Norman
Deviam ser umas seis e pouca da manhã e ela ainda não havia chegado.
Eles estavam estacionados na porta da sala dela para que não houvesse como os ignorar.
Norman visivelmente não estava nada bem. Os olhos denunciavam que ele havia chorado. Seu rosto não reluzia o brilho de sempre. Ele estava explicitamente triste.
Tonya conseguia disfarçar um pouco mais, mas apesar disso, ela também se sentia péssima.
- Que horas essa mulher entra? - a garota estava impaciente.
- Acho que o turno dela começa às sete, mas a minha mãe sempre diz que para ser um adulto responsável, você deve chegar um pouco antes no trabalho.
Ela só revirou os olhos. Maldita hora que ele achou que Tatiana fosse responsável.
Ele se deixou escorregar pela parede até terminar sentado no chão. Tonya pensou no quão cansado ele devia estar; não parecia ter pregado o olho por um segundo.
Então a famosa psicóloga finalmente chegou.
- Bom dia, meninos. - o olhar dela foi curioso.
A garota decidiu não responder porque acabaria sendo mal educada.
- Precisamos conversar. - ele se prontificou a falar.
- É, eu sei. Eu ia mesmo chamar você.
Eles entraram na sala, porém não se sentaram. Tonya andava de um lado para o outro e ele mal se movia:
- O que aconteceu com o "vou ajudá-la"?
- As coisas saíram um pouco diferentes do que eu havia planejado. Olivia está muito instável...
- Instável? - Tonya que estava de braços cruzados, interrompeu. - Ela está furiosa. Concosco.
Tatiana piscou os olhos bem devagar e se assentou atrás de sua escrivaninha que lembrava mogno:
- Ela está em processo de negação. Tentei entrar no assunto da forma mais sutil que pude, entretanto ela está reprimindo demais.
- Reprimindo o quê? - foi o questionamento da menina.
- Tudo. - não foi uma resposta muito satisfatória. - Tem o luto da mãe dela que desencadeia uma série de emoçoes: saudade, medo, tristeza, raiva. E eu acredito que a causa da anorexia dela também pode vir disso. - Norman se sentou no sofá, ainda quieto. - Acho que até as coisas boas estão presas lá dentro, nessa visão distorcida que ela tem de si mesma.
Norman considerou se no meio disso tudo poderia haver algum sentimento dela para ele. E por mais que ele sentisse que não deveria pensar nisso agora, não conseguiu se conter. Uma parte dele estava presa á crença que debaixo de todo aquele bolo de sentimentos e emoções, havia algo singelo por ele.
- Estou preocupado. Não só com o fato de ela achar que não pode mais confiar em nós, mas com o fato de isso provavelmente acelerar o progresso da doença. - ele falou com um tom muito veemente para o momento.
- De fato, nós precisamos falar de novo com ela. - ela disse o óbvio.
- Mas como vamos falar com ela se ela não quer nos ver nem pintados de ouro? - Tonya explodia, num misto de irritabilidade e chateação.
- Vocês de fato não devem a contestar agora. - Norman deu um sorriso do tipo cansado. - Deixem que eu vou falar com ela.
- Ela vai atear fogo em você do jeito que está. - Tonya foi drástica, mas ele pensou que talvez não fosse assim tanto exagero.
- Vou a dar uns dias...
- É seguro "a dar uns dias"? Pelo que entendi, a situação só está se agravando mais a cada dia. - Norman comentou, sem muito ânimo.
- Olivia está instável. - ela repetiu. - Precisamos a dar tempo para processar algumas informações. - Tonya fez um som que dedprezava a ideia da psicóloga. - O que acontece quando você é criança e alguém briga com você? - ela se virou para Tonya.
- Eu vou ficar muito irritada.
- Certo, porém depois de um tempo que você ficou chateada e emburrada, você não considera que talvez aquela pessoa esteja dizendo aquilo para o seu bem? - ela seguiu na linha de raciocínio.
- Não. Eu sou orgulhosa pra caramba. - pelo menos, ela foi sincera.
- Eu entendo o que você está dizendo. - Norman tomou a situação mais uma vez. - Acha que com o passar dos dias, ela pode pensar melhor e reconhecer que está errada. - Tatiana assentiu.
- Isso. - ela continuava assentindo. - Ficar forçando a ideia de que ela é doente e nem sabia disso não vai a ajudar. Precisamos que ela lide aos poucos com a informação. - os dois ficaram quietos e ouviram. - Pessoas anorexas tem um extremo sentimento de estar no controle.
- No controle de quê? - Tonya que perguntou.
- Podem ser várias coisas. - ela foi até a mesa dela e pegou dois livretos, os entregando para os dois jovens. - Mas estar no controle do peso representa estar no controle de outras coisas para eles. É algo estreitamente ligado ás outras áreas da vida. - ela cruzou os braços. - Imprimi essa cartilha com algumas informações que podem ser úteis para vocês. - era um compilado de dados sobre anorexia e bulimia.
- Desculpa, de verdade. Eu não quero ser desrespeitosa nem nada, mas você tem certeza que o que está dizendo está certo? - Tatiana se sentou mais uma vez e deixou um sorriso intrigante brincar em seus lábios:
- Já cuidei de muitos casos de anorexia e bulimia. Porém por mais que eu tenha experiência no assunto, cada ser humano tem um comportamento único. Tudo o que vocês estão vendo, pessoas que estão ao redor de anorexos já viram e é de se assustar mesmo, mas não é o fim. - ela olhou para a janela. - É um processo até ela aceitar que está doente e outro que vai levar dia após dia, após a conscientização dela.
Eles sentiram a atmosfera pesar muito para ser tragável aos pulmões. Como ela conseguia ficar tão calma e centrada em meio a uma situação daquelas? Ela estava acostumada? Como alguém podia se acostumar com aquilo?
- E o que nós fazemos? Durante esse tempo? - ele finalmente perguntou.
- Esperem. Sejam pacientes com ela, por mais que ela tenda a dizer coisas desnecessárias. - foi ele quem assentiu dessa vez. - Tentem manter em mente o fato de que ela não está cem por cento; o cérebro dela está funcionando num turbilhão e o corpo dela está cada vez mais fraco. Um não está acompanhando o outro.
- Quais são as piores coisas que podem acontecer? - Tonya se adiantou, atropelando tudo.
- Não vamos tratar do que pode acontecer. Pelo pouco que consegui investigar, Olivia não apresenta um quadro avançado, então não há danos definitivos. - ele balançou a cabeça se contentando com aquilo.
- Acho que já deu. - foi sua consideração. - Vamos, Tonya?
- Vamos. - e eles estavam já se dirigindo à porta.
- Norman, - mas ele foi interrompido pela voz da psicóloga. - Vou dar o meu melhor para que ela melhore. Não vou falhar com vocês. - o garoto só assentiu, sem conseguir dar muita credibilidade às palavras da mulher.
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EAT ME
De TodoComo é desenvolver uma doença que não pode ser vista fisicamente? Como é saber que está doente e ao mesmo tempo não ter ciência disso? Como é achar que isso está sendo algo bom quando está destruindo o seu corpo? E o seu psicológico? Como é estar t...
