Eu só chorava e gritava. Minha mãe pulava. Larissa veio correndo ver o que estava acontecendo.
- Ele está vivo, filha! O Eros está vivo!
- Eba, mamãe! - seu rostinho tão fofo e doce se iluminou. Um sorriso sincero abriu nos seus lábios ao perceber que sua mãe estaria feliz. Que a longa tristeza que pairou sobre a sua família tinha simplesmente acabado.
- Eu preciso ir urgentemente agora para o hospital.
- Você tem que trocar de roupas. Está de pijama ainda. - minha mãe tentava me segurar parada.
Meu Eros estava vivo. Eu não conseguia acreditar. Nós iríamos criar esse filho que eu carregava na barriga juntos. Meu Deus! Nunca mais eu iria brigar com ele novamente. Nunca mais eu passaria uma noite sem dormir ao seu lado. Eu queria vê-lo.
Minha mãe correu até o seu quarto e acordou meu pai aos pulos. Eu estava colocando os tênis e preparada para escovar os dentes, lavar a cara e pentear os cabelos em tempo recorde.
- Rápido, pai! - meu pai já estava sentado na ponta da cama trocando de roupas. Minha mãe o ajudou a colocar as meias e os calçados.
Eu precisava ver Eros mais rápido possível. Eu não sabia explicar como é possível as sensações mudar tão drasticamente dentro de nós. Era como se eu trocasse de inverno para o verão num estalar de dedos.
- Será que eu preciso levar alguma coisa para ele? Alguma roupa? Alguma comida? - eu estava sorrindo. Eufórica. Tão animada que estendia os braços pelo ar.
- Calma. Você vai lá com o seu pai e depois vocês voltam ou buscam o que precisar. Eu vou ligar para a Shirley para avisá-la.
- Estou pronta. Vamos, pai!
- Já estou indo! - ele se levantou da cama pronto. Passou as mão sobre o que lhe restava de cabelo. E pegou a chave do carro no chaveiro.
Eu abracei minha filha e a dei um beijão. Minha mãe a segurou nos braços e as duas ficaram dando thauzinhos na garagem enquanto o carro partia rumo ao hospital.
Meu pai recém acordado parecia um zumbi. Não falava nada e se concentrava nas ruas. A cada quadra passada meu coração se inflava mais de alegria.
Ao parar o carro no estacionamento do hospital eu sentia meu corpo elétrico. Faltava muito pouco.
Na recepção tive que pegar um número de chamada e esperar impacientemente. A recepcionista parecia se mover a passos de lesma.
Ela pediu o nome. E eu quase gritei o nome de Eros. Ela pediu documentos. E eu abri a bolsa e os catei com pressa. Joguei em cima do balcão. Ela digitou no teclado e nos deu dois adesivos nos identificando como visitantes. O quarto era o 212.
Eu abri a porta que separava a recepção dos corredores que levavam aos quartos e caminhei a passos largos com meu pai tentando me alcançar. Cheguei ao corredor dos duzentos e dobrei a direita. Meus olhos seguiam o alto das portas. Procurando pelos números. O quarto 212 era é o penúltimo no final do corredor. A luz do sol entrava no final do corredor.
Eu parei na frente da porta e li e reli o número diversas vezes. Para ter certeza de que não estava enganada. 212.
Fechei o punho e bati com a costa da mão, com as articulações dos dedos, na porta. O som oco reverberou pelo corredor. Coloquei a mão no trinque metálico e gelado e abri. A porta rangeu baixinho e eu espiei lá dentro.
Sentado sobre a cama, de costas para mim. Um homem de pijama azul clarinho contrastava com os cobertores e travesseiros brancos. Sozinho no quarto, ele estava sentado, de cabeça baixa, as pernas balançando no ar. Nos pés duas pantufas.
Seu rosto se virou e eu o vi. Meu Eros. Ele estava ali. Era ainda ele. Vivo.
- Eu achei que nunca mais fosse te ver. - eu joguei minha bolsa sobre a cama e o abracei.
Lágrimas quentes escorriam pelo meu rosto ao abraça-lo. Eu só queria ficar ali. Cuidar dele. Cuidar do meu Eros.
- Ei! Você é uma chorona mesmo. - Eros estava de volta com o seu bom humor. - Só não me aperta. Que ainda dói um pouco.
Ao lembrar dos seus machucados o soltei e me sentei na cama ao seu lado. Eros ainda tinha o peitoral e o abdomem enfaixados. Seu rosto tinha uma pequena cicatriz em cima da sobrancelha. Seus olhos carregavam olheiras. Seus labios estavam assados e com hematomas por causa da intubação.
Eu segurei a sua mão. E nós dois ficamos ali lado à lado. Meu pai entrou pela porta que eu tinha deixado aberta e se sentou na poltrona.
- Rapaz você nos deu um grande susto.
- Já estou sabendo senhor. - Eros estava muito mais magro, mas ainda era ele. E vê-lo conversando assim não tinha preço. - Eu quero que você me perdoe. Por ter sido um idiota na noite da festa à fantasia. Eu deveria aprender a controlar meus nervos.
- Não! Você não tem que se desculpar de nada. Eu estava errada. Vamos colocar uma pedra em cima desse assunto. Daqui para frente só quero cuidar de você.
- Eu achava que você iria querer se separar de mim. Eu fiquei muito mal. - aquelas palavras me machucaram.
- Eu jamais conseguiria deixar de te amar.
Eros levou minhas mão até seus lábios.
- Eu te amo, Eros. Amo mesmo. Do fundo do meu coração.
- Eu também te amo, Tati. E é muito bom poder estar com você de novo.
Eu não queria pressioná-lo, mas eu tinha tanta coisa para falar. Ele estava ainda muito abatido. Estava cansado. Mas aparentava estar curioso. Fícamos em silêncio assistindo a televisão. Era estranho que depois do que tínhamos passado não tivéssemos a vontade de falar. Apenas estar juntos era o suficiente. Eu o ajudei a ir no banheiro. Ajudei a alimentá-lo. E logo de tarde seus pais e seu irmão chegaram. Shirley entrou aos prantos chorando. Eu achei melhor ir dar uma volta lá fora. Acompanhar meu pai até o estacionamento.
Ao voltar para o quarto eu sabia que eles tinham tido uma conversa séria. Shirley apenas balançava a cabeça concordando com tudo.
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Eros
RomanceDepois de um casamento fracassado e uma gravidez não planejada, agora Tatiana aceita qualquer emprego para sustentar a sua filha. Ela é só mais alguém no mundo tentando neste momento sobreviver e seguir em frente. Depois de ser traída pelo pai de su...
