Aspen, Colorado. O Devaneio do Mar Sem Fim.
O cheiro que atingiu Jacob Black não foi o pinho e a baunilha do casaco de Trish, mas uma mistura nítida de sal marinho, madeira de cedro queimada e o calor doce e familiar do café coado.
Ele abriu os olhos. O teto não era o gesso branco e sem graça de Princeton, mas um caixotado de madeira escura com vigas expostas. O som não era o distante, monótono e constante do trânsito da cidade, mas um ritmo pulsante e majestoso de ondas quebrando – lento, mas implacável, como a respiração do próprio oceano.
Ele estava deitado. Mas não em sua cama de solteiro espartana. Ele estava em um linho fresco, sob um edredom pesado, e havia um peso quente e levemente pontudo pressionando suas costelas.
Era uma cabeça. O cabelo de Trish, cor de azeviche líquido, estava espalhado pelo seu peito. Ela estava dormindo profundamente, o calor suave do seu corpo uma âncora reconfortante. Ele podia sentir o cheiro levemente químico do seu shampoo de flor de laranjeira, um cheiro que ele tinha tentado, em vão, replicar nas gavetas de seu filho.
Jacob moveu o braço, com medo de quebrar o momento. Ele olhou em volta.
Era o quarto principal da casa de praia que o pai de Trish mantinha em Aspen, no Colorado. Uma casa que ela sempre sonhou em visitar. O paradoxo o atingiu primeiro: Aspen não era no litoral, mas nas montanhas. Mas, naquele sonho, a realidade era fluida. A parede inteira voltada para o leste era uma porta de vidro deslizante, aberta, e além dela, em vez de picos nevados, havia uma praia de areia prateada e cinza. O Pacífico, porém, não o melancólico de Forks, mas um oceano vasto e azul-esverdeado, iluminado por um sol alto e implacável.
— Isso não é real. É o luto. É o desejo...
Mas era tão real que doía respirar. A brisa que entrava carregava o cheiro de sal e íris selvagens.
Ele olhou para a esposa, o coração apertado com uma alegria há muito esquecida, uma alegria tão intensa que parecia a borda da dor. Trish suspirou no sono e virou o rosto para o pescoço dele.
"Você está acordado, lobo sonolento?" — A voz dela era rouca e perfeita.
"Sim," — ele sussurrou, a voz dele igualmente rouca, pela emoção. — "Onde estamos, Trish? Aspen?"
Ela riu, uma melodia leve e cristalina que Jacob não ouvia há anos.
— Onde mais? Papai finalmente parou de se fazer de difícil e nos emprestou a casa de praia. Ele se esqueceu de mencionar que aqui o oceano e as montanhas coexistem. Você não achou... refrescante?
Ela se ergueu, apoiando-se no cotovelo. A luz do sol entrava pela janela, iluminando os olhos dela. Olhos verdes, a cor de musgo profundo em um dia chuvoso – os olhos que agora olhavam para ele com um brilho de calor e humor. Jacob estendeu a mão e traçou o contorno da mandíbula dela, sentindo a pele macia e a saúde vibrante dela sob seus dedos.
"Eu não sei o que é,"— ele admitiu, a voz grave. — "Mas é... tudo."
"É férias," — ela corrigiu, beijando a palma da mão dele. — "Sem graxa, sem clientes malucos, sem chamados de Roger perguntando onde você escondeu o óleo de motor. Apenas você, eu e o nosso pequeno."
O pequeno.
O pânico o atingiu. Onde estava Ephraim? Ele estava seguro?
Como se lesse sua mente, Trish apontou para a varanda de cedro que dava para a praia.
"Seu filho está tentando domar o oceano com um balde e uma pá," — ela disse, sorrindo com um amor que Jacob sentia em todos os ossos. — "Ele disse que o mar precisa conhecer o seu lugar."
Jacob olhou para a varanda. Sentado na areia prateada, a uma distância segura da água, estava Ephraim Black. Ele estava vestido com calções azuis e uma camisa listrada, o cabelo escuro despenteado pelo vento. Ele não era a criança de cinco anos e meio que Jacob conhecia; ele parecia mais novo, talvez três ou quatro anos, mas os ombros eram largos e determinados como os de um lobo. Ele estava absorvido na sua tarefa de engenharia costeira, murmurando para a maré.
