Meses Depois
- Sinceramente, não tenho nem o que dizer. - a Doutora Bloom disse, cruzando os dedos e colocando as mãos sobre a mesa. Hábito já costumeiro dela.
- E isso é bom ou ruim? - meu pai fez a pergunta que eu estava me planejando pra fazer.
- O tratamento está indo super bem. Seu corpo está respondendo perfeitamente e a parte psicólogica tem evoluído muito. Você está de parabéns, Olivia! - eu sorri, mais por alívio fo que por satisfação.
- O meu corpo está bom?
- Quase cem por cento. - ela também sorriu. - Tenho que confessar que você é umas das minhas pacientes que mais respondeu bem ao tratamento. - ela levantou e eu fui junto.
Era a pesagem.
Tirei a blusa de frio, entreguei para o meu pai e subi na balança.
- Qual o peso que está vendo? - ela me perguntou.
- Quarenta e quatro quilos? - eu a encarei como numa tentativa. Bloom sorriu e assentiu com a cabeça.
- Isso é dois quilos a menos do que você precisa para estar com o mínimo aceitável para a altura de um metro e cinquenta e seis. - eu assenti. - Como se sente com esse peso?
- Acho que estável. Não paro muito para pensar sobre. - ela anotou alguma coisa num papel.
- E como se sente sabendo que ainda tem mais dois quilos a ganhar? - respirei fundo.
A honestidade era a base.
- Não gosto. Já foi desgostoso para mim esses outros quilos que ganhei. É dificil não fazer controles de calorias em agendas e não mensurar isso na hora que como. Ainda considero isso. - a doutora assentiu. - Mas sei que é necessário, então prefiro não focar nisso.
- Tudo bem. - ela terminou as considerações no papel. - E como vão as coisas com a Tatiana?
- Bem. Tenho sido menos rebelde com ela. - a doutora Bloom sorriu.
- Tem sido mais fácil se abrir? - pensei realmente na pergunta dela.
- Tem sido mais fácil eu aceitar que tenho que me abrir, que tenho que engordar, mas não é exatamente fácil ter que fazer essas coisas, sabe? - fui sincera enquanto olhava para as minhas unhas. - Eu tento me forçar cada vez mais a entender que é para o meu bem, mas as vezes não consigo.
- Tudo bem. Isso é um processo. Não é nada simples como preto no branco. - eu só assenti. - Obrigada pela sinceridade.
- Sem problemas. - eu e meu pai nos levantamos e papai apertou a mão da doutora.
- Quando nos vemos de novo?
- Daqui a um mês. - eu acenei pra ela e nós saímos de lá.
Enquanto eu e papai nos dirigíamos para o carro, ele me surgiu com uma sacada:
- Já pensou no que quer de presente de formatura?
O olhei um tanto confusa devido a discrepância dos assuntos:
- Não. Tá um pouco longe ainda para eu me formar.
Ele só assentiu e eu achei melhor continuar:
- Pai, não acho que seja necessário gastar dinheiro com isso. - ele me encarou em toda a sua plena seriedade. - Se formar no colégio é uma obrigação minha. Eu não deveria ser presenteada por isso.
- Você é a adolescente mais estranha que já conheci. - eu sorri enquanto olhava o celular e bati com a mão na testa. - Que foi?
- Você pode me deixar na escola? Esqueci que tinha terapia hoje com a Tatiana e me atrasei.
- Claro.
- Eu nem me lembrei.
- Precisa de carona depois da sessão?
- Não. Vou sair com Norman, Tonya e Joshua. - papai assentiu. - Mas eu agradeceria muito se você pudesse passar no mercado e comprar as coisas para o bolo do Ian.
- São as coisas de sempre?
- Sim.
- Pode deixar comigo. - eu sorri e beijei sua bochecha.
Eu não fazia mais o exercício do bloquinho. Eu não tinha mais lições de casa para fazer e aquilo me fazia sentir estranhamente incomodada. Era como se faltasse algo. Acho que acabei me acostumando com tudo aquilo.
Tatiana estava na minha frente e ela estava sorrindo por conta de uma resposta que eu acabara de a dar. Ela sorria de orelha a orelha.
