Norman
Dias Depois
Ele e Olivia não havia mais falado sobre aquilo. Ela abstraíra, simplesmente como se nunca tivesse acontecido.
E por que ele não tocava no assunto? Bem, ele não sabia nem por onde começar? Era extremamente delicado e tenso como as coisas se tornavam quando ele tentava entrar naquele aspecto.
Ele diria que era dolorido e que tentar achar uma forma de falar abertamente sobre aquilo estava quase o causando dor física.
Foi por isso que ele tomara aquela decisão.
Antes de pensar muito e sentir o peso da culpa juntamente com o arrependimento, ele bateu na porta com força.
Em menos de cinco segundos, ela se abriu, revelando a mulher alta e esguia do outro lado:
- Olá! Bom dia.
- Bom dia, doutora Tatiana.
- Pode tirar o Doutora. - ela sorriu. - E pode entrar. - ela abriu mais a porta.
Ele se sentou no sofá preto dela que parecia bem caro e só então se deu conta de como estava nervoso. Se sentia um fofoqueiro ali.
- Você está bem? - foi a primeira coisa que ela perguntou, se sentando em sua grande mesa.
- Eu estou nervoso porque estou fazendo algo que não sei se é completamente certo. - resolveu ser sincero, afinal ela era uma psicóloga.
- O que é.. Qual seu nome mesmo? - ela sorriu novamente, só se dando conta agora que eles nem haviam se apresentado.
- É Norman Redwater. - eles apertaram as mãos.
- É um prazer, Norman. - ela fez uma pausa e voltou a encará-lo nos olhos. - E então? O que é esse algo que você não sabe se é completamente certo?
Ele respirou fundo e só decidiu por para a fora:
- Primeiro de tudo, não estou fazendo isso porque estou aflito, quer dizer, eu também estou, mas não é por mim. É porque acho que ela precisa de ajuda.
- Ela quem?
- Olivia. Olivia Forbes. - ele viu os olhos da mulher cintilarem, como se avivassem uma lembrança em algum lugar.
- Me conta o que aconteceu.
- Nós não nos conhecemos há muito tempo, porém fomos nos tornando amigos. Ela perdeu a mãe recentemente e ainda está em processo de luto, mas eu não acho que esse seja realmente o problema. - ele fez uma pausa para organizar seus pensamentos. - Fui jantar uma vez na casa dela e percebi que ela tinha pego muito pouca comida. No final da refeição, ela tinha basicamente espalhado tudo e não comeu. - a psicóloga parecia estar concentrada no que ele dizia. - Achei que fosse um evento isolado e que ela só estivesse enjoada, mas aí comecei a notar isso com mais e mais frequência. Além disso, houve um desmaio no shopping uma vez. - Tatiana assentiu e anotou algo numa caderneta. - Percebi sinais de irritação e vergonha também quando era relacionado ao peso e ao corpo dela...
- Quantos quilos você acha que ela tem?
- Não acho que ela passe de quarenta e cinco. - ela assentiu e anotou novamente.
- Pode continuar, Norman.
- E ultimamente ela vem dizendo coisas como o quanto ela não é boa o suficiente. - ele respirou fundo mais uma vez e prosseguiu. - Há uns dias atrás ela teve um surto e basicamente só sabia dizer o quão horrível e gorda era.
Tatiana parou de escrever e o encarou em completo silêncio. Norman sentiu um medo ínfimo bem nos cantos de sua unha e essa sensação foi crescendo de fora para dentro até se aproximar de seu coração:
- Acredito que ela se vê de forma distorcida. Ela não consegue ver a realidade. Acho que ela até fica sem comer.
A psicóloga o encarou por mais um momento e fechou seu caderno:
- O nome é anorexia, Norman. É um distúrbio alimentar.
Ele apenas assentiu, com um aperto gigantesco no peito e uma vontade de chorar latente:
- Ela parece não saber. Estou tentando a ajudar, mas realmente não sei como. Toda vez que tento tocar no assunto, é como se o problema não existisse.
- Ela está doente. Mas não sabe. Está em negação.
- Ela não sabe que há algo de errado? - Tatiana negou com um gesto leve de cabeça:
- A única coisa que ela identifica como errado é seu peso. Ou melhor, o peso que ela enxerga. Ela realmente se vê dessa forma.
- Por favor a ajude. - ele pediu. - Eu não sei as complicações dessa doença, mas ela não está bem. Ultimamente o humor dela tem oscilado tanto e eu... Eu... Eu disse que a ajudaria.
- Eu entendo. Sei exatamente como é. Já tratei de vários casos de anorexia.
- E essas pessoas melhoraram?
- Sim. - porém não estava acabado. Norman sentia que havia algo além daquilo: - Porém todos eles tinham ciência da doença.
- Você acha que não tem cura?
- Eu acho que vamos a fazer melhorar. - ela sorriu. - Vamos dar um jeito.
- E o que eu faço?
- Por enquanto nada. Eu vou dar uma avaliada e fazer uma abordagem. - ele assentiu. - Não tente tocar nesse assunto; só vai a deixar mais irritada.
- Ok. - ele pensou: - Mais algum cuidado que eu deva tomar?
- Não fale de comida com ela; não tente a fazer comer. Isso só piora as coisas para ela porque ela vê a comida como um vilão. - mais uma vez, Norman assentiu.
- Eu nem sei como agradecer. - deixou. - Muito, mas muito obrigado mesmo. - e se dirigiu à porta.
- Norman, - ele parou para ouvir o que ela tinha a dizer. - Você não está fazendo nada de errado. Entendo que possa haver um complexo dentro de você, pois está fazendo isso sem ela saber, porém o que você está fazendo não é pelo mal; muito pelo contrário: você está tentando salvar a vida dela.
Ele assentiu. Agradeceu mentalmente pelo encorajamento. Queria acreditar naquilo, de todo o seu coração, mas de alguma forma, ele ainda estava receoso. Estava com medo de chatear Olivia e a última coisa que ele precisava naquele momento, era isso.
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EAT ME
RandomComo é desenvolver uma doença que não pode ser vista fisicamente? Como é saber que está doente e ao mesmo tempo não ter ciência disso? Como é achar que isso está sendo algo bom quando está destruindo o seu corpo? E o seu psicológico? Como é estar t...
