Capítulo 75

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O túnel que ligava a biblioteca de Westfield e o centro de operações da Ômega era incrivelmente extenso e não iluminado. Somente algumas lâmpadas improvisadas, penduradas de qualquer maneira no teto da caverna, iluminavam o trecho, além do nível de oxigênio ser assustadoramente baixo. O grupo corria pelo túnel evitando falar e todos controlavam a respiração para que o desgaste não os surpreendesse. Alguns mortos-vivos enlouquecidos surgiam pelo caminho, como se quisessem aproveitar o pouco espaço para encurralar suas presas. Alex e os outros utilizavam armas brancas para conter a ameaça. Na medida do possível, se esquivavam dos ataques dos Carnívoros e metiam as facas de combate abaixo das jugulares das criaturas, fazendo com que seus crânios fossem perfurados por dentro. As armas de fogo eram usadas somente quando três ou mais monstros efetuavam um ataque combinado, não deixando muitas opções de defesa.

O grupo avançava à medida que nocauteva os monstros, e isso contribuiu para que eles conseguissem percorrer o túnel até chegar em uma saída que revelava um espaço mais aberto da caverna. Já não se tratava mais de um corredor e sim uma espécie de pátio amplo com mais três entradas de túneis na extremidade oposta. Um ruído familiar e assustador foi ouvido pelo grupo, que engatilhou as armas e percorreu cuidadosamente pelo espaço. Ao se aproximarem do centro do pátio, o som de grades sendo esmurradas denunciou onde estava a criatura de quatro braços, furiosa e assustada. Dylan fora aprisionado em uma espécie de cela extremamente resistente, que era capaz de suportar toda a ira do monstro. Tracey correu até perto da cela.

— Dylan!

Ela relutou em se aproximar, receosa, pois Beatrice já não estava próxima dele, o que significava que o Orpheu devia estar fora de controle naquele momento, já que não havia comunicação neural. No entanto, distante das grades, Tracey observou que Dylan pareceu se acalmar ao vê-la. Ele já não esmurrava as grades e o rugido feroz não era mais do que um murmúrio do que qualquer um poderia chamar de tristeza. Tracey imediatamente compadeceu-se da criatura e se aproximou, cuidadosamente.

— Hey, garoto... aqueles caras maus te colocaram aqui, não foi?

As gigantescas mãos de Dylan seguraram as barras da cela, agora lentamente. Seus dedos se fecharam por completo, como se ele quisesse confirmar a informação de Tracey. Perdendo completamente o medo, a jovem acariciou as duas mãos de Dylan, que não ofereceu nenhuma reação ou resistência.

— Sei que as coisas ficaram muito, mas muito complicadas, Dylan... mas a gente está aqui agora! Tá vendo aquele pessoal ali? Eles são os caras mais malucos que eu já conheci, e também os mais corajosos. Pode ter certeza de que, assim como eu, eles darão a vida, se for preciso, para que tudo fique bem. Mas enquanto isso não acontece... procure manter a calma, tá bom? Em muito pouco tempo, Bea e eu vamos ficar bem pertinho de você para dar um abraço de... monstro!

Em meio ao som grave e gutural das cordas vocais de Dylan e de seu rosto gigante e monstruoso, seus olhos ainda mantinham um azul que lembrava uma piscina que acabara de ser limpa. Eram olhos de medo e súplica, olhos inocentes. Dylan ainda era uma criança. Uma criança assustada que, no fundo, não tinha a menor ideia do que fazer e estava extremamente ansiosa para que tudo aquilo terminasse, seja lá como terminasse. Tracey fechou os olhos e sacudiu a cabeça para impedir que suas lágrimas fossem vistas por Dylan.

— Fica bem, garotão! Eu vou tirar você daqui, nem que eu tenha que passar a vida inteira serrando essa bosta de grade. É uma promessa!

Muitos anos depois, Tracey ainda não saberia dizer o motivo pelo qual teve aquela atitude, mas fato é que ela sentiu uma vontade inexplicável de estender o seu dedo indicador, de modo que atravessasse um pouquinho a grade, ficando metade para dentro. Era como se fosse uma forma de dizer a Dylan que sua ligação com ele era tão forte que mesmo a mais resistente das prisões não poderia quebrar. E de algum modo Dylan compreendeu a mensagem. Replicando o gesto de Tracey, ele encostou seu dedo indicador gigante no dedo de Tracey, estabelecendo definitivamente os seus laços de amizade, assim como sua esperança.

CODINOME: DELTAOnde histórias criam vida. Descubra agora