As sessões de terapia estavam melhorando. Não pareciam mais algo tão traumático de ser feito. Às vezes eu até dava alguma risada.
- Eu quero tentar fazer algo diferente do que estamos acostumadas. - ela soltou, me trazendo de volta, muito de repente.
- O quê?
- Quero conhecer um pouco a Olivia do passado. - por algum motivo fiquei tensa. - Me fale uma das coisas que você mais gostava sobre você?
- Eu era extremamente divertida. Engraçada. - dei de ombros, me lembrando com certa nostalgia daquelas coisas. - Gostava de fazer aquelas piadas horríveis que ninguém ri, sabe?
- Sei. - ela parecia estar anotando. - E me diga uma das suas lembranças favoritas do passado?
Para essa reposta, parei para pensar um pouco, porque havia uma centena delas.
- É difícil escolher apenas uma. - eu ia repaginando tudo na minha cabeça. - Talvez hajam outras memórias que eu não esteja lembrando agora, mas tem uma que sempre gosto de lembrar.
- E qual é? - ela me instigou.
- Foi a de um piquenique. Que fiz com meus pais. Ian era bem novinho ainda. Eu me sentia mais madura do que realmente era e morria de medo de papai bater no Will. - foi impossível não sorrir.
- Conte mais detalhes, por favor.
- Nós estávamos fazendo um piquenique para comemorar o aniversário de casamento dos meus pais.
"A mamãe estava radiante. Ela tinha feito geleia de jabuticaba e eu estava reclamando com ela porque ela colocara açucar demais..."
- Como assim "...porque ela colocara açucar demais"? - Tatiana me intetrompeu gentilmente.
Respirei fundo:
- Mamãe era perfeitamente saudável antes de engravidar. Porém, quando ela engravidou de mim, começou a desenvolver diabetes gestacional.
"Durante a gravidez, os médicos a disseram que provavelmente quando eu nascesse, a doença iria embora. Bom, por algum motivo, não foi".
Parei um pouco e olhei pela janela de Tatiana. Eu estava me sentindo um tanto sensata. Falar sobre aquilo costumava ser bem crítico, mas não estava assim tão assíduo
O tempo lá fora estava nublado. Senti que eu me identificava de alguma forma.
- E você sempre se preocupava demais com ela? Nesse sentido?
- Sim. Porque o médico sempre a dava sermões. E eu ficava a vigiando. - Tatiana assentiu ao meu comentário:
- E Como sua mãe reagia?
- Ela achava fofinho uma criança tentando cuidar dela. - mais um aceno de cabeça.
- Ok. - ela respirou fundo e foi um pouco pesado. - Eu preciso fazer algo e pode ser um pouco desconfortável, então se não quiser continuar, podemos parar a sessão por hoje e iniciar outro dia.
Encarei o fundo dos seus olhos castanhos.
Eu me sentia estranhamente estável naquele dia. Como se eu realmente soubesse lidar com as coisas.
Pensei em mamãe. Pensei na Olivia de dez anos de idade. Algo que eu sempre quis, era ser forte como a minha mãe; ela fazia isso sem parecer ser algo difícil e eu sempre sonhei em me tornar alguém como ela. Porque eu achava aquilo uma de suas maiores virtudes. Sempre achei o jeito que ela lidava com tudo muito bonito.
Eu sempre projetei isso para o futuro, porém se eu queria me parecer com mamãe em algum aspecto, eu precisava começar de algum lugar:
- Não, tudo bem. Vamos lá. - então arregaçei as mangas e fingi ter um pouco de coragem.
Se para conseguir dormir, você precisa fingir estar dormindo, então para ser corajosa, precisa-se fingir ter alguma coragem, certo?
- Pode me dizer o motivo do óbito de Ruby? - engoli em seco e tentei me fixar só na parte técnica.
- Foi um agravamento da diabetes. - eu desviei um pouco o olhar do seu rosto. - Ela ia fazer uma operação na perna. Não lembro porquê exatamente. - me esforcei, mas não consegui capturar o motivo. - Eles fizeram a cirurgia e a cicatrização dela começou a demorar como nunca demorara antes. - ela estava me acompanhando. - A perna dela infeccionou e foi agravando cada vez mais.
