A fumaça tóxica aos poucos ia se dissipando, movida também pela força da hélice do helicóptero que se distanciava. Aos poucos, o mundo ficava visível novamente, enquanto os sobreviventes tentavam controlar a respiração e, na medida do possível, voltar a enxergar o que ocorria ao seu redor. Tracey Murray recobrava a consciência lentamente e tentava lutar contra a própria fadiga. Quando enfim conseguiu se levantar, percorria os espaços que eram visíveis em meio à fumaça. Ela esfregava os olhos, que ainda ardiam. Sua garganta parecia pegar fogo e seus pulmões doíam tanto que pareciam prestes a explodir. Mesmo com todo o sofrimento, ela gritava pela irmã.
— BEATRICE! BEA! ONDE VOCÊ TÁ? BEA!
O silêncio que se seguiu foi perturbador. Tracey percorria desesperada com o olhar todo o ambiente ao redor. Nem sinal da irmã e nem de Kai. Lágrimas se acumularam em seus olhos ressecados. Ela já não conseguia controlar o soluço. Por fim, ajoelhou-se no chão e deixou de resistir ao pranto. Annchi correu ao seu encontro, se agachou e colocou as duas mãos nos ombros da jovem.
— Ei, se acalma! A gente sabe muito bem pra onde Beatrice foi levada. E você, melhor do que ninguém, sabe que ela não vai se entregar tão facilmente! Sem contar que Kai está com ela.
Ao erguer o olhar para encarar Annchi, Tracey ostentava uma expressão que até então não tinha sido vista por nenhum dos sobreviventes até aquele momento. A coragem havia deixado seus olhos e o medo parecia ter dominado a sua alma. Tracey era uma criança com medo novamente e temia profundamente que o reencontro com Beatrice pudesse ter sido apenas um lampejo de felicidade.
— Eu a perdi de novo, Annchi! Não consegui proteger a Bea... foi como aquele dia na praia, quando ela estava quase se afogando e eu não pude fazer nada! Beatrice teria morrido naquele dia se não fosse...
Uma sombra se projetou sobre Tracey e Annchi, que ainda estavam ajoelhadas. Alex Stevens se aproximava, com um sorriso de esperança e determinação.
— Não acredito que já está desistindo! Nem começamos a luta ainda...
Tracey olhava para Alex e queria disfarçar as lágrimas, mas àquela altura, já não era possível. Ela esfregou o braço direito nos olhos e se manteve de cabeça baixa.
— Mesmo nesse pesadelo em que estamos vivendo, ainda temos o direito de chorar um pouquinho! — continuou Alex — Isso é bom para recuperarmos as forças e o fôlego. E saiba que Annchi tem toda a razão. Vamos resgatar Beatrice com toda a certeza, mas isso não significa que ela esteja indefesa na base da Ômega. Se quer saber, antes de você chegar de Phoenix, ela já nos salvou umas duas vezes daqueles zumbis.
Annchi não pôde deixar de dar uma leve gargalhada.
— Estávamos encurralados por mortos-vivos e cachorros no meio da cidade e a ideia que ela teve foi ligar o som de um carro no último volume pra atrair a horda para longe.
— E quem sabe o que ela é capaz de fazer, agora que dominou o Orpheu — completou Alex, achando certa graça na situação.
Tracey então ergueu o seu rosto, ainda úmido pelas lágrimas e encarou Alex por alguns instantes.
— Alex... foi você, não foi?
O policial olhou confuso para Tracey.
— Fui eu? Do que está falando?
— Na praia, há oito anos... o policial que salvou Beatrice... era você, Alex!
Annchi olhou repentinamente para Alex, que pareceu ter sido atingido por um impacto em suas lembranças.
— Há oito anos... a garotinha da praia... Poderia ser Beatrice?
— Eu jamais me esqueceria do seu rosto! — continuou Tracey — Eu me lembrei imediatamente quando te vi... mas tudo foi tão... maluco que eu acabei não tenho a oportunidade de te agradecer!
— Os seus pais, eles... pensaram ter perdido você! Assim que deixei Beatrice na margem, mergulhei novamente para tentar encontrar a irmã maior. Nossos esforços foram em vão. Eu lembro de ter mobilizado os bombeiros e procuramos por quase dez dias, mas... não obtivemos nenhum sinal da garota. Você foi levada pela correnteza e conseguiu sobreviver! Tracey, isso é... inacreditável!
E foi então que Tracey finalmente se levantou, correu até Alex e o abraçou tão forte que o homem quase caiu para trás.