A visão do seu filho, feliz e em paz, com a mãe viva e vibrante ao seu lado, o desfez. O tributo não era mais necessário. A penitência era um mito.
"Jacob?" — Trish estava olhando para ele com preocupação. — "O que há de errado? Você está... pálido."
Ele balançou a cabeça, incapaz de formular uma mentira ou a verdade. Ele se inclinou e a beijou. Não um beijo apressado, mas um beijo que era uma súplica, uma oração e uma despedida. Ele a beijou com a fome de dois anos de luto e a gratidão de um homem que ganhou mais um momento com o seu amor perdido.
"Eu te amo, Trish," — ele sussurrou contra a boca dela. — "Eu amo a vida que você construiu. Eu... eu vou cuidar dela."
Ela se afastou, os olhos verdes brilhando, sem entender o peso da sua declaração, mas aceitando o amor.
"Eu também te amo, lobo idiota. Agora venha. O café está pronto, e eu prometi ao nosso futuro construtor que o seu pai o ajudaria a cavar o túnel mais profundo do mundo até a China. É um dia de folga do seu trabalho de empresário sério. Eu preciso do meu marido na areia."
Ele se sentou na beira da cama, olhando para a cena à sua frente:
O café quente na xícara.
O som real do oceano.
A promessa de um dia inteiro sem a gravidade de sua vida real.
Seu filho, seguro.
Trish, viva.
Ele sentiu o cheiro da floresta e da eletricidade que era o seu lado lobo, completamente em paz com o cheiro de flor de laranjeira e sal que era o seu lado humano. Ele era inteiro. Não havia traição ali, apenas felicidade.
Este era o homem que ela amava. Não o fantasma funcional, mas o lobo que sorria com os olhos.
"Você tem razão," — Jacob disse, não para Trish, mas para a memória que estava lentamente recuando. — "Eu tenho que sair da sepultura."
Ele se levantou da cama e caminhou até a porta de vidro, dando um passo para fora, para a areia prateada e o sol brilhante de Aspen. Ele ouviu o riso de Trish atrás dele, o grito de alegria de Ephraim. Ele sentiu o sol em sua pele e o vento em seu cabelo.
Era o fim da penitência.
Ele era um homem.
E ele era um pai.
E ele estava livre.
Então, a brisa fria de Stanford o atingiu. O cheiro de sal e flor de laranjeira se dissipou, substituído pelo cheiro de poeira e óleo de motor da Black's Auto Repair em suas roupas. O som do oceano se transformou no distante, monótono e constante ruído do trânsito.
Jacob Black estava sentado no chão frio da sala de estar, abraçando o casaco de Trish. As lágrimas que vieram eram de alívio e aceitação, e não apenas de dor. A visão do sonho era uma bússola, não uma tortura.
A sua dívida é com o Ephraim. E com o homem que ela amava.
Ele olhou para o casaco, o cheiro fraco dela ainda ali, mas agora parecendo mais uma bênção do que uma corrente.
Ele não precisava estar em Stanford para sustentar o sonho. Ele precisava estar inteiro.
A decisão correta não era trair o sacrifício, mas resgatar a si mesmo para o filho.
Com o peso da verdade finalmente aceito, ele fechou os olhos novamente, não em luto, mas em resolução. Ele faria as malas, venderia a casa de tijolos e faria a viagem mais longa de sua vida. Ele voltaria para a névoa, para o barulho da Matilha, para o cheiro de pinho e sal.
Ele voltaria para casa. Não para a sepultura, mas para o resgate.
A sua história de amor, sacrifício e perda, ele percebeu, não tinha um final. Ela era, sim, Perpétua. Mas agora, Perpétua não significava um fardo eterno, mas uma ancoragem eterna ao amor que o libertava.
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PERPÉTUA - JACOB BLACK
WerewolfA ânsia pela concretização se arrasta tanto que a esperança se transforma em agonizante incredulidade. Se a máxima é que o tempo é um bálsamo e um revelador implacável, por que, em meu caso, ele falhou duplamente? Ele nem curou a ferida, nem mostrou...