"Não conseguiram conter a infecção e nem amputar a perna a tempo".
Tatiana abaixou a cabeça. Ela não estava escrevendo nada em seu bloquinho.
- Tenho mais algumas perguntas; se sente confortável em continuar?
- Não. - sorri, infeliz. - Mas precisamos. Eu não quero esperar mais uma semana para passar por isso. Quero fazer de uma vez.
- Tudo bem. - eu que assenti dessa vez, como se a encorajasse a prosseguir. - Quando você acha que começou a desenvolver anorexia?
Engoli em seco de novo.
- Eu sempre tomei muito cuidado com alimentação. Principalmente depois que minha mãe começou a ser diabética. - pausa para manter a linha de raciocínio e não recuar. - Não sei o certo quando me tornei anorexa de fato.
- Tente se lembrar dos detalhes. Essas doenças começam aos poucos, sem serem percebida. - tentei.
- Depois que mamãe morreu, comecei a sentir repulsa quando via algo doce. - falei, como se tomasse consciência disso pela primeira vez. E de fato era. - Eu parei de comê-los quase que instataneamente. Na verdade, eu não podia nem ver coisas relacionadas a doce na televisão ou em cardápios. Eu enjoava. Com o tempo diminuiu, mas ainda assim não é tão simples.
Eu acabara de descobrir uma verdade. Eu nunca enfrentara isso antes. Nunca quisera revisitar aquele luto ardente do primeiro momento. Eu não confiava que meus pés pudessem tocar aquele solo sem que ele desmoronasse.
- Certo.
- Depois, comecei a considerar que pudesse haver açúcar nas demais coisas. Mesmo que salgadas. - eu senti um pouco de vergonha em dizer aquilo. - Comecei a cortar salgados. Depois frutas e os outros grupos de alimentos. Cada vez eu comia menos.
Quando terminei de falar, Tatiana tirou os óculos vermelhos que eram novos e os pousou ao seu lado no sofá. Ela massageou o meio das sobrancelhas e percebi que ela estava prevendo uma dor de cabeça:
- Olivia, você se sente ligada de alguma forma à diabetes de Ruby? Tem medo de desenvolver a mesma doença e acontecer algo parecido com o que houve à ela? - neguei imediatamente com a cabeça:
- Não. Nenhum pouco. Eu nem gostava de doces tanto quanto ela. Se um dia eu voltar a comer, vou manter a mesma proporção de antes.
- Você mencionou que cuidava dela. Você se sentia responsável por ela?
- Sim. O tempo todo. Às vezes, ela dizia que eu estava sendo chata.
Tatiana estava me encarando fixamente. Ela nunca havia me encarado assim. Era como se precisasse desvendar algo e eu não entendia o quê.
- Olivia... - ela baixou a cabeça e respirou fundo. Parecia prestes a fazer algo que não queria. - Preciso saber se você se sente ligada à doença da sua mãe. De alguma forma...
- Eu já entendi o que você quer perguntar. - era duro para mim entrar naquilo. Era talvez o estágio mais fundo do poço. Mas eu não entendia porque era duro para ela me perguntar. - Quando descobri sobre a doença dela, me senti mal. Porque ela passou a ser doente depois que ficou grávida de mim. - soltei um suspiro. - Não era algo anormal; era a culpa momentânea que qualquer criança sente.
"Mas toda vez que eu percebia que ela se privava de alguma coisa ou que eu via a doença refletir, essa culpa ia crescendo.
"Quando ela morreu... Foi como se... Como se... Eu me... Me senti..."
- Eu já entendi, Olivia. - ela pousou a mão no meu ombro, tentando me acalmar.
- Me senti responsável por isso. - mas eu disse mesmo assim, porque naquele momento me senti como se eu não pudesse ser acalmada. Como se eu não pudesse mais recuar daquilo. - Eu queria não ter nascido se isso fosse significar que ela viveria.
