Capítulo 81

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Naquele dia, horas antes...

Beatrice e Kai despertaram sentindo o frio da caverna e o cheiro insuportável de compostos químicos, misturados a algo que lembrava enxofre. Eles se encontravam sozinhos, algemados, um de costas para o outro. Kai foi o primeiro a tentar se desvencilhar, sem sucesso. Ele se virou para Beatrice, aflito.

— Pirralha... onde é que a gente tá?

— Eu também não sei, pelo menos não por enquanto. Pela atmosfera e por esse cheiro horrível... posso julgar que seja uma espécie de laboratório improvisado. Tudo o que me lembro é daquela fumaça e do helicóptero. Depois, eu acho que apaguei.

— Fomos capturados, foi isso o que aconteceu! — respondeu Kai, tentando se acalmar — Os homens da Ômega prenderam a gente aqui. Merda, o que será que vai acontecer?

Antes que qualquer um dos dois pudesse fazer qualquer outra conjectura, o zumbido de uma porta automática se abrindo foi ouvido, causando um calafrio nos dois sobreviventes. A porta se abriu por completo, revelando a figura fantasmagórica da doutora Kassandra Winslet, que ostentava uma postura um tanto tensa e uma expressão seríssima. Beatrice exclamou:

— É aquela cientista maluca! O que vai fazer com a gente?

— Vou fazer você se arrepender de prender a gente nesse inferno! — completou Kai — Me solta daqui pra ver se eu não enfio essa algema no seu...

— Acalmem-se vocês dois! — ordenou Kassandra, em um tom de voz inabalável — Se eu quisesse matar vocês dois, já o teria feito, visto o tempo em que estiveram desacordados! Preciso que me ouçam com atenção, pois nós temos muito tempo!

Temos muito pouco tempo? — repetiu Kai, franzindo a sobrancelha — O que exatamente você quer dizer?

Kassandra se aproximou um pouco mais, ficando a menos de um metros dos dois jovens, que ainda estavam algemados e sentados.

— Escutem... nesse momento, o doutor Brendon Davis está em posse da variante Hades, o último estágio mutacional do Orpheu. Em poucos instantes, ele possuirá um poder nunca visto por ninguém até os dias de hoje. E quando isso acontecer, ninguém será capaz de pará-lo em seu objetivo.

Beatrice olhou para Kassandra com todas as dúvidas que uma pessoa poderia ter.

— Eu não entendo... não é exatamente isso o que vocês querem? A arma militar definitiva, o fator viral mais caro da história, o domínio sobre todas as nações?

Kassandra suspirou de forma visivelmente dolorosa.

— De que adiantaria toda a fortuna do mundo se eu não puder ter o meu Matthew de volta? A minha vingança sempre foi pessoal, contra a doutora Zhang, mas a verdade é que... quanto mais eu via a formiguinha lutar por pessoas que ela nunca viu na vida, mesmo sabendo que o planeta inteiro está atrás dela, mais eu percebia que eu só estava querendo me vingar de mim mesma. Quem matou o meu filho... fui eu mesma, e ninguém além de mim! A quem estou querendo enganar?

Uma lágrima rolou pelo rosto de Kassandra enquanto Kai e Beatrice permaneciam em silêncio, esperando que a cientista se recompusesse. Após suspirar novamente, Kassandra continuou.

— Bem sei que não há mais como me redimir do que fiz, mas como última ação nessa terra, quero contribuir, nem que seja um pouco, para que o doutor Delta caia junto com esse projeto maldito. E eu trouxe vocês dois aqui para pedir sua ajuda.

— Pedir nossa ajuda? — indagou Kai, incrédulo.

Kassandra tirou do seu jaleco dois microchips e mostrou aos dois jovens.

— Estes dispositivos foram desenvolvidos para controlar os estímulos neurais daquele que estiver com o chip inserido em suas têmporas. Foi o que usamos para controlar o Kraken.

O nome dele é Dylan! — Beatrice retrucou, furiosa. Kassandra não lhe deu atenção.

— Esses dois microchips estão desativados, eu retirei a propriedade magnética, e o que tenho em minhas mãos não passa de dois pedaços de metal. Porém, para o doutor Delta, vocês serão duas armas poderosas da Ômega, que serão utilizadas para matar o restante do seu grupo. O que quero que vocês façam é fingir que estão seguindo nossas ordens e lutem... com todas as forças... contra os seus amigos! Isso distrairá o doutor Delta enquanto providenciamos o Eurídice.

Kai e Beatrice se recusavam a acreditar no que estavam ouvindo.

— Espere aí, doutora! — instou Kai — Não pense que cairemos em outra de suas armadilhas tão facilmente! Que garantia temos de que você não está tentando nos enganar e injetar aquele vírus em nossas veias?

— Eu posso garantir! — exclamou outra voz vinda da porta automática. Beatrice e Kai olharam imediatamente, pois reconheceram a fala determinada e a dona dos passos que se aproximavam.

— Mia?

— Isso mesmo! — respondeu a agente Mia Zhang — A única maneira de vencermos essa guerra é destruindo o ninho da serpente por dentro. A doutora Winslet e eu podemos conseguir o antivírus sem atrair a atenção do doutor Davis e para isso, precisamos de seus esforços e, infelizmente, não será fácil para nenhum de vocês!

Kassandra encarou os jovens com uma expressão sombria.

— Por favor, precisamos que nos ajudem, mesmo que isso signifique sofrer muito... especialmente você, pequena!

Beatrice estava com olhos marejados de lágrimas e soluçava descontroladamente.

— Vou ter que lutar contra meus amigos... lutar contra minha irmã?

— Todos estamos pagando um alto preço, querida! — respondeu Mia, com profunda tristeza em seu rosto — Não vou enganá-los. Isso ferirá muito os corações de vocês!

Kai baixou a cabeça, pensativo, e ergueu os olhos em seguida.

— Se não há outro jeito, faremos dessa forma. Será doloroso, com certeza, mas nada até aqui tem sido fácil. Está comigo, pirralha?

— Tudo bem, eu concordo! Pode mesmo conseguir o antivírus, Mia?

— Tem a minha palavra!

Kassandra se agachou e libertou as algemas das mãos de Beatrice e Kai.

— Me esperem no corredor do lado de fora! Preciso colocar os trajes da Ômega em vocês... quanto mais estiverem parecidos com os nossos soldados, mais ofuscaremos a visão do doutor Delta!

— Entendido! — responderam os dois em uníssono.

Mia olhou para eles e abriu um raro sorriso.

— Obrigada a vocês! Tudo isso está muito perto do fim, posso garantir!

Kai e Beatrice assentiram com a cabeça e correram em direção ao corredor. Kassandra estava se preparando para acompanhá-los quando foi interrompida por Mia.

— Ei! Tem certeza de que quer fazer isso? Sabe que, uma vez que começar, não terá mais volta!

Kassandra virou-se para Mia e sorriu.

— O mundo acabou, Mia! Não há mais volta para coisa alguma!

CODINOME: DELTAOnde histórias criam vida. Descubra agora