Tatiana não havia entrado ainda e eu desejei desesperadamente que a enfermeira Joyce ou a doutora Bloom entrassem na sala, para eu dizer que não queria ver mais ninguém hoje.
Ninguém alem de Norman.
Eu comecei a me sentir extremamente cansada; de novo, eu não sabia se eram os remédios ou alguma outra coisa.
Mas nenhuma das duas entrou. Quem entrou foi a própria psicóloga.
Ela me deu um sorriso assim que entrou. E eu nem consegui retribuir. Eu havia a tratado tão mal. Dito coisas tão rudes. Pensado coisas tão rudes.
- Olá, Olivia.
- Oi, Tatiana.
- Como se sente?
- É difícil dizer. Cada hora as coisas mudam. Eu estava estável e agora sinto tristeza, remorso, raiva...
- Eu sei. - ela tocou minha mão com muita leveza. - No início é bem complicado organizar isso tudo.
- Mas não é o início, não é?
- É sim. Da sua aceitação. - ela disse, confiante e eu abaixei a cabeça de novo. - Tudo muda a partir de agora. As coisas vão melhorar se a sua atitude contribuir.
- É muito difícil? - ela assentiu:
- Eu mentiria se dissesse que não, mas você vai se adpatar. Depende muito de você e do seu esforço. Da sua força de vontade e quando digo isso, me refiro não a você se entupir de comida, mas a estar aberta - eu só assentia. - A pelo menos falar quando for preciso e não se fechar.
Eu peguei aquele conselho para mim, entendendo exatamente do que ela estava falando. Tatiana estava me dando uma orientação com um leve sermão embutido:
- Obrigada. - forcei o sorriso. - Tatiana, eu te devo duas coisas, um gigantesco obrigada por ter insistido e um desculpa maior ainda.
Ela negou com a cabeça:
- Não se preocupe com isso; eu entendo. E quanto menos você alimentar sentimentos pesados, melhor.
- Eu fui muito grosseira com você. - meu olho encheu de novo. Quando foi que eu me tornei aquela pessoa péssima? Eu olhava para trás e não conseguia reconhecer meus atos. Não fora aquilo o que mamãe e papai me ensinaram.
- Olivia, quando eu digo que entendo, não é simplesmente porque eu tenho relato de outras pessoas, - ela parecia avaliar o que dizia. - Na verdade, também por isso, mas é por experiência própria.
- Peraí, como assim? - eu entendera errado ou...
- Eu sofri de anorexia. E bulimia. - meu queixo caiu.
Ela?
A psicóloga?
Com distúrbios alimentares?
- As pessoas geralmente tem essa mesma reação. - ela sorriu. - É como se o fato de eu ser psicóloga me tornasse inalcançável para uma doença mental, mas não funciona assim. Eu nem sempre fui psicóloga. Eu já fui uma jovem assim como você.
- Meu Deus do céu! - eu estava realmente chocada. De novo, uma montanha russa de emoções. - Mas qual a diferença de uma e outra?
- Basicamente a anorexia está muito mais ligada à distorção da sua imagem e à restrição da alimentação. Você tem horror de estar sobre o peso ideal e acaba desenvolvendo várias maneiras de controlar isso, com exercícios excessivos, fracionando comida, com dietas abusivas. - abaixei a cabeça, porque ainda era muito sensível. - E a bulimia está relacionada á compulsão e expulsão de alimentos. Você passa um período de tempo gigantesco sem comer e depois tem compulsão alimentar. Ingere muita coisa de uma vez...
- Daí se sente culpada e vai vomitar tudo. - ela assentiu.
- Bulímicos utilizam laxantes e diuréticos também, para eliminar peso. - complementou.
- Isso aí, eu nunca fiz. - graças a Deus, eu não havia chego naquele estado. Aquilo era mais avançado, não era?
- Eu fiz tudo isso e mais um pouco. - ela abriu a carteira e tirou duas fotos. - Essa era eu antes de estar doente. - era uma foto dela em um campo florido, com um vestido branco soltinho e ela parecia feliz. Ela estava magra, porém me parecia muito bem. - E essa - ela trocou as fotos. - Era eu enquanto fazia tratamento.
Eu realmente me assustei com o que vi.
Aquela jovem linda e cheia de vida, parecia um fantasma. Isso, falando de forma suave.
Tatiana não só estava tão magra a ponto de aparecerem os seus ossos, mas parecia que a vida havia sido sugada dela. Haviam olheiras densas debaixo de seus olhos; tão grossas que pareciam ser sólidas e os próprios olhos estavam pesados; os cabelos estavam secos e a pele parecia ressecada.
Ela recolheu a foto dos meus dedos.
- Eu não aceitei que estava doente no estágio incial, então fui só piorando. - meus olhos estavam vidrados com o que eu acabara de ver. Aquilo não se parecia com uma pessoa. Era perturbador.
- E por que você anda com essa foto?
- Para me lembrar pelo que eu passei e para mostrar para os meus pacientes que é possível sim melhorar.
- Tatiana, - eu tive medo, mas eu precisava perguntar. - Eu estou... Assim?
- Não. Você está bem magra, mas não dessa forma. - eu assenti, tentando acalmar o compasso do meu coração. - A doutora Bloom vai receitar tratamento multidisciplinar para você.
- O que isso significa?
- Você vai ter acompanhamento com vários médicos; eu vou pedir pra ela que ela me inclua como sua psicóloga, se você se sentir confortável com isso?
- Claro. Com certeza. - balancei a cabeça para ilustrar. - Eu nem sei como agradecer.
- Você me paga uma pizza quando tudo isso passar. - eu sorri. - Tenho que ir agora, porque preciso voltar para a escola, mas - ela anotou alguma coisa num pedaço de papel e me entregou. - Esse é meu número. Pode me ligar a qualquer horário.
- Obrigada. De verdade. - eu disse segurando o papel.
- Por nada.
- Será que eu posso... Te dar um abraço? - pedi, tímida.
- Mas é claro! - ela me envolveu com braços carinhosos e foi um abraço folgado, mas cheio de sentimentos bons. - Até mais, Olivia.
- Até. - e ela se foi.
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EAT ME
RandomComo é desenvolver uma doença que não pode ser vista fisicamente? Como é saber que está doente e ao mesmo tempo não ter ciência disso? Como é achar que isso está sendo algo bom quando está destruindo o seu corpo? E o seu psicológico? Como é estar t...