- Olivia, tenho certeza, que se ela estivesse diante da mesma situação, a única coisa que ela faria de diferente era não comer doces durante sua gravidez. Mas ela ainda assim teria você. Era o sonho dela. - meu olho encheu e eu me senti estranhamente terna.
- Como você pode saber disso? Meu pai sempre me dizia isso quando aconteceu...
- Ele me contou sobre como ela ficou feliz quando ela descobriu sobre estar grávida de você. Como ela ria sem motivo, como ela não parava de criar expectativa e sobre o quanto ela amou você desde a geração Você tinha que nascer, Olivia. - nesse ponto, eu já estava soluçando. - E você já parou para pensar que sua mãe te colocou no mundo imaginando tudo de maravilhoso que você desfrutaria, o quanto você cresceria e realizaria? Assim como ela realizou? - eu sentia meu olhos molhados, mas eu estava impressionada demais com o tom dela para me importar. - Ruby queria que você vivesse o melhor e não ficasse presa dentro de um sofrimento e de culpas que não fazem o menor sentido...
- Mas eu causei isso à ela, Tatiana!
- O ato de exagerar a trouxe isso. O fato da predisposição a trouxe isso. O histórico familiar, a trouxe isso. - ela me cortou, totalmente convicta do que estava dizendo. -Já parou para pensar que se ela tivesse engravidado de Ian primeiro, poderia ter desenvolvido a diabetes? Ou, ela poderia ter desenvolvido só na segunda gravidez?
- Não.
- Mas e se tivesse sido? Você o culparia todos os dias? O faria sofrer? A culpa seria dele? - ela estava num tom alto e senti vontade de a dar um tapa por estar elevando o tom e me pressionando sobre algo que eu detestava e não confrontava haviam anos.
- NÃO! NÃO SERIA CULPA DELE! NÃO SERIA CERTO!
- Então por que é sua culpa? Por que é certo você se fazer sofrer? - o tom dela baixou novamente, mas me alarmou mais do que se ela estivesse berrando no meu ouvido. - Você não causou a diabtes da sua mãe, Olivia. As circunstâncias causaram.
Eu não consegui dizer nada, estava um pouco em choque.
- Esse foi seu gatilho. - ela disse depois de provarmos alguns segundos de um silêncio perplexo.
- Do quê?
- Da anorexia. - eu só assenti, veemente.
Não conseguia me surpreender e nem ficar mais em choque do que eu já estava, então só aceitei.
Resolvi deixar para analisar aquilo com cuidado depois, já que parecia que eu ia explodir em um milhão de pedaços.
- Quer dizer alguma coisa?
- Eu não tenho o que dizer. - minha expressão foi complicada. - Isso é a coisa sobre a qual eu mais temia ter que falar. - ela estava me encarando séria. - É como arrancar pontos de uma cicatriz que estava curada, só que não há mais pontos, só a carne. - eu disse com os olhos cheios.
- Eu sinto muito pelo que aconteceu e sinto muito que você passe por isso Olivia, mas é necessário que você confronte esse trauma antigo. - ela disse num tom professoral. - Você precisa entender o que causou isso tudo. Se trabalhar na causa raiz, conseguirá compreender melhor os padrões e lidar com o problema primordial.
- Eu sinto falta da minha mãe. - me abracei, dando um tempo de tudo que ela estava falando. - Eu ainda não superei.
- Você sente saudade. E tudo bem sobre isso. Mas você não precisa sentir remorso. Não foi sua culpa.
Mas eu sentia que era.
E ela me dizer que não, não mudaria a angústia dentro de mim.
- Será que eu posso ir embora? - eu abracei minha bolsa. Estava me sentindo extremamente venerável.
- Pode. - eu levantei e saí sem dizer tchau.
Eu amava Tatiana certas vezes. Mas na maior parte delas, eu a detestava, porque ela fazia as sombras subirem e doía tanto, que eu perdia a força por alguns momentos e me sentia nula.
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AcakComo é desenvolver uma doença que não pode ser vista fisicamente? Como é saber que está doente e ao mesmo tempo não ter ciência disso? Como é achar que isso está sendo algo bom quando está destruindo o seu corpo? E o seu psicológico? Como é estar t...
