Alex, Sahyd, Solomon e Annchi percorreram o extenso túnel até chegarem a uma outra porta automática improvisada, que também se abriu sem qualquer influência aparente. O grupo não tinha mais dúvidas de que estava sendo vigiado de perto e cada passo poderia ser decisivo. A sala em que entraram era semelhante à que encontraram Beatrice. Alex suspirou, sabendo o que viria a seguir. Diferente de Beatrice, a luta contra Kai poderia ser muito mais perigosa, visto que ele já possuía habilidades marciais antes de ser controlado pelo dispositivo da Ômega.
Alex se posicionou na frente do grupo e propôs:
— Bem, eu ficarei aqui para lutar contra Kai e tentar libertá-lo do dispositivo de controle. O restante de vocês pode seguir em frente e, por favor, tomem cuidado o tempo todo! Não sabemos o que pode acontecer daqui em diante!
— Se me permite, Alex, eu gostaria de enfrentar essa batalha! — interveio Solomon, dando dois passos à frente.
— Solomon... para ser sincero, acho que você nos ajudará mais dando a cobertura que precisamos ao longo dos túneis! — protestou Alex.
— Tudo o que está acontecendo foi causado pelo meu filho... ele ceifou um grande número de vidas e tudo o que fiz até agora foi me esconder e lutar de longe! É chegada a hora de encarar a guerra de frente e ajudar de verdade! Devo isso a você, Alex! Devo isso a todos vocês!
Sahyd se aproximou de Solomon.
— Tem certeza disso? O cérebro daquele garoto está totalmente sob o controle da Ômega! Sabe que ele não vai hesitar em matar você quando tiver a chance!
Solomon assentiu firmemente com a cabeça.
— Sim, eu sei, Sahyd... mas eu gostaria de tentar! Mesmo que a minha idade não permita que eu sobreviva a essa luta, espero poder pelo menos atrasá-lo para que vocês tenham tempo para prosseguir! Eu falhei gravemente como pai... se houver uma forma de reparar meu erro, que está seja uma oportunidade!
— Não diga isso, Solomon! — exclamou Annchi, em um tom de voz consolador — Brendon fez as suas escolhas, e somente ele as fez! E infelizmente precisamos pará-lo... ou ele acabará de vez com esse mundo!
Solomon baixou a cabeça e ficou em silêncio durante alguns instantes. Em seguida, retirou a bandoleira de seu ombro e entregou o rifle de precisão a Alex, que pareceu hesitar por um momento.
— Não vou precisar disso por enquanto... na verdade, vai me atrapalhar! Quero que o leve com você e não hesite em usá-lo quando precisar!
Respeitando a confiança do velho, Alex colocou a bandoleira em seu ombro e guardou a Magnum no coldre. Ele assentiu com a cabeça e exclamou.
— Tome cuidado, Solomon! Precisaremos de você vivo mais tarde!
Todos se cumprimentaram em um rápido abraço e então, deixando Solomon, se dirigiram à porta de saída, que se abriu assim que o grupo se aproximou. Solomon abriu um sorriso entristecido e exclamou, em voz baixa.
— Jovens... conto com vocês! Por favor, perdoem este velho... foi maravilhoso conhecê-los!
A segunda porta, a que estava ao lado da porta por onde Alex e os demais saíram, se abriu lentamente, finalmente revelando a figura do jovem vestido de preto, cabelos presos a um coque no estilo samurai, com uma expressão demoníaca em seu rosto. Kai Yagami mal esperou a porta se abrir por completo e correu na direção de Solomon, desferindo um violento chute voador no peito do velho, que se desequilibrou e caiu para trás. Suas costas bateram com força no chão e ele perdeu o fôlego, arfando com calma para não perder a consciência. Mal teve tempo de levantar a cabeça quando um novo chute de Kai atingiu o seu rosto. Solomon se levantou novamente, mas não ofereceu resistência. O homem permaneceu de pé, com a guarda totalmente aberta, como se esperasse outro golpe de seu opositor. E, infelizmente, foi exatamente isso o que recebeu segundos depois. Kai desferiu um golpe impiedoso no rosto de Solomon, que ficou atordoado, mas se conteve para não ir ao chão novamente. Foi inútil, pois logo depois, Kai aplicou-lhe uma rasteira, fazendo com que o velho caísse novamente com as costas no chão. Uma vez olhando para o teto, Solomon conseguiu enxergar um pequenino ponto vermelho, localizado próximo a uma estalactite no ponto mais escuro da caverna. Ele contemplou a microcâmera durante algum tempo e refletiu consigo mesmo.
— Arthur... você está testemunhando tudo isso, não está? Me pergunto o quanto ainda resta de você debaixo de toda essa loucura! Você está sofrendo e fazendo outras pessoas sofrerem, meu filho!
