15 - Aniversário do Joshua

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     Eu estava sentada na lanchonete com um livro, quando Tonya se prostrou na cadeira ao meu lado:
     - Conta.
     - Olá pra você também. Bom dia.
     - Conta.
     - Contar o quê?
     - Como foi com Norman. - ela disse como se fosse óbvio.
     - Não teve nada com Norman. Ele me levou em casa e fim. - expliquei.
     - Nenhum beijo?
     - Acho que você está projetando um conto de fadas sobre mim e Norman. - comentei. - E isso não existe.
     - Tá bom né. - ela deu um olhar digno daqueles memes mal desenhados de 2012. - Bom, eu vim fazer um convite.
     - Qual?
     - Quarta-feira é o aniversário de Joshua. E mamãe quer dar uma festa para o animar...
     - Vai ser na quarta mesmo?
     - Na verdade vamos fazer no sábado. Porque na quinta tem aula. - eu assenti, concordando com seu raciocínio. - E eu queria que você estivesse lá. Joshua gostou de você.
     - De mim?- eu ergui a sobrancelha sabendo que aquilo era bem tendencioso. - Mas nós mal trocamos duas palavras.
     - Ok, ele gostou do Norman, mas... - ela esticou a última palavra antes que eu pudesse protestar. - Você é minha amiga. Eu quero você lá. E também porque se você for, Normna com certeza vai.
     - Tonya, você está delirando.
     - Estou? Faça o teste. - ela jogou o olhar para além de mim e vi que Norman estava entrando na lanchonete.
     - Eu não vou fazer isso.
     - Então eu faço. - ela enganchou no meu braço e saiu me levando pendurada até ele:
     - Oi, Norman. Bom dia.
     - Oi, bom dia gente. - ele sorriu para nós e eu respondi só com um aceno.
     - Vai ter uma festa no sábado na minha casa. Vai ser o aniversário do little Joshua. - tive a impressão de que se ele ouvisse ela o chamando daquele jeito, ele ficaria bravo. - A Olivia vai, você vai também? - ela disse de uma forma toda atrapalhada.
     - Vou. - ele respondeu na hora. - Que horas vai ser?
     - Às oito e meia.
     - Meio tarde né? - eu comentei.
     - O Norman te leva em casa, não tem problema. - não preciso nem dizer o quanto fiquei constrangida, mas o que de fato me surpreendeu foi a reação dele. Norman deu um sorriso atípico e abaixou a cabeça. 
     - Você provou o pão de mel? - ele perguntou depois de um segundo.
     - Ah, provei sim. Estava uma delícia. - eu me lembrei do gosto e por algum motivo naquele momento, meu estômago embrulhou.
     - Você conseguiu fazer ela comer alguma coisa? - Tonya se voltou a ele, rapidamente. - Meu Deus, você deve ser mágico, porque eu nunca vejo ela comer nada.
     - Não é porque vocês não estão vendo que eu não como. - argumentei, começando a ficar nervosa.
     - Eu que não cou ficar atrás de você, conferindo sua comida. - ela fez uma careta.
     - Pessoal, eu tenho que ir. - Norman criou a deixa.
     - Até mais tarde. - eu disse e Tonya assentiu.
     - Eu não falei pra você? - ela disse depois que ele partiu e eu revirei os olhos.
     - Você é... - eu perdi a fala quando vi Will entrando na lanchonete.
     Mas eu não perdi a fala por ele ter entrado, eu perdi, porque Clarisse estava pendurada no braço dele.
     A garota de cabelo castanho claro (quase loiro) estava com um sorriso fixo no rosto, cumprimentando todos na lanchonete.
     - Mas o que é aquilo? - Tonya acompanhou minha linha de raciocínio.
- Aquele não é seu ex? - ela apontou.
     - Pois é.
     Will não estava demonstrando nada em particular e num primeiro momento eu realmente cogitei que Clarisse estive abusando dele.
     - Até mais, amor.  - ela acenou depois de o dar um selinho e ele sair andando.
     Minha teoria parecia fazer sentido.
     Eu desviei rápido o olhar da cena depois disso, mas Tonya infelizmente ficou encarando e graças a isso, a senhorita pomposa veio tirar satisfação conosco:
     - O que vocês estão olhando?
     - Por que necessariamente eu tinha que estar olhando pra você? Sei que é meio difícil de acreditar, mas você não é o centro do universo. - Tonya soltou num tom já bem irritado.
     - Nessa escola, eu sou sim. - ela fez questão de jogar o rabão de cavalo pra trás. - Mas e você, Olivia? Ficou feliz com o que viu? Se é possível você ficar feliz com algo já que você parece apática.
     - Não tem porque eu estar feliz e nem triste. Você e Will só representam indiferença na minha vida.
