Comemos em silêncio. A televisão ligada no jogo de futebol. Larissa experimentando cada salgadinho.
No celular uma mensagem de Eros.
"Estou livre. Quer fazer algo especial? Posso passar aí te buscar mais tarde. Topa?"
Segurei o celular contra o peito. Com medo que minha mãe visse as mensagens. Para esse tipo de coisa minha mãe tem olhos de gavião.
"Venha daqui uma hora. Estou com saudades de você."
"Combinado. Estarei aí daqui à pouco. Me manda sua localização."
"Ok." Adicionei o mapinha com local. Estava ficando ansiosa.
Minha mãe aproveitou o tempo ocioso para perguntar sobre o trabalho.
- Como estava hoje? - ela assumia um tom discreto. Estava doida para saber tudo. Esses dias peguei ela conversando com a vizinha. Se gabando que eu trabalhava na mansão de Eros.
- Cansativo. A família do Eros está me deixando louca.
- Mãaaae? Mãaaaae? O pai já vem? - Larissa se pendurava nos pés da mesa.
- Simmmm. Ele já deve estar chegando. - peguei Larissa no colo. - Você se comporte. Está bem?
- Sim! Mãe! - tão pequena e já revirava os olhos.
- A residência é enorme. Às vezes não tenho certeza se vou dar conta.
- Tá. Mas e o tal do Eros? Ele é tão bonito quanto falam? - minha mãe sabia que ele era bonito. Ela procurava as pessoas no facebook para comentar com as amigas. Estava querendo averiguar informações. - Ele é casado?
- Ele é bonito, sim, mãe. E está solteiro. - tentei imaginar qual seria a sua cara se soubesse que eu e o tal Eros estamos namorando.
- E ele nunca deu em cima de você? - ela me pegou desprecavida. Fiquei nervosa. Não queria entregar. Sabia que ela olhava pelo canto do olho rastreando qualquer ato falho. Minha mãe sabia quando eu mentia só pelo cheiro.
- Não, mãe. Eu quase nunca o vejo. - tomei um gole de refrigerante. Evitei olhá-la.
- Essa gente rica adora iludir moças jovens e bonitas. É o passatempo predileto deles. Tome cuidado.
Eu não sabia o que responder.
- Marcus não devia ter chegado já?
- Devia. Vou mandar uma mensagem para ele.
Larissa estava impaciente. Do pior jeito. Ela estava silenciosa. Seus olhinhos volta e meia paravam na porta. Ela o esperava.
- Mãe, vai demorar?
- Não meu amor. - dei um beijo na sua testa. - Seu pai já deve estar chegando.
Larissa parecia uma princesinha. Toda de rosa. Ela estava com saudades do pai. Quando Marcus aparecia para buscá-la era sempre como ir a Disney para Larissa. Ela tinha orgulho do pai. Achava ele importante. Ele era um ícone para ela. Diferente que comigo, para com ele, Larissa obedecia sem reclamar.
- Eu vou ligar para ele. - Larissa desceu do meu colo e eu fui até o banheiro.
- Atende! Atende! - eu sussurrei para o espelho.
Chamava e chamava e nada.
Minha mãe colocou uma música para anuviar o ambiente. Marcus já estava 30 minutos atrasado. Meu coração começou a ficar aflito.
Ao voltar para a cozinha minha mãe estava com aquela cara de preocupada que não quer demonstrar.
- Eu não acredito que o Marcus não vai vir. É a filha dele! É o aniversário dela! Essa menina está há dois meses só esperando esse dia. Ela escolheu a roupa rosa porque sabe que o pai gosta de vê-la de rosa. - minha mãe despejava a frustração e ódio que sentia de Marcus. Na cabeça dela ele era um idiota por não ter assumido nossa família. Ter fugido da responsabilidade. Eu não podia discordar.
- Mãe, ele vai aparecer. - rebati arregalando os olhos. Um frio na barriga me dominava. - Cadê ela? Está no quarto?
- Não. Ela está lá fora. Seu pai pediu se ela não queria esperar lá fora. Eles pegaram duas cadeiras. Devem estar sentados lá fora na área.
Minha mãe ficou fingindo que assistia a televisão. Comecei a ficar preocupada.
- Já vai fazer uma hora que ele - minha mãe sussurrou o "ele" com nojo. - deveria estar aqui.
- Eu sei mãe. Não pilha. Por favor. Isso não ajuda em nada. - eu estava suando e respirando fundo. Minha vontade era de pegar Marcus pelo pescoço quando aparecesse.
- Tá bom. Tá bom. - ela começou a lavar a louça.
A música de chamada do celular começou a tocar. Meu coração disparou. Era Eros.
- Está tudo certo para daqui à pouco? - a voz maravilhosa apertava o meu coração.
- Eu, eu, eu acho melhor hoje não. Minha nenê está de aniversário. O pai dela disse que viria buscá-la. Mas não chegou. Então eu sinto muito. Mas hoje não vai rolar.
- Tati... - a tela do celular ligou e a música típica começou a tocar novamente. No visor Marcus.
Atendi.
- Onde você está? - quase gritei.
- Tati. Eu to ligando para avisar que não vai dar hoje. Eu sinto muito.
- Você não vai fazer isso com a sua filha. - tive que me controlar para não gritar.
- Tati. Por favor! Não começa. - Marcus subiu o tom. Eu relembrei as brigas que tivemos. O ódio que sentia. Lágrimas começaram a escorrer pelo meu rosto.
- Por favor. Ela está te esperando o mês todo. Eu suplico.
- Tati. Eu prometo que vou no final de semana. Eu sinto muito. Diz pra ela que eu compro o presente que ela quiser. Foi mal.
E desligou. Me segurei nas paredes para não desabar. Como eu iria contar para ela que o pai não vinha. Eu solucei. Rios de lágrimas.
- Deixa eu adivinhar. Ele não vem. - minha mãe estava bufando de raiva. Atirou o pano de pratos sobre a pia. Balançava a cabeça de um lado para o outro. - Eu não sei como ainda fico surpresa.
Eu não sabia o que falar. Apenas limpava as lágrimas que insistiam em jorrar.
Levei as mãos ao rosto. Tentando ser firme. Inspirando fundo.
Caminhei numa marcha lenta até a área fora da casa.
Espiei pela porta. Lá estava meu pai sentado dedilhando o violão. E ela. Sentadinha na calçada. Olhando para a grama. Arrancando com seus dedinhos pedaços de folhinhas verdes. Tão linda. Tão frágil. Queria guarda-lá num potinho para sempre.
Lentamente ela levantou os grandes olhos para me ver.
- O pai vem? - era como se ela soubesse a resposta. Me doeu tanto ouvir aquela vozinha tão doce pedir pelo pai.
Não tive força para falar. Apenas balancei a cabeça negativamente.
Ela se levantou e tapou com suas mãozinhas o rostinho. Lágrimas escorrendo pelas suas bochechinhas. Passou correndo por mim. Entrando dentro da casa e correndo para o quarto. Seu vestidinho rosa voando para trás.
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Eros
Любовные романыDepois de um casamento fracassado e uma gravidez não planejada, agora Tatiana aceita qualquer emprego para sustentar a sua filha. Ela é só mais alguém no mundo tentando neste momento sobreviver e seguir em frente. Depois de ser traída pelo pai de su...