O rosto de Solomon foi atingido por outro chute brutal de Kai. Seu nariz pareceu explodir em uma nuvem de sangue. O homem gritou, agonizando de dor, mas mesmo assim, não manifestou qualquer vontade de lutar. Não era como se Solomon estivesse tão ferido a ponto de não conseguir se levantar. Ele poderia, se assim quisesse, deter Kai e subjugá-lo com certa facilidade, dado sua experiência em combate. O fato era que Solomon não se sentia digno de aplicar um golpe sequer em Kai. Os pais do jovem morreram, devorados pelos Carnívoros. Monstros que Arthur Locke fez nascer com o projeto Orpheu e que ceifou tantas vidas em Westfield e talvez em outras partes do mundo. Pode-se dizer que Solomon não disse totalmente a verdade a Alex. Ele desejava sim, atrasar Kai e permitir que o grupo seguisse sem maiores problemas em direção ao receptáculo do antivírus. Porém, mais do que isso, Solomon estava pronto para dar a sua própria vida em penitência pela loucura do filho. Ele receberia ali, no ninho da Organização Ômega, a punição pelos crimes de Artur e aceitaria sem hesitação. Contudo, mesmo enfraquecido, Solomon percebeu que, mesmo sendo duramente agredido daquela forma, algo estava errado.
Kai jogou Solomon contra a parede da caverna e desferiu uma joelhada contra o seu abdômen, fazendo o homem se encurvar de dor. Aproveitando que Solomon estava de cabeça baixa, Kai agarrou seus cabelos longos e aplicou mais um soco em seu rosto, derrubando o velho novamente ao chão. Solomon levantou-se mais uma vez, cambaleou e novamente ficou parado na frente do seu agressor.
— Meu jovem... por quê... As suas ordens são para me matar, mas você... insiste em desobedecer os comandos em seu cérebro!
Pela primeira vez desde que a batalha começara, Kai ficou parado, encarando Solomon, com o olhar apático, característico de um instrumento da Ômega. Solomon conseguiu ficar em pé com firmeza e exclamou.
— Apesar de estar sendo atacado... eu não consigo sentir a menor sede de sangue em você! É diferente de todos os inimigos com quem já lutei!
Kai pareceu ainda mais enfurecido. Ele correu ao encontro de sua vítima, saltou e desferiu outro chute violento no peito de Solomon que, diferente das outras vezes, apenas deu alguns passos para trás e arfou mais uma vez. O homem respirou fundo durante mais alguns instantes e começou a gargalhar. Solomon ria, quase não conseguindo se controlar e olhou novamente para a microcâmera.
— Você ainda é um garoto ingênuo, Arthur! Ainda precisa de muitos anos de vida para passar a perna em seu velho pai!
Solomon ainda gargalhava quando Kai desferiu outro soco fortíssimo em sua boca. O velho cuspiu o sangue que se acumulou e ainda ria levemente quando se dirigiu a Kai.
— Por que ainda não me matou, garoto? Você teve no mínimo três chances de fazê-lo, mas este velho ainda está de pé! Mesmo agora, não sinto nenhuma sede de sangue vindo de seu coração! Me desculpe, mas isso é engraçado, Kai! E também... é muito triste! Eu gostaria muito de ajudá-lo, mas infelizmente não tenho mais forças para tal! Acho que minha tarefa aqui já terminou... faça o que tem que fazer! Tire a vida desse velho e... por favor, me livre de uma vez por todas desse sofrimento!
Uma lágrima escorreu pelo rosto de Solomon assim que ele acabou de gargalhar. Assim como sua alegria, sua inspiração e sua vontade de viver, as forças de Solomon Locke se esvaíram por completo. Ele caiu de joelhos diante do seu agressor. Kai se aproximou lentamente e ficou a menos de dez centímetros de Solomon, fazendo-se parecer um gigante que iria esmagar o velho a qualquer momento.
— Jovem Kai... me perdoe! Espero que seu coração deixe de sangrar muito em breve! Alex, Annchi... pessoal... sejam fortes! Arthur... meu filho... Como eu o amo! Se possível... perdoe o seu velho pai algum dia!
E assim, calou-se a voz do sábio e valente Solomon Locke. Mesmo repleto de amargura, o espaço em seu coração que sempre coube ao filho Arthur sempre estará lá, esperando por alguém que nunca voltará.
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CODINOME: DELTA
TerrorWestfield é uma grande e importante metrópole. Regida quase que completamente pelo capitalismo, abriga diversas empresas e oferece oportunidades a muitas pessoas, o que a torna uma cidade convidativa e perfeita para se viver. Porém, tudo muda radica...
