Falta muito pouco, Dylan! Obrigada por tudo...

CODINOME: DELTAOnde histórias criam vida. Descubra agora