— Obrigada, Alex, de verdade! Você salvou a minha família por duas vezes... em tempos diferentes! Vou dizer a você o mesmo que disse no dia em que cheguei aqui... serei eternamente grata por ter cuidado da minha irmã!
Um pouco distante, Solomon se aproximou de Sahyd e comentou.
— Esse mundo é mesmo curioso, não é? Em meio a tudo o que está acontecendo, ainda podemos enxergar a sombra da esperança.
— Talvez por isso ainda continuemos vivos, Solomon! — respondeu Sahyd — Se você não aparecesse na minha vida e na vida de Lancelot, estaríamos perdidos há muito tempo. Se tem algo que nos move desde que tudo isso começou, é a esperança! E é com esse mesmo sentimento que iremos reconstruir nossas vidas!
De repente, um disparo de arma de fogo foi ouvido em meio ao que restava da fumaça. O projétil atingiu o chão, próximo aos pés de Annchi. Uma voz feminina atravessava a densa névoa negra.
— Mas como vocês são fofinhos, eu poderia levar todos para casa... mas aí eu lembro o quanto são nojentos e insuportáveis!
A doutora Kassandra Winslet se aproximava do grupo com sua ponto quarenta engatilhada na mão direita. A mira estava diretamente em Alex.
— Eu realmente admiro todos vocês por terem chegado até aqui, mas é também onde o jogo acaba! A insolência de vocês já me consumiu demais e, para ser sincera, eu já estou farta de ter que lidar com esse bando de insetos!
— Nem mais um passo, Kassandra! — exclamou Annchi, com a Ruger apontada na direção da mulher — Se te resta algum amor pela sua vida, é melhor você recuar!
— E por quê? Vai me matar? Assim como fez com Matthew? Vai tirar de mim a chance de ser feliz? Como tirou dele?
— Sabe muito bem que não foi o que aconteceu! Matt morreu somente por causa da sua compulsão e por sua loucura!
— NÃO CHAME ELE ASSIM! — gritou Kassandra, atirando mais uma vez contra os pés de Annchi — Não o chame de Matt... Nunca mais! — duas lágrimas escorreram, uma de cada olho — Ele... poderia estar aqui comigo, andando, correndo... crescendo, Annchi! Como teve a coragem de fazer isso? Ele te amava tanto...
— Eu também o amava, Kassandra! E foi por isso que destruí aquela máquina! Você estava cega! A sua obsessão pela cura de Matthew era tão doentia que você sequer percebeu que o sistema imunológico dele estava entrando em colapso! E olhe só pra você... veja o que se tornou! Acha que ele gostaria de olhar pra você? Acha que ele sentiria orgulho? Acha que Roddrick apoiaria o que está fazendo?
— Cala a boca, sua vagabunda!
— Agora chega! — gritou Sahyd — Acho melhor você se render! Caso não tenha percebido, você está encurralada... você vai nos levar até o centro de operações da Ômega e vai nos dizer onde está o antivírus! Vocês perderam, doutora!
Kassandra olhou para Sahyd e começou a gargalhar freneticamente, de maneira sinistra.
— Francamente... O Alladin acha que pode me desafiar e a lâmpada maravilhosa nem está com ele!
Annchi avançou três passos.
— Kassandra... ainda é tempo de fazer a coisa certa! Você sempre lutou contra a maldade e a injustiça! Por favor, não insista nessa loucura!
— Não precisava ter sido assim, Annchi... mas você tirou tudo de mim! Roubou a minha vida, acabou com os meus sonhos. Agora, eu acabarei com os seus!
Kassandra se agachou e pegou um recipiente branco que possuía uma abertura digital. Ao inserir o seu dedo indicador na pequena encubadora, uma portinhola se abriu com um clique, libertando uma nuvem assustadora de baratas infectadas, que voou diretamente na direção dos sobreviventes, que lutavam desesperados para se livrar dos insetos.
— Divirtam-se, crianças! E, se vocês me permitem, preciso levar esse garotão de volta para onde ele nunca devia ter saído!
Kassandra entrou em sua picape e acelerou a toda velocidade, arrastando o Kraken-Dylan, que estava inconsciente e com as duas pernas amarradas ao para-choque traseiro.
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CODINOME: DELTA
TerrorWestfield é uma grande e importante metrópole. Regida quase que completamente pelo capitalismo, abriga diversas empresas e oferece oportunidades a muitas pessoas, o que a torna uma cidade convidativa e perfeita para se viver. Porém, tudo muda radica...
