Ouvi batidas na minha porta e saí. Era Norman. Nós já tínhamos combinados de ir para a escola juntos.
- Olá, garota mais linda do mundo. - ele disse assim que me viu.
- Se você não parar com isso, vou acabar acreditando em você. - eu disse e o recepcionei com um beijo matinal.
As coisas com Norman estavam boas. Não. Estavam muito boas. Se nosso primeiro beijo me fizera sentir como se estivesse num jardim botânico, agora então, eu me sentia construindo uma floresta inteira das flores mais delicidas e bonitas possíveis.
E elas só existiam ali.
- Como você está? - ele perguntou, pegando a minha mão quando começamos a caminhar juntos.
- Acho que estou ansiosa.
- Pra voltar pra escola? - ele sorriu. - Nunca achei que fosse ouvir isso. - eu refleti o gesto.
- Acho que não só isso. - respirei fundo. - Da última vez que estive lá, eu caí igual um papel na frente de todo mundo. Estou com uma sensação estranha. - ele acariciou minha mão com os dedos. - Eu não quero ficar respondendo à perguntas sobre a minha condição, sabe?
- E você não tem. Eu diria que eu chutaria as pessoas se isso acontecesse, mas acho que Tonya já vai estar lá
para fazer isso por você. - eu dei uma risadinha. - Fica tranquila, as pessoas não são tão insensíveis assim.
- Norman, agora me ocorreu algo. - na verdade, já tinha me ocorrido, mas tanta coisa acontecera nesses últimos dias que eu acabara deixando passar. - Você me explicou o porquê não foi me ver no primeiro dia que e estava no hospital, mas e quanto ao Will?
- Ele foi. Eu lembro que ele foi com a Tonya.
- Não, eu não entendi porque ele estava lá. - resumi.
- Ele que a segurou, quando você caiu. - eu assenti, ele já havia me dito.
- Você me disse. - foi mais uma reflexão do que qualquer outra coisa. - Mas por que ele foi para o hospital?
- Ele quis estar lá. - eu só assenti. - Mesmo sem entender nada do que estivesse acontecendo.
- Acho que ele não soube lidar muito bem com isso. - e como eu o podia culpar? Nem eu, estava sabendo como lidar direito com aquilo.
- Ele só está impressionado. Acho que ele está com medo de dizer alguma coisa errada. - eu assenti de novo. - Todos nós ficamos assim no início.
- Entendo. - nossa conversa me envolveu de tal maneira, que eu nem havia percebido o quanto já havíamos caminhado. - Tem outra coisa me incomodando.
- E o que é, amor?
- Hoje tenho minha primeira sessão de terapia. É depois da aula. - os olhos dele cintilaram sobre os meus:
- Você não quer ir?
- Mesmo que eu não quisesse, eu teria que ir. - aquilo foi um grande dar de ombros. - É só que, eu estou receosa e não gosto da sensação.
- Isso é normal. - nós paramos de caminhar. - Você sabe que vai ter que enfrentar o problema de frente.
- Isso me assusta para um caramba. - eu arregalei meus olhos.
- É só porque é a primeira vez. Já parou para pensar que a maior parte das coisas que vamos fazer pela primeira vez nos assusta?- ele me deixou pensar. - Uma entrevista de trabalho, andar de bicicleta, o primeiro dia de aula. - concordei piamente com ele, porém antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ele continuou o raciocínio. - Tente tratar isso como qualquer outro evento que fará pela primeira vez. Tente não se pressionar tanto, por mais difícil que seja.
- E como eu faço isso? - porque eu estava tentando desde a hora que eu acordei e não tinha descoberto a resposta ainda.
- Ignore. Finja que não vai acontecer. Pelo menos por enquanto. - ele me aconselhou - Siga o seu dia fazendo tudo normalmente e evite pensar sobre. - eu assenti, sem muita coragem. - Pode pelo menos tentar fazer isso?
- Posso.
Naquele momento, por mais vacilante que a minha voz estivesse, notei algo: todo mundo estava me encorajando a tentar. Pelo menos tentar fazer algo que me tirasse do estado que eu me encontrava.
