2 Semanas Depois
Já faziam dias desde o evento das flores e por esses dias, eu realmente fiquei apreensiva, me questionando sobre como eu iria responder para Norman se ele viesse comentar sobre.
Mas ele surpreendentemente não veio. Não que havíamos parado de nos falar; nós conversávamos normal; só havíamos aberto uma crateta gigante sobre aquele assunto.
Depois da última aula, nós iríamos até a casa de Tonya fazer um trabalho de filosofia.
Eu estava guardando as coisas no armário, quando alguém o fechou abruptamente e eu tomei um susto:
- Olá, princesinha. - era Clarisse e a coisa mais estranha naquilo nem era o fato de ela me abordar; era o fato de ela estar sem as suas acompanhantes de honra.
- Oi, Clarisse.
- Vamos conversar. - ela disse, sem me dar chances de recusa.
- Clarisse, olha eu não quero confu...
- Eu e Will terminamos. - ela disse direta. - Na verdade, eu terminei com ele. - claro, ela não podia ficar por baixo.
- Desculpa, mas o que eu tenho a ver com isso? - fui franca.
- Você não, mas o seu amiguinho tem. - ela disse, destilando veneno em seu sorriso rosa pink que me enojava.
- Olha Clarisse, Tonya...
- Deus que me livre, garota? Você é surda ou só idiota mesmo? Eu disse a-m-i-g-o. - ela literalmente soletrou.
- O Norman?
- U-hum.
- O que tem ele?
- Ele é bonitinho. - ela disse como quem avaliava um produto de mercado. - Acho que vou conversar com ele.
- O que você está tentando fazer? Se aproximar de todas as pessoas que me cercam? Estou começando a achar que sou muito primordial na sua vida, porque tudo relacionado a mim impacta em você.
Ela riu. Como uma cobra riria:
- Querida, eu só estou pagando na mesma moeda.
- Pagando o que, Clarisse?
- O que a bruxa daquela gorda fez. - e mais um sorriso impregnado. - Estou incomodando a quem ela mais se importa.
- Não entendi sua linha de raciocínio. - ela revirou os olhos, impaciente.
- O Will era importante para você. Mas já é passado; você não está mais nem aí para o coitado. - os olhos dela alternaram. - Porém, o Norman... - ela deixou no ar.
- Ao que você está se referindo.
- Você se importa com ele e sei lá como ele consegue ser amigo de uma coisa tão esquelética e sem graça como você, mas ele é. Então vou pega-lo pra mim.
Aquilo não me ofendeu em nenhum ponto. Acho que meu ego não era tão frágil quanto o dela e eu já estava acostumada com os insultos vindos de Calrisse desde o ensino fundamental. Eu também já me acostumara com os insultos dela serem sempre irônicos.
- Se você acha que tem chance com um cara tão impressionante como Norman, boa sorte. Vai lá e tenta, talvez seja bom para você saber como é ser tratada como uma pessoa que merece respeito de verdade. - os olhos dela trincaram. - Ah, mas não se surpreenda se ele ignorar a rainha do baile, porque não há absolutamente nada de interessante sobre ela.
- Escuta aqui, sua doente...
- Meninas, tudo bem por aqui? - eu já havia escutado aquela voz. Me virei e vi Tatiana se aproximando.
- Tudo. Inclusive a Clarisse já estava de saída, não é? Ela vai no shopping com as amigas dela.
Ela só me deu um último olhar de esgoela e saiu andanso sem dizer mais nada. Aquilo não tinha acabado ainda. Eu sabia.
- O que foi isso? - a psicóloga perguntou logo quando a outra menina partiu.
- Coisas de Clarisse. - tranquei meu armário e estava disposta a sair andando, mas fui impedida.
- É Olivia, não é? - ela estendeu a mão para mim.
- Sim. E o seu é Tatiana. - apertei sua mão, mas não sorri. - Como sabe meu nome?
- A coordenação pedagógica me passou uma lista com o nome dos alunos; alguns eu gravei. - ela sorriu, tentando ser agradável, mas eu sinceramnete não gostei daquilo.
Se ela sabia meu nome, significava que ela havia me gravado por algum motivo específico
O motivo com certeza era que eu tinha perdido minha mãe recentemente.
- Ah. - foi minha breve consideração.
- Aquela aluna te incomoda com muita frequência? - como se não bastasse aquela cema desconfortável, ela ainda começou a andar do meu lado.
