Capítulo 77

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Não muito distante dos acontecimentos na caverna-laboratório, o virologista Brendon Davis se contorcia com uma dor lancinante de cabeça. A dor era tamanha que seus olhos se fechavam com força. Ele correu até o banheiro do seu escritório e vomitou bile e sangue em uma quantidade absurda. O doutor Delta suava frio e não conseguia conter o tremor em seu corpo. Estava prestes a desmaiar quando conseguiu se equilibrar, segurando na maçaneta da porta. Poucos instantes depois, a porta de entrada do seu escritório se abriu com um baque violento, assustando Brendon e fazendo com que ele voltasse à consciência. O doutor Mark Denver havia entrado, furioso, e esbravejava:

— DOUTOR DAVIS! BRENDON! CADÊ VOCÊ, SEU DESGRAÇADO?

A porta do banheiro se abriu, lentamente e ali estava Brendon, com olhos mortos, rosto pálido como lençol e baba escorrendo pela boca.

— Eu... tô aqui!

— Mas o que há com você? — Mark estava indignado por ver o cientista naquele estado — O nosso projeto está indo à ruina e você trancado aqui nessa porra de laboratório! Caso ainda não tenha visto, aqueles malditos desceram ao subsolo e destruíram dois dos nossos espécimes mais caros! Entende o que estou dizendo?

O doutor Denver segurou Brendon pela gola da camisa. O homem mal conseguia se manter de pé e sua cabeça pendia para baixo. Estava novamente prestes a desmaiar.

— O doutor Lim está furioso com todo esse desleixo em nossa operação! Não preciso dizer a você que ele está louco para atirar em nossas cabeças e continuar ele mesmo o projeto! Está me ouvindo, Brendon?

O doutor Delta continuava de cabeça baixa, estático. Não respondeu uma palavra e sequer olhou para o doutor Denver, que perdeu totalmente a paciência.

— Seu filho da puta! Ainda assim, caçoa de mim!

Ainda segurando Brendon pelo colarinho, Mark lhe desferiu um violento murro no rosto. A cabeça de Brendon foi lançada para trás e para frente repentinamente, como se houvesse um barbante amarrado ao seu pescoço. O homem, porém, continuava sem reação. Ainda estava consciente, mas apático, como se estivesse em um transe profundo. Seus olhos abertos não pareciam olhar para Mark. Na verdade, não pareciam olhar para parte alguma. Suas pupilas estavam dilatadas e sua boca permanecia aberta, salivando como um bebê, o que só aumentava a fúria de Mark.

— Eu vou te matar! Sim, é o que vou fazer... já está morto mesmo! — Mark começou a gargalhar de maneira insana — Eu não sei o que você andou tomando, mas vou fazer-lhe o favor de acabar com o seu sofrimento!

Mark começou a esmurrar o rosto de Brendon incessantemente. À medida que os golpes eram desferidos, Mark gargalhava, como se já quisesse fazer aquilo há muito tempo. E de fato ele queria. Brendon continuava sem reação, estava totalmente entregue à punição. E foi então que aconteceu. Mark estava prestes a desferir mais um violento soco em Brendon quando a mão mecânica deste segurou fortemente em seu braço. Mark ordenou, de maneira feroz.

— Me solta, seu desgraçado!

Dizendo isso, outro murro atingiu o rosto de Brendon, porém, dessa vez, sua cabeça não se moveu. A mão de Mark pareceu ter atingido uma parede de concreto. Brendon fechou os olhos e, quando os abriu novamente, eles não estavam mais opacos, mas vermelhos, e agora olhavam no fundo do único olho do doutor Denver. Este último foi tomado pelo mais puro espanto e tentou se desvencilhar da mão mecânica, que parecia ficar mais forte a cada segundo. O aperto foi ficando insuportável e a dor castigava Mark Denver, que curvou todo o seu corpo. Então, subitamente, uma voz saiu da boca de Brendon Davis. Não era a sua voz habitual, carregada de ironia e sarcasmo. Era um timbre assustadoramente grave, quase demoníaco, que pareceu entrar pelos ouvidos do doutor Denver e subir direto para o seu cérebro.

— Sua insolência termina aqui! Receberá a devida punição!

Ainda tomado pela dor e pelo pavor, Mark olhou para cima com dificuldade e se deparou com o doutor Delta o encarando com uma fisionomia nunca vista antes. Seus olhos vermelhos pareciam brilhar e sua boca já não salivava. Sua expressão era séria, determinada e assustadora.

