Diante da incerteza sobre o progresso da missão, o grupo se entreolhava diante das portas da biblioteca Vale do Eclipse. Pela primeira vez desde o início da Transformação, todos ali se encontravam inseguros, com exceção de uma pessoa. Tracey Murray se adiantou, passou por seus companheiros e se dirigiu à porta do prédio. Sahyd indagou.
— Tracey... o que vai fazer?
A garota olhou para trás, encarando cada um dos seus companheiros, com olhar de certa indignação.
— Enquanto vocês discutem sobre quem está mentindo ou não, aqueles monstros estão fazendo sabe-se-lá-o-quê com minha irmã e com Kai. Como se tudo isso que estamos vivendo já não fosse uma armadilha na qual já estamos presos há muito tempo.
Ninguém do grupo protestou. Todos permaneceram em silêncio e não tinham coragem de olhar nos olhos de Tracey.
— Me desculpem, pessoal... mas se ainda vão continuar pensando sobre entrar nesse prédio ou não, mesmo depois de tudo o que passamos, eu vou sozinha! Vou tentar não morrer e se caso eu encontrar aquele filho da puta, vou trazer a cabeça dele enrolada no jaleco!
Ninguém havia percebido até então, mas Tracey levava consigo a espada de Kai, bem como o alforje contendo o arco e as flechas em suas costas. Alex então se impôs.
— Tracey tem toda a razão! Caso seja mesmo uma armadilha, já estaremos prontos! Os últimos dias têm sido os piores de nossas vidas, tenho certeza de que posso falar por qualquer um aqui. O que nos resta é seguir pelo caminho que já estamos trilhando e... nos preparar para o que vier! Quem está comigo?
Todos do grupo recarregaram as suas respectivas armas, emitindo cliques nos tambores, como em sinal de aprovação. Alex ergueu a Magnum em alerta e, cuidadosamente, abriu a porta da biblioteca. O saguão principal estava revirado. Pilhas e pilhas de livros estavam ao chão, havia poças de sangue por todo o lugar e o odor de morte era insuportável. Após percorrerem o ambiente com o olhar, o grupo desceu os três degraus de acesso a piso. Ao longe, podia se ouvir os lamentos e roncos dos Carnívoros. Alex fez sinal para que o grupo permanecesse em silêncio e seguisse adiante, o acompanhando. Em pouco tempo, eles identificaram o corredor de acesso ao elevador de carga. À medida que avançavam, a tensão ia naturalmente aumentando. Não demorou muito para que o primeiro morto-vivo saísse repentinamente, derrubando uma porta que estava trancada. O homem estava com o rosto desfigurado, seu jaleco estava encharcado por sangue seco e metade do seu couro cabeludo tinha sido arrancado. O ex-cientista da Ômega avançou de forma alucinada em direção ao grupo. Ele gania como um lobo enfurecido e corria como se ainda estivesse vivo. Tracey sacou a espada e degolou o cadáver sem pestanejar.
Como se atraídos pela segunda morte do companheiro, um grupo de Carnívoros de jaleco surgiu por detrás de uma fileira de estantes de livros. O som da queda dos móveis que se seguiu foi aterrorizante. Algumas estantes caíram em cima das criaturas que estavam abaixo, esmagando-as como baratas. Contudo, isso não impediu que os outros monstros corressem enlouquecidamente em busca de sua alimentação. Naquele momento, seria imprudente um confronto direto, então o grupo fugiu corredor adentro, abatendo os zumbis que chegassem mais perto. Bruce e Frank se encarregaram de cobrir a retaguarda, enquanto Tracey ia à frente, fatiando as criaturas que surgiam no caminho. A multidão de monstros aumentava atrás do grupo e o efeito rebanho que se formou foi assustador. O som que a horda emitia, um grunhido coletivo e sedento por sangue, chegava a congelar a alma. Olhar para trás seria fatal.
Chegando em certa parte do corredor, que interligava a seção de administração com o almoxarifado, o grupo foi surpreendido por uma criatura que, definitivamente, não deveria estar ali. O enorme cão de duas cabeças rosnava, furioso, com seus quatro olhos vermelhos e incandescentes. De seus dois focinhos escorria uma saliva púrpura e qualquer um que estava ali poderia jurar que se tratava de veneno. Annchi, tomada pelo espanto, exclamou:
— Certamente, é uma variante mutacional do Orpheu. Acho que vamos ver muitas dessas pelo caminho!
