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Três anos haviam escoado como as marés cinzentas de La Push, levando consigo a urgência da mudança e solidificando a vida que Jacob e Trish construíram no audacioso vale do silício. Estavam de volta para uma visita, um último vislumbre das raízes, antes que Ephraim estivesse grande demais e se lembrasse de nada além de Stanford.

Era um dia raro de sol na costa do Pacífico. O ar, salgado e úmido, era um bálsamo para Jacob.

Na Praia de La Push, um lençol de piquenique xadrez estava estendido sobre a areia. Trish, com um sorriso sereno, estava recostada ao lado de Emily e Rachel, que havia preparado uma cesta de comida que cheirava a amor e a especiarias. As conversas eram de cochichos e risadas mansas, a cumplicidade feminina emoldurada pelo rugido do oceano.

A poucos metros, a Matilha estava reunida. Paul, Embry, Jared, Sam, Quil e Seth - tampouco os mesmos garotos de antes, agora homens feitos, mas ainda com o brilho selvagem nos olhos - perseguiam uma bola desbotada com Ephraim.

Ephraim era a encarnação da paz que Jacob havia buscado. Com três anos, era forte e rápido, com cabelo preto e a pele morena do pai. Ele corria com a matilha, sua risada aguda misturando-se aos gritos brincalhões dos tios-lobos.

Jacob assistia àquilo com um sorriso melancólico fixo no rosto, o coração apertado pela perfeição da cena. Ali, ele era apenas Jake, não mais o empresário de sucesso de 'Black's Auto Repair'.

- Ele tem o seu temperamento - disse Trish, aproximando-se de Jacob e o abraçando por trás.

- E os seus belos olhos - respondeu Jacob, beijando-lhe a testa. - Olha só para eles. É como se nunca tivéssemos saído daqui. Eles nunca vão deixá-lo esquecer quem ele é.

- Eles são a sua história - murmurou ela. - Mas a nossa vida é em Stanford. O Roger não vai conseguir segurar a oficina para sempre.

A melancolia da despedida já pairava. O sol começou a se inclinar, tingindo as nuvens de um dourado e rosa intensos, a beleza do noroeste transformando-se em uma promessa dolorosa de adeus.

O adeus foi lento e cheio de abraços.

- Três anos é tempo demais, Jacob - guinchou Paul. - Da próxima vez, volta logo, seu idiota.

- Ephraim está ficando rápido demais. Na próxima visita, ele vai nos atropelar - gargalhou Embry.

O último abraço foi com Billy, que estava radiante e frágil pelo tempo.

- Vá, filho. Eu sei que você está feliz. É tudo o que um pai pode pedir.

Jacob pegou Ephraim, que já estava sonolento, e o colocou na cadeirinha da picape. Trish acenou pela última vez para o grupo que se encolhia à medida que o carro se afastava.

Eles deixaram a reserva quando a luz do dia estava quase morta, o céu da costa já pesado com a promessa de chuva.

- Eu amo esse lugar - suspirou Trish, encostando a cabeça no ombro de Jacob enquanto ele dirigia. - Mas eu amo mais saber que temos um lugar para voltar, em Nova Jersey.

- Eu também amo - Jacob respondeu. - Mas... é a única vida que eu conheço que não tenho que lutar. Por você, por ele. Apenas viver.

A conversa diminuiu com a chegada da escuridão e da chuva. O único som constante era a respiração leve e regular de Ephraim no banco de trás.

De repente, a névoa densa de La Push transformou-se em uma chuva torrencial e implacável. As árvores da floresta temperada pareciam fantasmas ao lado da estrada sinuosa. O ruído da chuva no para-brisa era ensurdecedor, e os limpadores mal conseguiam acompanhar o volume da água.

Jacob diminuiu a velocidade, forçando a visão. Ele estava acostumado a terrenos traiçoeiros, mas o asfalto encharcado e a escuridão absoluta eram traiçoeiros. Era a estrada dos humanos, e não a floresta que ele dominava, que o traía.

- Jacob, devíamos parar - disse Trish, a voz tensa, olhando para o retrovisor onde apenas luzes borradas se seguiam.

- Só mais alguns quilômetros, amor. Até a cidade. Lá a estrada melhora.

