Na imersão da pouca luz que iluminava o laboratório da Ômega, o doutor Lee Lim permanecia sentado diante de sua escrivaninha improvisada observando toda a rotina dos arredores através de drones equipados com câmeras de última geração. Seus olhos estavam atentos através da máscara da tragédia que ele usava desde que chegou a Westfield. O cômodo estava em um silêncio agradável, interrompido apenas pelo leve silvo causado pela eletricidade que corria pelas lâmpadas. Passos decididos em direção ao seu escritório interromperam o silêncio. O zunido do cartão de acesso à porta automática foi seguido pela abertura. O doutor Lim não ergueu o rosto mascarado. Apenas os seus olhos se moveram na direção da figura da agente Mia Zhang, que se aproximava de sua mesa. O homem se manteve em silêncio e esperou que ela falasse.
— Creio que já deva saber... eles já chegaram à porta da biblioteca!
— Previsível... Com toda a certeza, possuem muita determinação e não descansarão até conseguirem o que desejam.
— Bem, com relação à garota e o espécime, ambos foram capturados com sucesso. Entretanto, o jovem oriental acabou sendo detido por tentar intervir e as unidades também o trouxeram.
— Quanto a isso, não há problemas — respondeu o doutor Lim, entrelaçando os dedos sobre a mesa — O resultado será o mesmo, independente da quantidade de pessoas. Pode me assegurar que o projeto terá sucesso?
— A captura da jovem portadora do vírus pode ser julgada como sendo a etapa mais difícil e foi superada. Nesse momento, eles se encontram inconscientes e o dispositivo já está pronto para ser instalado.
— Afirmativo! O doutor Delta está concentrando os seus esforços na finalização da variante Hades. É questão de pouco tempo até que ele possa colocá-lo em funcionamento.
Nesse momento, Mia suspirou um pouco de hesitação.
— E... O que pode me dizer sobre os sobreviventes?
— Sei que sua pergunta é sincera, mas não a sua preocupação. De todos aqueles que estão vindo até nós, somente uma está lhe causando temor. Não precisa se preocupar... você me deu a sua palavra e a está cumprindo com eficiência, isso eu reconheço. Portanto, dou minha palavra de que vocês ficarão juntas e na hora certa, bem... o que tem que acontecer, precisa acontecer!
Mia assentiu com a cabeça em silêncio. Saudou o doutor Lim com uma mesura e virou as costas. Porém, assim que ela deu os quatro primeiros passos em direção à porta, Lee declarou em um timbre de voz.
— Estamos chegando às etapas finais... claro que deve saber disso! Posso continuar contando com sua ajuda?
— Sabe que sim! — Mia respondeu, sem olhar para trás e saiu do escritório. O silêncio voltou ao ambiente, mas foi interrompido um minuto depois, quando um chiado de comunicador foi emitido. O aparelho estava em um suporte ao lado da mesa de trabalho do doutor Lim. O mascarado pegou então o comunicador e apertou o botão de resposta. A voz do outro lado estava com ruídos, mas audível.
"Doutor Hurley... Bill! Pode me ouvir? Aqui é o Alex! Está na escuta? Bill?"
Não muito longe dali, na entrada da biblioteca Vale do Eclipse, o policial Alex Stevens aguardava o retorno pelo comunicador. O grupo se livrou facilmente das baratas infectadas, correndo incansavelmente até finalmente chegar à extremidade oposta do paço do Marco Zero de Westfield. Alex sugeriu que, antes de entrar no prédio que agora era propriedade da Ômega, relatassem o percurso ao doutor Bill Hurley, que foi quem os guiou até ali à distância e sem erro. Finalmente, um chiado pelo auto falante e a voz em resposta.
