Capítulo 69

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O Marco Zero de Westfield era um amplo espaço, onde uma infinidade de eventos e reuniões culturais eram realizadas, acolhendo autoridades de outras cidades e também de nações que buscavam referências culturais e econômicas. Não havia um dia em que o paço do Marco Zero não estivesse repleto de pessoas. Quando não havia eventos, os jovens gostavam de ocupar o espaço para jogar conversa fora, tocar violão e contar mentiras que jovens contam. Após o surgimento do vírus Orpheu, porém, o Marco Zero se transformou em uma espécie de mausoléu melancólico. Não havia mais ninguém no espaço cultural e, como se não bastasse, a atmosfera do lugar era extremamente pesada, tornando o paço praticamente impossível de se permanecer.

Alex pôde sentir a tristeza no ambiente onde enfim ele e seu grupo se encontravam. Após uma batalha terrível contra os Carnívoros, ele via que a meta estava ali, à sua frente. A chave para o antivírus estava dentro do prédio da biblioteca, ou pelo menos, Alex esperava que estivesse. Sabia também que a solução para o grande mal do mundo não seria entregue tão facilmente em suas mãos. O doutor Brendon Davis protegeria o projeto de sua vida com unhas e dentes, sem ter o menor escrúpulo pela vida de quem quer que fosse, mesmo se a vida em questão fosse a do seu proóprio pai, Solomon Locke. E mais grave ainda: Ele não estava sozinho. Uma equipe de cientistas tão sádicos quanto ele o auxiliava e tinha muito interesse na arma Orpheu. A equipe de sobreviventes se mostrou extremamente eficiente até então, mas quanto mais eles suportariam? Até quando eles teriam fôlego para encarar a Organização Ômega de frente? E, se caso conseguissem desmantelar o plano do doutor Delta, o que fariam com suas vidas dali em diante? Como viveriam suas vidas depois que a adrenalina do apocalipse diminuísse? Homens como Kai e Sahyd perderam toda a sua família para os Carnívoros. E Alex também... como poderia prosseguir sem Annete e Amber? Não importava. O que aconteceu, aconteceu e, tudo o que restava ao grupo dos sobreviventes era encontrar o Eurídice e tentar amenizar a dor do mundo. Suas famílias mereciam isso.

O tempo para elaborar qualquer estratégia era escasso. O grupo mal havia chegado ao paço do Marco Zero quando o som aterrorizante de hélices invadia os céus. Alex olhou para cima e viu que um helicóptero da Ômega sobrevoava a poucos metros de suas cabeças. Não havia dúvidas de que o alvo da aeronave era o grupo que se aproximava da biblioteca. De dentro da cabine de comando, o doutor Delta sorria de maneira sórdida, olhando diretamente para Alex e para a doutora Annchi Zhang. Utilizando uma espécie de auto falante que estava acoplada ao helicóptero, o doutor Delta começou a falar, com a sua voz inconfundível, e que causava o mesmo efeito de um garfo sendo raspado com força sobre um prato de porcelana.

" É bom vê-los mais uma vez, meus caros amigos! Vejo que subestimei um pouco a inteligência de vocês e agora me deparo com seus corpos nojentos se aproximando do nosso quartel general. Não me importa até onde vocês sabem do nosso plano... o fato é que essa brincadeira acaba aqui e agora! Tenho uma infinidade de coisas a resolver e vocês estão me fazendo perder muito tempo! Mas, antes de colocar um fim em toda essa merda, eu quero digamos... recrutar um de vocês! Vejam que não sou tão narcisista e saibam que há alguém em seu grupo patético que tem a plena capacidade de me auxiliar no projeto Orpheu e, não, não estou me referindo à você, doutora Zhang!"

No solo, Annchi se aproximou de Alex e murmurou, mais consigo mesma do que para outra pessoa.

— Mas o que será que ele quer agora?

— Está planejando um sequestro! — respondeu Alex, recarregando novamente a Magnum. Ele olhou para o restante do grupo, que vinha logo atrás.

— Não abaixem a guarda! Nosso alvo principal está bem acima de nós!

Conforme orientados, os sobreviventes mantiveram alerta máximo, recarregando suas respectivas armas e olhando simultaneamente para o céu. O doutor Delta quase gargalhou.

— Isso foi mais fácil do que pensei... Doutor Denver, pode começar!

O sinistro cientista do olho de vidro, que estava na cadeira do co-piloto, olhou para baixo e balançou a cabeça.

— Malditos andarilhos... como podem estar nos dando tanto trabalho?

O doutor Mark Denver acionou um dispositivo próximo ao seu assento e um dispositivo posicionado na parte de baixo da fuselagem começou a expelir uma camada extremamente espessa de fumaça. Tratava-se de um componente altamente tóxico, algo como uma mistura de puro gás carbônico e enxofre. Em menos de dois minutos, todo o paço do Marco Zero estava totalmente tomado pela fumaça. Ninguém conseguia enxergar o que acontecia ao redor e nem mesmo respirar, o mínimo que fosse. Alex e os outros tentavam se deslocar para fora de cortina de fumaça, mas não tiveram sucesso. Com o oxigênio totalmente comprometido, aos poucos todos foram perdendo as forças e tossiam tanto que chegavam a se ajoelhar. Um cabo de força descia do helicóptero e, preso a ele em um equipamento de rapel, estava um soldado da Ômega utilizando uma máscara de gás. Sabendo que tinha pouco tempo antes da fumaça começar a se dissipar, o soldado correu pelo solo e encontrou Beatrice enfraquecida pela fumaça. A garota sequer percebeu quando o homem se aproximou, inseriu uma seringa em seu pescoço e a tomou pelos braços. Em quinze segundos, Beatrice estava desacordada. Tracey, que mal conseguia enxergar o que estava ocorrendo, tentou juntar forças para se levantar e resgatar a irmã, mas tudo o que conseguiu foi uma centelha de fôlego para gritar.

— LARGA MINHA IRMÃ, FILHO DA PUTA!

E foi tudo o que conseguiu. Após insultar o soldado, Tracey caiu com o rosto no chão, inconsciente. Kai Yagami, contudo, era o único que ainda possuía uma fração de suas forças e surgiu correndo com sua espada em meio à densa cortina de fumaça. O soldado mascarado não teria chances contra o homem enfurecido se um segundo agente da Ômega não tivesse saltado de um segundo cabo de força que descia pela aeronave e se lançasse contra as costas de Kai que, surpreendido, foi ao chão. Mais do que depressa, o soldado enfiou-lhe uma outra seringa em seu pescoço. Mesmo atordoado pelo veneno, Kai conseguiu chutar a virilha do homem, que se ajoelhou de dor e ficou fora de ação. Infelizmente, porém, isso não impediu o primeiro soldado de surgir por detrás e aplicar uma coronhada na nuca de Kai que, finalmente, perdeu a consciência. Os dois subiram pelo cabo de aço, cada um carregando um dos sobreviventes nos braços. Quando Alex conseguiu controlar a respiração e enxergar além da cortina de fumaça, já era tarde. O helicóptero alçava uma altura maior e seguiu de volta para seja qual for o lugar de onde tenha embarcado. Tomado pelo desespero, Alex correu para tentar de agarrar a um cabos de força, mas a aeronave da Ômega já havia partido, levando Beatrice e Kai como reféns.

CODINOME: DELTAOnde histórias criam vida. Descubra agora