18 - Perseguição Cruzada

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Norman

     Um pouco antes de o sinal para o intervalo bater, ele mandou mensagem tanto para Olivia quanto para Tonya, convidando as duas para lancharem juntos.
     Apesar de elas terem confirmado, ele estava há uns dez minutos lá sentado sozinho, então ele resolveu ir checar o que acontecera.
     Ele fora até a sala que elas estavam na última aula e surpreendente elas estavam lá:
     - Oi?
     - Norman, desculpa. - Olivia disse e sua voz soou extremamente baixa. - Acabei esquecendo de te enviar mensagem.
     - Vocês esqueceram de mim? - ele brincou, olhando para as duas meninas.
     - A gente ficou presa com isso. - Tonya arrancou um papel que Olivia segurava e o entregou a ele.
     Parecia um tipo de cartinha.
     Tinham vários desenhos malfeitos com um monte de comentários pejorativos que Norman entendeu serem sobre as duas meninas à sua frente:
     - O que é isso?
     - Lê atras. - Tonya indicou e ele virou a carta.
     Enquanto corria os olhos pela caligrafia horrível, Norman entendeu que se tratava de um tipo de historinha, porém era uma muito maldosa que insunava que Olivia e Tonya eram namoradas, para colocar de maneira leve:
     - Quem fez isso?
     - Quem você acha? - Tonya não estava com um tom bom. - Eu vou quebrar a cara daquela lacraia magricela.
    - Tonya!
    - Sem ofensa, Olivia.
    - Para com isso! - o tom dela foi firme apesar de ela não ter de fato gritado. - O que foi que a gente conversou há dois dias na minha casa? Você tem que se controlar!
     - E vamos fazer o quê? Deixar aquele silicone ambulante fazer piadinhas com a nossa cara? - contra argumentou.
    - Sim. Vamos deixar ela falar e fazer piada e etc. Quanto mais atenção dermos pra esse tipo de coisa, mais atenção vamos atrair dela. - o tom dela não vacilou em nenhum momento.
     - Tá bom. - a outra garota disse com os olhos marejados, como se estivesse estranhando o comportamento da amiga.
     - Vocês não acham que seria correto falar com a direção? - ele sugeriu enquanto eles andavam para fora da sala.
     - Eu já tentei algumas coisas. Mas eles não fazem muito. - ela respirou fundo. - Eles não chamam nem os pais, só dão uma advertência.
     - Parece que a detenção não é a única coisa falha nesse colégio. - ele e ela trocaram um sorriso.
     - Finalmente! Eu tava morrendo de fome. - Tonya disse assim que eles alcançaram uma mesa na lanchonete do colégio. - Querem algo?
     - Pode pegar um sanduíche para mim? - Norman a deu o dinheiro e ela assentiu. - Quer algo, Olivia?
     - Não. Obrigada.
     A outra garota deu de ombros e foi comprar os lanches.
     Norman foi remetido automaticamente ao dia em que jantou na casa de Olivia. Ao prato de Olivia. Com pequenos pedaços de peixe.
     Não era a primeira vez que ela estava sem fome e parando para pensar agora, não era o primeiro intervalo em que ele não a via encostar em absolutamente nada.
     - Galera, vocês se importam se eu der uma sumida? - Tonya voltou com as comidas e com essa frase. 
     - Desde que você não esteja indo bater na Clarisse, sem problema. - ele brincou e ela o devolveu um sorriso antipático.
     - Não, eu preciso buscar o Joshua na psicóloga dele.
     - Você sabe que nosso intervalo é de apenas quarenta minutos né? E tendo em vista que já se passaram alguns...
     - Uau, vou pegar uma detenção. Incrível. Não sobreviverei. - ela cortou Olivia e fez gestos abrangentes. - Beijo, pessoal.
     - Às vezes,acho que tem alguma coisa solta na cabeça dela. - Olivia comentou enquanto a amiga se afastava.
     - Eu tenho certeza disso.
     - Posso te fazer uma pergunta estranha? - ela surgiu com isso de repente.
     - Olha, essa é uma das minhas falas. - ela sorriu. - Pode sim.
     - Naquele dia, na minha casa, você comentou que você já brigou. - ela fez uma pausa que trouxe um sorriso que ele não pôde especificar. - Eu não consigo imaginar você brigando, Norman.
     Ele deu um sorrisinho um tanto sem graça:
     - Não é algo que eu me orgulho, sabe? - ela assentiu levemente. - Isso foi há alguns anos atrás.
     - Você pode me dizer o porquê? - ela perguntou de forma gentil.
     - Eu não sei se eu já te comentei, mas eu moro com a minha mãe.
     - Acho que você já chegou a mencionar.
     - Então, a minha história parece muito com as histórias de pais alcoólatras e violência doméstica. - ele disse com um tom que se assemelhava a um aveludado. - E uma parte que contribuía para a minha vida de moleque ser bem ruim, era o fato de que meu pai fazia escândalos na porta do colégio.
     - Por quê? - ela moveu as sobrancelhas.
     - Eu não sei e nunca fiz muita questão de perguntar. - Norman deu de ombros. - Os moleques da turma não perdoavam e eu aguentava gozações todo santo dia.
     - Meu Deus, que inferno.
     - Eu ignorava eles porque eu achava que um dia ia parar. - ele disse sem dar muita importância. - Porém teve um dia que a minha mãe foi me buscar na escola, dizendo que nós íamos ir embora.
      "Ela tava muito machucada. Ele havia batido nela com tudo que ele econtrou pela frente."
      - Os garotos viram isso e entenderam a gravidade da situação? - ela tentou.
      - Nós não fugimos. Não tínhamos para onde ir e minha mãe não trabalhava. Ao invés disso voltei pra escola no dia seguinte e os moleques falaram da minhã mãe dessa vez.
      - Daí você perdeu a calma. - Norman assentu, confirmando o acerto.
      - Eu não só perdi a calma, como eu quase matei o garoto em quem eu bati. - Norman viu os olhos verdes dela ficarem imensos sobre o seus.
      - Norman...
      - Eu bati nele com exatamente tudo que eu vi na minha frente, lata de lixo, mochila, mesa. - reacessar aquilo foi um pouco traumático e devido a isso, o olho dele foi se enchendo. - Eu surtei, Olivia! Eu quase matei alguém quando eu tinha só quatorze anos, eu...
     Ela o interrompeu com um abraço.
     Olivia simplesmente avançou num abraço forte naquele exato monento, enquanto segurava a parte detrás da cabeça dele e sussurrava um "shhhhh" para tentar o acalmar.
     Norman só percebeu que estava todo tenso quando relaxou os músculos sob o corpo dela.
     Ele fechou os olhos e sentiu exatamente aquilo que havia sentido no baile.
     Conforto.
     Olivia tinha um cheiro preguiçoso que o fazia querer deitar e embalar num transe. E ao mesmo tempo que era confortável, era tão seguro estar ali. Como uma fortaleza.
     - Está tudo bem. - ela sussurrou em seu ouvido. - Desculpe te fazer voltar a isso.
     - Você dividiu comigo alguns dos episódios mais perturbadores da sua vida. - ele disse quando se distanciou e sorriu no fim da sentença. - Eu não poderia encontrar uma pessoa melhor para dividir os meus. - ela sorriu.
     - Mesmo assim, desculpa. - o sorriso dela foi se findando aos poucos.
     Nesse exato momento, como se estivesse apenas esperando por aquilo, o sinal bateu, anunciando o final do intervalo.
     - Vamos? - ele se levantou e ofereceu o braço pra ela.
     - Vamos. - ela enganchou o seu no dele.

     
  
     
     
    

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