Uma nova Cinderela (parte 65)

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Medicaram soro para mim e me deixaram sentada. Depois do médico veio um psicólogo e por último dois policiais. Eles pediram se eu poderia conversar com eles. Se conseguia. Eu disse que sim e assim que perguntaram o que havia acontecido  eu comecei a narrar o ocorrido e não conseguia mais parar de falar. Contei tudo. Os detalhes. Tudo. Respondi as perguntas, eles agradeceram e eu fiquei sentada sozinha. Chorando.
Minha mãe entro pela porta e ficou chocada ao me ver. Seus olhos estavam cheios de lágrimas. Ela me abraçou.
- Mãe! Mãe! Eu não quero que o Eros morra, mãe!
- Eu sei. Eu sei.
Fícamos abraçadas chorando por minutos.
Meu pai estava lá fora com a Larissa na recepção esperando notícias. O soro me deixou calma, com frio. Minha mãe me deu um casaco e depois que o médico passou e perguntou se eu estava bem, ele me liberou.
O hospital nos levou até um sala reservada. Meu pai já estava lá segurando a Larissa no colo. Ao ver os dois eu não consegui me segurar e voltei a chorar.
- Aí, meu anjo. - eu abracei a minha filha forte. Só ao imaginar que nunca mais poderia vê-la eu chorei. Ao imaginar que nunca mais veria meus pais eu chorei. Ao imaginar que a qualquer momento alguém poderia entrar pela sala e dizer que Eros estava morto, eu chorei. Havia tanto medo e tanta dor dentro de mim.
- Calma, minha garota. Nós estamos aqui. Nós estamos aqui. - Meu pai me abraçava. Nós quatro nos abraçamos. - Nós estamos aqui. E eles estão fazendo todo o possível.
- Ele pode morrer mãe. Eu não vou aguentar perdê-lo. Mãe. - eu olhava para todos os lados, paras as paredes amarelas procurando por ele. Eu implorava aos céus. Eu só o queria de volta.
- Eu sei, amor. - minha mãe beijava meu rosto.
Não restava nada além de esperar. Minha mãe queria saber o que tinha acontecido. Mas meu pai não queria que eu relembrasse tudo. Mas eu precisava falar. Precisava diluir a minha dor. E acabei contando tudo enquanto eles seguravam as minhas mãos.
Meu pai levou a Larissa para casa. Minha mãe achava melhor ela não ser exposta a tanta dor.
Fícamos horas sentados nas poltronas verdes. Na pequena televisão o programa da manhã passava. Cada vez que pessoas passavam pelo corredor meu coração parecia parar. Poderia ser alguém com a notícia que definiria a minha vida.
- Alguém avisou os pais do Eros? - depois de horas lembrei de Shirley.
- Sim. Sei pai já ligou para eles. Eles estão vindo para cá. Vão demorar ainda algumas horas.
- Aí, mãe. Esse pesadelo não.vai acabar nunca. Isso é culpa minha?
- Claro que não, meu anjo. Vocês não tiveram culpa de nada.
Sempre em silêncio minha mãe buscou salgadinhos, café e refrigerante. Eu não tinha condições de comer ou beber nada.
E se passaram tantas horas que eu perdi as contas. O médico entrou na sala.
- Olá. Quem é a noiva do paciente?
- Sou eu! - eu quase gritei. Procurei nos seus olhos a resposta. Eros estava vivo?  - Ele está vivo?
- Sim. - quando eu ouvi o sim foi como se a montanha que estava sobre as minhas costas evaporasse. - Ele teve três perfurações por tiros. Uma foi apenas um raspão. E duas foram profundas. Uma quase acertou o coração. Ele teve muita sorte.
- Aí, Meu Deus! - eu não conseguia aguentar.
- Ele chegou com parada cardiorespiratória, mas conseguimos reanimá-lo. A cirurgia teve algumas complicações, mas conseguimos estancar as perfurações e retirar as balas. Ele precisou ser entubado. E ele também havia perdido muito sangue.
- E isso significa o que? - eu queria saber qual seria o nosso futuro.
- Nós fizemos todo o possível. Ele está na unidade de tratamento intensivo já que ele está em coma induzido e agora só resta esperar.
Eros estava lutando contra a morte. Saber que ele estava ainda vivo me dava esperanças. Mas ao ouvir que ele estava entubado, em coma, na uti meu coração sofria.
- Ele vai sobreviver? - eu precisava saber. - Me diga! Diga a verdade! Ele tem chances de sobreviver?
- Eu não tenho esta resposta. Nós fizemos tudo que estava ao nosso alcance. - aquelas palavras não me acalmavam. - Olha. Eu já vi pessoas chegarem com coisas aparentemente leves e virem a óbito e já vi pessoas praticamentes sem esperança se recuperar. Então eu não posso lhe dizer se o seu noivo vai ou não sobreviver.
- Mas é muito sério? - minha mãe queria saber mais detalhes.
- Sim. Senhora.
- Aí, Meu Deus! - minha mãe levou as mãos a boca.
- Assim que eu tiver alguma notícia eu ou algum outro médico repassaremos à vocês. O que eu gostaria de sugerir à vocês é que passasem na recepção e vissem dos detalhes da papelada. Atualizem os números de telefones. E que você, principalmente você. - ele falava direto comigo. - Que você fosse para casa descansar.
Eu não sei como ele poderia sugerir uma coisa como esta. Eu não conseguia me imaginar longe dele.
- Eu sei que o que estou falando parece estranho. Mas ficar aqui na sala de espera só vai torturar vocês. Se vocês quiserem é óbvio que podem continuar aqui. É que não há agora nada que vocês possam fazer além de esperar. E muitas vezes é melhor estar em casa, no conforto do lar, com as pessoas que se ama, do que aqui sem respostas. E eu lhes garanto. Que a qualquer sinal nós ligaremos para vocês.
- Eu não sei. Eu vou ficar. Por enquanto eu vou ficar.
- O.k. Tudo bem. Sintam-se à vontade. Eu quero ressaltar que qualquer coisa é só me chamar na recepção. Eu lhes peço licença porque eu tenho que voltar para a emergência.
- Sim. Doutor. Obrigado. Obrigado por tudo mesmo.
- Não há o que agradecer. Só estamos fazendo o nosso trabalho.
Fícamos até meia noite no hospital. Eu estava cansada e com tanto sono que dormi na poltrona. Minha mãe me deixou apagar.
Ele me acordou. Meu pai estava na minha frente. Eles queriam que eu fosse para casa tomar um banho e comer algo.
Repetiram dezenas de vezes que era melhor eu descansar. E que Eros iria querer isto. Quando a Larissa pediu para eu ir para casa, eu cedi.
Eu só pensava em tudo e nada. Só implorava para que Eros não morresse.

ErosOnde histórias criam vida. Descubra agora