Ninguém estava criando expectativas suficientes para me pressionar ou me fazer sentir mal; todo mundo estava querendo que eu me mexesse, mesmo que um pouquinho; que eu fizesse algo, mesmo que um gesto mínimo para mudar a situação. E qualquer coisa já era um avanço.
Aquilo era terno.
- Obrigada. - eu sorri quando chegamos na frente da escola. - Me ajudou muito. - dei um beijo em sua bochecha.
Por mais que eu tivesse tentado seguir o conselho de Norman, eu regredira algumas vezes.
Estava tudo bem e de repente eu me lembrava de Tatiana e uma sensação horrível me preenchia.
Mas aí, eu forçava a cabeça a pensar no dia da minha volta a casa, porque aquela era a memória atual mais forte que eu tinha.
E aí, tudo ficava bem de novo.
Eu estava saindo da penúltima aula do dia e indo em direção aos armários quando eu encontrei a última pessoa que eu queria ver na vida: Clarisse.
Segui o conselho de Norman mais uma vez e a ignorei; fingindo que a existência dela não se fazia presente.
- Olá, Olivia. - mas a existência dela se fazia presente, por mais que eu a ignorasse
Eu não a respondi.
- Hum, o que foi? Você não quer falar comigo? O que foi, Olivia? - por algum motivo, o tom dela naquele dia estava me irritando mais que o normal.
Continuei sem repsponder:
- Sabe o que eu soube? - ela continuou. - Que você e Norman estão juntos. - olhei para minha mão apoiada no armário e percebi que ela havia começado a tremer. - Vou ser sincera, não gostei muito disso.
- Clarisse, me deixa em paz, por favor. - pedi, com a cara baixa e enfiada no armário.
- É incrível como quando alguém se faz de vítima, todo mundo morre por ela né? - o tom dela se rebelou. - Agora que você é anorexa, todo mundo está morrendo de amores...
Eu não entendi o que estava acontecendo. Quando eu percebi, já tinha acontecido.
A minha mão estava fechada, socando a cara dela.
E não era como se eu tivesse algum tipo de controle. Eu não conseguia parar.
Ela tentou me agarrar, mas me surgiu uma força, eu não sei da onde, e eu só conseguia descontar. E não era nada de tapa ou puxões de cabelo, eu só sabia socar a cara dela, com força.
- Olivia! Olivia! - ouvi e foi só no momento em que reconheci a voz que eu parei e percebi o que eu de fato estava fazendo.
Tonya veio ao meu encontro e eu aos poucos fui me levantando:
- Meu Deus do céu. O que eu fiz? - eu sussurrei, com as mãos manchadas de sangue.
A cara de Clarisse estava horrível e ela estava jogada no chão como uma boneca de pano.
Senti vontade de vomitar quando eu entendi que eu era a responsável por aquilo.
- Vamos sair daqui, vem. - Tonya foi me levando dali e eu estava estática, em estado de choque.
- Mas e ela? - eu sussurrei de novo.
- Alguém vai encontrar. - ela não ligava muito pelo que pude entender de sua voz, mas eu não consegui protestar.
Ela me levou até o banheiro mais próximo e começou a pegar papel para limpar o sangue.
- Calma, Ollie. - ela disse, passando o papel no meu rosto para limpar as lágrimas que corriam sem freio. - Tá tudo bem.
- Como está tudo bem, Tonya? Ela, ela... Estava imóvel.
- Ela tem sangue de barata. Vai ficar bem. - ela tirou o sangue das minhas mãos. - Eu bati mais nela do que você, mocinha.
Eu me sentia horrível. O que eu tinha feito não tinha perdão.
- Não se sinta tão mal. Ela mereceu. - Tonya tentava me consolar.
- Eu perdi o controle, Tonya. - mais lágrimas dispersavam dos meus olhos.
- Eu perdi o controle.
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EAT ME
De TodoComo é desenvolver uma doença que não pode ser vista fisicamente? Como é saber que está doente e ao mesmo tempo não ter ciência disso? Como é achar que isso está sendo algo bom quando está destruindo o seu corpo? E o seu psicológico? Como é estar t...
