63 - Eu Não Sou Doente

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- Você realmente quer fazer isso? - Tonya me perguntou, revezando o olhar entre mim e Clarisse.
- Eu preciso.
- Tá, avisos: se ela for uma vaca, grita (então não vai demorar muito, porque ela sempre é uma vaca). E nós vamos para o lago no fim de semana que vem. - estranhei a última parte.
- Nós vamos?
- Sim. Seu pai deixou.
- E quando você falou com ele? Por que eu não estava sabendo de nada?
- Falei esses dias. Ah, você só precisava saber quando tudo estivesse pronto.
- Nossa, obrigada pela parte que me toca. - ironizei. - E Norman? Foi convidado? Porque eu não vou sem ele.
- Convide você.
- Ué, por que você não falou com a mãe dele também?
- Porque a mãe dele é muito tranquila. Ela parece ser daquelas que você nem pede autorização, sabe? - eu ri com a leitura que ela fazia das pessoas. - Ela parece meio surfista, você não acha? - eu ri mais.
- Você sabe que está falando da minha sogra, né? - ainda havia um sorriso nos meus lábios. - Vou contar para o Norman que você chama a mãe dele de surfista. - ela negou com a cabeça:
- Você é uma peste, Olivia.
- Eu que sou, né? - sorri. - Depois nos falamos. - eu disse, ao pereceber minha deixa perfeita, porque as capangas de Clarisse tinham saído de lá.
Tonya só saiu andando sem dizer mais nada e eu tomei a direção até a garota:
- Oi, Clarisse. - o primeiro gesto dela foi revirar os olhos. Controlei a vontade que senti de dar um tapa na cara dela por ser tão insuportável sendo que eu mal me dirigira à ela.
- O que você quer?
- Eu queria falar sobre o que aconteceu naquele dia. - ela ficou me olhando como se não entendesse o que eu queria dizer, mas eu sabia que ela compreendia, só estava tentando fugir da situação. - E não adianta fingir que nada aconteceu, porque aconteceu.
- Você acha que você pode vir jogando seus maravilhosos conselhos sobre a vida das pessoas? Eu não preciso de ajuda. Não estou doente igual você.
Tomei a defensiva no meio dos peitos e rebati:
- Você tem razão. Não está doente como eu. Eu tenho anorexia e você pode ter bulimia. - ela abriu a boca, mas não a deixei nem começar. - Sei que nao é algo fácil de admitir, mas se você tem um problema é melhor tratar dele logo.
Aos poucos, os olhos dela foram deslizando para baixo, até que eles susbiram novamente até mim, dessa vez mais calmos:
- Não quero falar aqui. - eu assenti, entendendo porque haviam muitas pessoas ao redor. - Podemos falar depois da aula, no banheiro?
- Claro. - ela assentiu e saiu andando.
Não estranhei nenhum pouco ela não ter dito obrigada. Era estilo de Clarisse não agradecer. Mas aquilo não me incomodava de fato.

- Eu acho melhor, eu ir junto. - Tonya questionou mais uma vez, quando comecei a guardar minhas coisas na mochila.
- Se você for, ela não vai falar. Vai só ficar se fingindo de metida. - contra ataquei.
- Ah, ela não precisa fingir para isso não. - ela pegou meu braço e o segurou levemente. - Ollie, estou com uma sensação de que ela vai te fazer algo.
Às vezes, eu achava Tonya um tanto paranoíca? Sim, às vezes, eu realmente achava. Mas eu sabia que esse era o jeito de ela cuidar das pessoas.
- Tá bom. Então, você fica do lado de fora da porta. - ela deu de ombros, sabendo que era o máximo que ia conseguir.
Nós caminhamos até o banheiro e eu entrei enquanto Tonya acenava para mim.
- Clarisse? - ela se virou para mim. - Podemos conversar?
- O que você quer falar exatamente? Sobre o fato de você achar que sou igual a você?
Ignorei a ignorância dela:
- Anorexia e bulimia são coisas bem diferentes. Mas o que difere as duas basicamente é quando você tenta colocar pra fora aquilo que ingeriu. - ela só me olhou com um olhar muito vago e eu sabia que ela não estava focando em mim.
- Eu não tenho nenhuma doença, Olivia. - ela disse com tom óbvio. - Eu só faço isso porque é legal.
Meu cérebro deu uma cambalhota e acabou ficando preso num nó:
- Você o quê?
- As meninas me disseram que era uma forma de perder peso rápido. Ingerir laxante e vomitar, dai quando eu sinto que engordei, eu vou lá e boto pra fora. Não acontece com frequência. Fazia meses que eu não fazia aquilo. É que eu comi uma pizza esses dias e exagerei...
Ela falava e eu não escutava mais. Era como se a boca dela só mexesse e eu não pudesse acompanhar.
Que tipo de brincadeira era aquela? Ela estava me zoando?
Eu estava sentindo uma irritação genuína.
Clarisse ainda estava falando quando eu fui até ela e deitei um tapa na sua cara com afinco.
Ela xingou algumas vezes, e me olhou com o rosto vermelho e os olhos esbugalhados:
- Qual o seu problema, sua esquelética?
- Você mesma disse que não está doente. Então eu posso bater em você porque, que merda é essa que você está fazendo? - me estressei. - Você acha que estar doente é algum tipo de brincadeira, sua retardada? Acha que isso é um tipo de dieta idiota igual as que você e o seu grupinho fazem?
- Acho.
- ISSO É SÉRIO, CLARISSE! É A DROGA DE UMA DOENÇA E VOCÊ ESTÁ BRINCANDO DE ESTAR DOENTE! PESSOAS MORREM POR CONTA DESSA DROGA!
- Primeiramente: eu não devo nada e nem pedi nada a você. Você, a salvadora da pátria, que veio se meter nos meus assuntos e segundo: vai se lascar, Olivia. Não vou parar de fazer algo que me faz bem porque você se vê uma balofa.
Ela ainda achava que aquele tipo de coisa tinha graça:
- Você está errada. - eu disse sentindo um misto de ódio e nojo. - Você é a mais doente entre nós duas. - saí andando e a deixei lá.

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