"B-bom dia, sobreviventes! V-vejo que enfrentaram grandes dificuldades, mas aqui estamos nós! S-senhor Stevens, não há nada de errado no saguão principal da b-biblioteca, mas peço que tenham mu-muito cuidado ao chegar ao corredor de acesso à curadoria. Os espécimes recém desenvolvidos pelo laboratório de virologia estão em período de teste. Os o-objetivos dos seus programas já foram predefinidos e, assim como os mortos-vivos, eles estão sedentos por carne humana! Percorrendo o corredor, vocês devem acessar o elevador de carga até chegarem até a sala de conservação de obras. Lá vocês encontrarão um microcomputador onde uma pasta chamada 'Chave do Reino '. Acessem essa pasta e lá estará a senha para abrir o refrigerador onde o Eurídice está sendo mantido em incubação. G-guarde bem a senha do computador, senhor Stevens. 19041994. P-por favor, tenham cuidado! Boa s-sorte e me acionem sempre que precisarem!"
O clique no comunicador evidenciou o encerramento da conversa. Alex se virou para o grupo imediatamente.
— Vocês conseguiram memorizar a senha? 19041994. Todos conseguem se lembrar até chegarmos até a sala de conservação de obras?
— Oito dígitos e nenhuma possibilidade de anotação... — suspirou Solomon — Não sei se minha idade permite esse tipo de memória, Alex. Sinto muito, não conte comigo para isso!
— Eu consigo memorizar! — interveio Sahyd — No Afeganistão, precisávamos decodificar mensagens interceptadas do exército inimigo e também transmitir coordenadas de latitude e longitude para as tropas da linha de frente. Fique tranquilo, Alex!
— Nenhum de vocês precisa memorizar o código, a não ser que eu morra no caminho! — exclamou Annchi, com uma expressão de espanto e pavor.
— O que quer dizer, Annchi?
A virologista levou as duas mãos ao rosto e depois suspirou, como se quisesse recobrar a sanidade. Ela respirou fundo e declarou.
— A senha para abrir o computador... é a data do meu aniversário! Dezenove de abril de mil novecentos e noventa e quatro!
Todos deram um sobressalto. Alex ficou em silêncio e Sahyd olhou para o chão, com as duas mãos na cintura, como se quisesse encontrar um sentido naquele fato. O soldado Bruce Anderson se aproximou de Annchi e sugeriu.
— Não seria de tamanha surpresa, doutora! A senhora trabalhou para a Ômega e a agente Zhang é sua mãe. Pode ser que ela mesmo tenha cuidado para que a senha para acessarmos o antivírus fosse algo relacionado à senhora.
— Tem razão, Bruce, mas tem algo mais — interveio Frank McCalister — Percebe que é uma senha fácil de memorizar, mas somente para a doutora Zhang? Qualquer um de nós, com exceção talvez de Sahyd, teria esquecido a combinação antes de chegarmos ao computador.
— Continue, Frank! — insistiu Bruce.
— Pensem um pouco um momento... Quem quer que seja o doutor Bill Hurley, ele sabe de cada passo nosso. Perceberam que, quando Alex o chamou no comunicador agora há pouco, nenhum de nós informou nossa posição e, mesmo assim, o doutor Hurley nos parabenizou por termos chagado à biblioteca? Como ele sabe que já estamos aqui? Ele está nos rastreando, mas não estamos vendo ele em lugar nenhum!
— Isso não importa! — respondeu Alex — Estamos aqui, perto do antivírus e do cérebro da Ômega. Tudo ocorreu como Bill disse que ocorreria. Perdemos Lance, sim, mas conseguimos chegar tão longe... e além disso, Frank... Não temos outra escolha!
O grupo continuou em silêncio, avaliando toda a situação. Até aquele momento, ninguém havia avaliado de fato a estranheza de um suposto cientista da Ômega, que se dizia estar do lado dos sobreviventes, saber nitidamente de tudo o que estava acontecendo e guiar o grupo em segurança até a toca dos lobos. Frank virou-se para Alex e afirmou, categoricamente.
— Concordo que tudo esteja saindo conforme o planejado até aqui, Alex... mas assim como Bruce e eu, o senhor e Sahyd são militares e possuem experiência o suficiente para perceber quando estão sendo atraídos para uma armadilha!
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CODINOME: DELTA
TerrorWestfield é uma grande e importante metrópole. Regida quase que completamente pelo capitalismo, abriga diversas empresas e oferece oportunidades a muitas pessoas, o que a torna uma cidade convidativa e perfeita para se viver. Porém, tudo muda radica...