     Ela deu um sorriso bem largo, que me mostrava o quão brancos e retos seus dentes eram:
     - Que bom, porque nós estamos namorando e eu não quero que nenhuma abelhinha venha se meter entre a gente.
     - Ninguém precisa se meter entre vocês, porque ele logo vai ver a pessoa deplorável que você é. - o tom de Tonya estava pior que anteriormente e ela parecia estar fervendo.
     - Cala a boca que eu não estou...
     - Quer saber, eu acho que estou feliz sim. - a cortei, antes que ela pudesse insultar mais ainda Tonya. - Porque pelo que eu me lembro, você sempre foi apaixonada por Will. Espero que vocês sejam felizes.
     - Que bom que você sabe o seu lugar, fantasma. - ela disse como se estivesse atuando e na verdade ela estava; seus telespectadores já estavam reunidos ao seu redor e ao perceber aquilo, eu só quis sair dali, porque aquele tipo de atenção era uma droga.
     - Escuta aqui, você adora ficar colocando apelidinhos e enchendo o saco de todo mundo, mas deixa eu te contar uma verdade, o Will só está 'namorando' com você - Tonya abriu aspas no ar. - para provocar algo em Olivia porque ele foi um bundão com ela e agora a quer de volta. Ele não gosta de verdade de você.
     Tonya havia acabado de estragar o meu plano de cair fora.
     Clarisse não costumava se incomodar com comentários depreciativos a seu respeito (até porque se fosse assim, oitenta por cento da escola já teria a incomodado), e no fim, Tonya nem a disse nada ofensivo de fato; entretanto quando ela terminou de falar aquilo, o rosto da outra garota transtornou:
     - Escuta aqui você, sua chupeta de baleia. Você não sabe droga nenhuma... - quando eu percebi, Clarisse já estava no chão.
     Tonya a acertara com um soco direto no nariz. Foi com tanta força e ódio que mesmo antes de Clarisse se levantar, eu já previra um nariz quebrado.
     - Sua porca gorda do inferno! - ela se levantou com a mão no nariz que sangrava e não era pouco. 
     - Cala a boca, sua magricela nojenta. - uma foi pra cima da outra e eu realmente não acharia que Clarisse teria qualquer chance contra Tonya, porém eu sabia que a líder de torcida já havia feito uns anos de muay thay.
     - Tonya, para com isso! - eu gritei, mas era óbvio que eu seria ignorada.
     Ao nosso redor se formou uma rodinha de pessoas que assistiam à briga animadas.
     As duas se espancavam e eu via que a minha amiga ganhava arranhões fundos no braço.
     Eu comecei a entrar em pânico, porque aquilo não parecia nem longe de acabar. As duas se atracavam cada vez mais, numa competição não só física, mas também competindo nos insultos.
     Mais arranhões em Tonya e agora um bom tufo de cabelo de Clarisse voou.
     Elas iam se matar.
     Saí correndo apavorada pelos corredores, em busca da única pessoa que eu achava apta para dar um jeito naquilo.
     - NORMAN! - gritei quando vi o suéter dele a alguns metros.
     - Você está bem? Está toda vermelha. - ele disse quando me viu.
     - Tonya e Clarisse estão brigando e ninguém parece a fim de separar. Eu preciso de ajuda. - ele assentiu e nós corremos até a lanchonete.
     Era incrível como em poucos segundos, a roda havia aumentado consideravelmente e eu nem sabia que tinha tudo aquilo de gente na escola.
     - HEY, VOCÊS DUAS! JÁ CHEGA! - antes de eu conseguir raciocinar, Norman se enfiou no meio da roda.
     Eu me esgueirei, tentando enxergar algo:
     - CHEGA! - ele gritou muito forte e tenho certeza que sua garganta doeu.
     Quando eu consegui ver algo, ele estava tirando Tonya de cima de Clarisse e as amigas da líder de torcida a ajudavam a se levantar.
     - Você ainda vai ver, sua baleia gigante! - ela ainda gritou.
     Tonya tentou avançar pra cima dela de novo, mas Norman não deixou:
     - Chega, Tonya. Já deu. - agora ele me parecera irritado.
     Norman vinha trazendo ela pelo braço para fora da rodinha que aos poucos ia se dissipando.
     - E agora? - ele me perguntou. - Não é melhor levar ela para a enfermaria?
     - Nós não temos uma aqui. - falei. - Como o último período é voluntário hoje, vamos levá-la pra minha casa. Se fircarmos aqui por muito tempo, ela vai para a detenção. - Norman assentiu.
    
    
   

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