Sem ao menos pensar em sentir medo, Tracey avançou, segurando a espada com as duas mãos em direção ao animal. O monstro também avançou contra ela, emitindo um som que não era nem de longe um latido. Era algo como o ruído de uma garganta dilacerada, implorando por vibrações de cordas vocais. Quando o cachorro deu um salto em direção à garota, ela jogou a espada, que deslizou pelo piso e deu uma cambalhota por baixo da criatura, livrando-se do ataque. Assim que rolou até a espada, ela a pegou e volta e rapidamente se levantou, perseguindo a criatura antes que esta se virasse de volta em sua direção. Infelizmente, Tracey não contava que o cão fosse duas vezes mais ágil que as criaturas convencionais, contaminadas pelo Orpheu. A segunda cabeça do monstro rosnou para a garota, atraindo a cabeça irmã para a retaguarda. As expressões nos dois rostos era de causar pânico e Tracey começou a ceder lugar ao medo. O animal virou o seu corpo completamente na direção de Tracey e estava impulsionando-se para correr quando o disparo de uma Ruger atingiu o seu traseiro. Annchi atirava segurando a arma com as duas mãos, tentando mirar em uma das têmporas da criatura. Alex e os outros travavam uma batalha violenta mais atrás contra os mortos-vivos que obstinadamente avançavam com seus dentes apodrecidos na direção de tudo o que respirasse.
O cão, para suspresa de Annchi e Tracey, correu para o salão anexo ao corredor e saiu do campo de visão. Sim, ele estava preparando o elemento surpresa. Annchi praguejou, estupefata.
— Cacete...
Sinalizando com as mãos, Annchi pediu que Tracey acessasse o salão furtivamente pelo lado oposto ao que o cão tinha corrido, enquanto ela seguiria os passos do animal. As criaturas estavam elaborando estratégias de ataque, e isso com certeza era um problema. Tracey adentrou o salão na ponta dos pés e tentou fazer menos ruído possível, para que pudesse ouvir o som das patas do monstro. Aparentemente, o cachorro zumbi não estava próximo ao hall do salão e também não estava escondido atrás das prateleiras tombadas. Tracey olhava cuidadosamente os arredores e a retaguarda. A criatura era gigantesca, seria impossível não enxergar sua silhueta onde quer que ela estivesse. Foi então que o som do grunhido das cabeças gêmeas foi ouvido de cima. O cão havia subido a escada e estava prestes a saltar em cima da cabeça de Tracey. Ela pensou em empalá-lo com a espada de Kai, mas ela não suportaria o peso do monstro em queda livre e correria o sério risco de ser esmagada. Foi então que ela olhou para os arredores e enxergou a solução mais arriscada e improvável que poderia existir em uma situação como aquela.
Um grande lustre pendia, intacto, no teto, muito próximo de onde o cão estava prestes a saltar. Foi tudo tão rápido que Tracey não saberia dizer se respirou enquanto tudo acontecia. Assim que o cão alçou vôo do mezanino em direção ao solo do saguão, em um lapso de desespero, Tracey lançou mão de seu arco e disparou uma flecha na direção do lustre. De maneira certeira, a seta atingiu o encaixe do suporte do lustre, fazendo com que o objeto caísse logo quase no mesmo ritmo do cão. Tão o longo o monstro tocou suas patas no piso e se preparou para a próxima investida, o enorme lustre caiu como um grande piano em cima de suas duas cabeças, se espatifando e retalhando o monstro. Não foi o suficiente para matá-lo, mas o impacto o atordoou, dando a chance que Tracey precisava de correr até a criatura e perfurar os dois crânios com o fio da espada centenária de Kai.
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CODINOME: DELTA
TerrorWestfield é uma grande e importante metrópole. Regida quase que completamente pelo capitalismo, abriga diversas empresas e oferece oportunidades a muitas pessoas, o que a torna uma cidade convidativa e perfeita para se viver. Porém, tudo muda radica...