— O que disse? Mas... o que houve com você?

Com o braço mecânico, Brendon lançou o doutor Denver, que voou até colidir contra a parede do lado oposto da sala. Assim que o homem bateu as costas no concreto, caiu violentamente de peito no chão, tamanha a força do ataque. Mark imediatamente ficou sem fôlego e lutava para respirar. Mesmo quase sem consciência, ele pôde ver claramente o que aconteceu a seguir. O braço direito de Brendon, o que não tinha sido arrancado, esticou como uma trepadeira na direção de Mark e o levantou do chão. O rosto macabro de Brendon voltou a sorrir e, uma vez vendo o cientista suspenso em sua mão poderosa, quase implorando por clemência, lançou o homem mais uma vez com toda a força. Mark foi arremessado e caiu com muita força em uma mesa de vidro, que se espatifou, tamanho o impacto da queda. O rosto do doutor Denver ficou totalmente cortado pelos estilhaços e ele gritava de agonia. O doutor Delta, utilizando uma fração do poder proporcionado pela variante Hades, caminhou lentamente até a mesa em pedaços. Mark já não conseguia se mexer, estava enfraquecido por causa dos ferimentos graves. Poderia ser uma alucinação causada pelos golpes, mas ele jurava que Brendon havia dobrado de tamanho. Naquele momento, o homem, até então franzino, parecia medir quase três metros de altura. Seus passos se tornaram pesados, e ribombavam pelo chão. O som de cada passo era uma agonia para Mark, e naquele momento, o pavor era tanto que ele já não conseguia mais proferir uma palavra.

— P... Por favor!

O gigante doutor Delta parou diante do inutilizado doutor Denver e olhou com deleite a agonia do homem. Ele o encarou por alguma instantes, como se esperasse para ouvir as próximas palavras que saíram de sua boca.

— Doutor... Davis... me perdoe... eu não queria machucá-lo! Eu estava furioso... tudo tem sido tão... difícil! Por favor... tenha misericórdia!

O doutor Delta sorriu novamente e abriu a boca de uma forma bizarra, de modo que a abertura parecia cobrir a região do nariz e parte dos olhos. De dentro da boca do monstro, uma espécie de escaravelho saiu, caminhando rapidamente pelo corpanzil de Brendon até chegar ao chão, por onde avançou sem piedade pelas pernas de Mark, subindo pelo seu tronco, chegando ao pescoço e por fim entrando pela sua boca. Mark se desesperou e tentou de todas as formas arrancar o inseto do seu corpo, colocando em vão os dedos pela sua garganta, mas foi em vão. O escaravelho desceu pela laringe, indo em direção ao coração. A silhueta do inseto pôde ser vista pelo lado de fora da pele de Mark. O homem entrou em colapso, sacudindo o seu corpo e começou a se lançar contra a parede e também contra o chão, desesperado para expelir o escaravelho. Porém, para o doutor Mark Denver, tanto o trabalho como sua vida haviam chegado ao fim. O escaravelho começou a devorá-lo de dentro para fora. Seu corpo foi aberto de cima a baixo e o sangue jorrou em abundância pelo chão do laboratório. Mark deu um último grito de agonia antes que sua garganta, sua boca e seu corpo fossem dilacerados pelo inseto, que pôde ser visto novamente, saindo com vida de dentro do corpo morto do cientista. Assim que voltou ao chão, foi pisoteado e esmagado pelo pé imenso do doutor Delta, que recolheu seu braço imenso, fazendo-o voltar ao normal.

Próximo à porta do primeiro ambiente da caverna-laboratório, Tracey Murray permanecia desacordada, esgotada pela dura batalha contra a própria irmã. Mesmo com os olhos fechados, era possível ver uma lágrima escorrendo pelo seu rosto. Ao seu lado, Mia Zhang a contemplava, aparentando indiferença.

— Você chegou até o seu limite e o cruzou sem perceber, criança... me pergunto por quanto tempo ainda suportará o pesadelo em que se tornou esse mundo...

— Bea... Beatrice... — Tracey murmurava, ainda desmaiada.

Mia se ajoelhou e, cuidadosamente a colocou em seus ombros.

— Vamos, querida... ainda há muito a fazer!

CODINOME: DELTAOnde histórias criam vida. Descubra agora