- Ela incomoda todo mundo. - Tatiana assentiu.
- Eu ficaria muito contente se pudéssemos tomar um café algum dia desses. - ela sorriu de novo.
Ela sorria muito e os sorrisos dela não eram que nem os de Norman. Os dela tentavam ser amistosos, mas de nenhuma forma chegavam aos pés da sensibilidade dos sorrisos de Norman.
- Desculpa, mas eu estou bem. - resolvi brecar aquela situação de uma vez. Antes que ela achasse que tinha alguma liberdade. - Não preciso de uma avaliação clínica. - dito isso, o sorriso dela foi murchando e apesar disso, eu não me senti nenhum pouco mal. - Com licença. - achei que aquela fosse a minha deixa para finalmente conseguir sair dali.
- Então, ela ficou te interrogando? - Tonya perguntou, comendo um nacho com bastante queijo cheddar.
- Mais ou menos isso.
- Você já fizeram terapia? - Norman de repente saiu com a pergunta.
- Não, você já? - Tonya de propôs a responder.
- Já sim. - ele respondeu sem nenhum problema, enquanto digitava de forma concentrada no computador. - E você, Forbes?
- Não. Não gosto de psicólogos. - ele me deu uma olhada por cima do computador.
- E por que não? - Joshua rodava uma almofada no dedo.
- Só não gosto. Eles não ajudaram em nada meu pai quando a minha mãe morreu.
Joshua silenciou. Acho que aquilo era demais para ele debater. Ou talvez só não fosse um terreno que ele quisesse entrar:
- Existem bons e maus psicólogos. Assim como qualquer outro profissional. - Norman citou. - Acho que Tatiana é uma boa pessoa.
Me perguntei como tão repentinamente ele podia fazer uma suposição tão fundamentada. Apenas o encarei, sem querer de fato contesta-lo.
- Eu não acho legal ela encher a paciência dos alunos. Não quero ter que ser obrigada a ir fazer consultas com ela. - minha amiga comentou.
- Acho que eles não vão obrigar ninguém. É voluntário. - Norman mais uma vez assegurou.
- Mas por que do nada decidiram trazer um psicólogo? - Joshua se revirava no sofá.
- Talvez eles tenham notado que uma grande parte dos alunos sofre de problemas em casa, com os pais... - Normal sugeriu.
- E com Bullying. - e Tonya acrescentou.
- Ou às vezes, eles só querem fazer um trabalho preventivo também. - ele mais uma vez sugeriu.
- Pode ser. - eu disse a fim de encerrar o assunto e nós três voltamos a emergir no trabalho.
Mas a minha cabeça não parava ali, ela rodava, rodava e rodava e eu acabei voltando ao episódio com Clarisse mais cedo.
"Você se importa com ele ou sei lá...". Até ela havia notado, até ela havia tido clareza e eu ainda estava presa numa estaca de definição.
- Crianças, venham jantar. - Sam chamava da cozinha.
Todos se levantaram, menos eu:
- Forbes, vamos comer? - Norman parou na entrada da sala quando percebeu que eu não caminhava junto com eles.
- Eu estou sem fome. - dei um sorriso amistoso.
- Olivia, você está bem? Tá acontecendo alguma coisa? Já não é a primeira vez que você diz isso. - notei pelas finas linhas em sua testa que ele estava ficando alarmado mesmo.
Infelizmente eu não sabia dizer algo diferente. Durante os últimos meses, aquilo nunca havia sido um problema para mim; eu não tinha amigos e nunca haviam pessoas ao meu redor questionando se eu comia ou não. Porém, agora as coisas eram diferentes e eu tinha que fazer eles ficarem despreocupados antes que isso gerasse uma questão ainda maior:
- Tá tudo bem. Eu só não estou com tanta fome assim. Eu lanchei na escola antes de sair. - dei de ombros. - Mas acompanho vocês e como um pouquinho.
- Se estiver se sentindo mal, eu levo você em casa.
- Não, tudo bem. Vamos lá. - saí o guiando para a cozinha.
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EAT ME
AléatoireComo é desenvolver uma doença que não pode ser vista fisicamente? Como é saber que está doente e ao mesmo tempo não ter ciência disso? Como é achar que isso está sendo algo bom quando está destruindo o seu corpo? E o seu psicológico? Como é estar t...