Naquele instante, um clarão cega os olhos de Jacob: um reflexo súbito de luzes altas na curva à frente. Um caminhão madeireiro, pesado e rápido demais para a chuva, invadiu a pista. Jacob conseguiu distinguir, por um instante, a silhueta do caminhoneiro lutando inutilmente contra o volante.

O mundo se moveu em câmera lenta. Jacob viu o farol do caminhão engolindo-os, sentiu o corpo de Trish se encolher e ouviu o som do pneu estourando, o grito abafado dela e o silêncio repentino de Ephraim na parte de trás.

A picape derrapou. A força do impacto lateral jogou Jacob contra a porta. O carro capotou repetidamente, transformando o metal em sucata e o ar da cabine em terra, vidro estilhaçado e gritos.

Quando o mundo finalmente parou de girar, o silêncio foi absoluto, quebrado apenas pelo gotejar da chuva e pelo motor engasgado do caminhão parado a distância.

Jacob, o lobo indestrutível, abriu os olhos. Ele estava pendurado de cabeça para baixo pelo cinto de segurança, o corpo uma massa de dor latejante, mas estranhamente intacto. Sua visão estava turva com sangue escorrendo do corte na testa. Ele ignorou tudo.

Ele se libertou do cinto e rastejou para fora dos destroços.

- Trish! Ephraim!

A lanterna do celular dele estava esmagada. Na escuridão, ele procurou por ela. Seus olhos, afiados por anos de vida na floresta, eram sua única luz.

Ele encontrou Ephraim primeiro, na cadeirinha virada. O menino estava pálido e manchado de umidade, mas seu peito subia e descia em um choro rouco e aterrorizado. Ele estava vivo. Jacob sentiu uma onda de gratidão tão intensa que quase o derrubou. Ele tirou o filho do assento de segurança e o aninhou contra seu corpo, protegendo-o da chuva.

Seu foco mudou para a porta do passageiro, esmagada contra um tronco de árvore. Trish estava lá, imóvel. Jacob chamou o nome dela, mas não houve resposta. A respiração dela havia cessado. Os airbags deflacionados a tinham aprisionado em uma quietude mortal. Jacob tocou seu pulso, mas sentiu apenas o frio da chuva. A sua Green se fora.

O corpo de Jacob Black falhou. Não sentiu costelas quebradas, nem a adrenalina da emergência. Ele sentiu apenas o cheiro de gasolina e terra molhada e, mais intenso, a ausência absoluta de calor no pulso dela. Um buraco negro, frio e absoluto, engoliu toda a luz que ele havia construído.

Ele pegou Ephraim, que chorava convulsivamente, e o aninhou em uma rocha fora dos destroços, envolvendo-o com a jaqueta para protegê-lo.

Sob a chuva torrencial, no meio do nada, Jacob percebeu que seu futuro havia sido mutilado. Ele havia sido capaz de proteger seu filho, mas falhara em proteger a mulher que lhe deu um propósito. Ele estava preso: a vida que ela construiu, mas sem ela.

Jacob percebeu que sua história de paz havia chegado ao fim. Ele não havia sido capaz de protegê-los do mundo. Não havia conseguido protegê-los sequer da estrada para casa.

Jacob recuou, tremendo, seu corpo reagindo à tragédia de uma forma que sua humanidade não suportava. Ele se libertou da roupa rasgada. O som de seus ossos estalando foi abafado pela chuva.

Sob a escuridão opressora, onde a linha entre a humanidade e o animal desapareceu com a dor, o uivo de Jacob Black ecoou. Não era um uivo de aviso, de raiva ou de Matilha. Era um som cru, primal e inconfundível de uma perda total.

O uivo, a dor lancinante do Alfa destituído da sua companheira, rasgou o céu da noite chuvosa. Ele se espalhou pelas montanhas, pelo oceano e pela floresta. Em La Push, a matilha o ouviu. Um uivo desconsolado, que significava que o seu construtor havia sido quebrado, e o seu coração, de repente, estava vazio, mas com uma nova e terrível responsabilidade.

PERPÉTUA - JACOB BLACKHistórias para pegar e não largar. Descubra agora