Aspen, Colorado. O Devaneio do Mar Sem Fim II.
Jacob caminhou até a areia prateada, o sol estranhamente quente e suave em sua pele. Não era o sol de Stanford, que parecia indiferente; era o sol de Forks, familiar e amoroso, porém brilhando sem a névoa. O paradoxo de montanhas e mar de Aspen tornava cada momento uma miragem perfeita.
Ephraim, com seus cabelos escuros e ombros determinados, virou-se, os olhos brilhando com a urgência do seu projeto de engenharia.
— Papai! Mamãe disse que você é bom em túneis profundos. O oceano está rindo do meu buraco. Ele precisa conhecer o lugar dele!
Jacob ajoelhou-se na areia fria e macia. Ele sentiu o vento salgado no rosto, a areia entre os dedos – a familiaridade da praia, mas sem o peso do luto que a acompanhava em Forks.
— O oceano é arrogante, campeão. — Jacob sorriu, e o sorriso desta vez não era uma memória fugaz; ele era o sorriso de um homem inteiro. — Ele acha que é invencível. Mas nós somos Black. E a gente não recua para o mar.
Trish veio por trás, sentando-se com as pernas cruzadas ao lado de Jacob. Ela estava vestida com um vestido leve, com estampa de íris, combinando com o cheiro selvagem que a brisa trazia. Ela colocou a mão dele na nuca e massageou a tensão que ele nem sabia que tinha.
— Eu disse a ele que você tinha um PhD honorário em engenharia de areia de La Push. — Ela murmurou em seu ouvido. — É bom ver você se sujar de novo, Jacob. Sem graxa, só areia e sal.
O simples toque era uma torrente de informações que seu corpo real havia esquecido: o peso perfeito da mão dela, o ritmo da respiração dela perto dele, a sensação de que, não importa o quão caótico fosse o mundo, ela era o seu centro de gravidade.
Jacob pegou a pá e começou a cavar com Ephraim. O trabalho era ridículo e glorioso. Ephraim ria com a garganta, aquele som de alegria infantil que Jacob havia capturado apenas em vídeos em sua vida real, mas que agora era real e contagiante.
Trish os observava, com um livro nas mãos, mas raramente lendo. Ela se contentava em absorver a cena: o lobo gigante e o lobinho, determinados a derrotar a maré.
Em um momento, Ephraim se distraiu com uma concha. Jacob parou de cavar, sentindo o calor do sol em seu pescoço. Ele olhou para Trish, que já estava olhando para ele.
— O que foi, querido? — ela perguntou, a voz de repente baixa e séria, cortando a leveza do sonho.
— Eu não sei se eu mereço isso. — A frase escapou, uma confissão de culpa subconsciente. — Toda essa... paz.
Trish fechou o livro, seus olhos verdes fixos nos dele, com uma intensidade que o perfurava.
— Jacob Black. Você é o homem mais leal e bom que eu já conheci. Você não precisou ser convencido do seu valor. — Ela engatinhou na areia até ele, seus joelhos afundando. — Você construiu a Black's Auto Repair como um império. Você lutou contra os Cullen, você lutou pela matilha, você lutou por mim. E você me deu um filho. Você não deve nada a ninguém, especialmente a si mesmo.
Ela tocou a cicatriz em seu ombro, uma que ele havia ignorado por anos, uma memória de uma briga antiga que parecia infinitamente distante.
— Não troque o amor pela penitência, Jacob. A vida é preciosa demais. Você é precioso demais.
O peso daquelas palavras – "Não troque o amor pela penitência" – atingiu Jacob com a força de uma onda real. Era o eco exato do que Bruce tentara lhe dizer, mas vindo da única fonte que podia silenciar sua culpa.
Eles se beijaram novamente, e neste beijo havia a promessa de um futuro que nunca viria, mas que era real naquele momento. O beijo durou até Ephraim gritar:
— Papai! O oceano está atacando!
O beijo quebrou. Jacob e Trish riram, e juntos, saltaram para proteger a "fortaleza" de areia de Ephraim de uma maré mais alta.
Passaram o resto da manhã na areia, a família perfeita, o lobo e seu coração, e o fruto do seu amor, todos juntos sob o sol impossível.
Jacob sentia cada detalhe: a risada dela, a determinação do filho, o cheiro de sal. Ele estava em casa. Ele estava inteiro. A armadura de empresário de sucesso havia caído, e ele era apenas um homem sujo de areia, amado.
Enquanto o sol subia, e Ephraim se cansava, deitando a cabeça no colo de Trish, o sonho começou a ceder.
Jacob fechou os olhos por um momento, sentindo a plenitude do momento. O sol, o mar, o cheiro dela.
Foi quando ele ouviu um som estranho, um som que não pertencia à praia de Aspen, mas era um som onipresente em sua vida real: um leve, clack, clack, clack monótono.
Era o som de Ephraim na vida real, na sala de estar de Stanford, batendo o brinquedo chocalhante no chão.
O clack de Stanford.
O som do oceano em Aspen começou a ficar mais distante. O sol ficou menos quente. A areia, sob os dedos de Jacob, começou a parecer dura e áspera.
Trish olhou para ele, seus olhos verdes cheios de uma tristeza que Jacob não tinha visto até então, uma tristeza que ela sabia que viria.
— Você tem que ir agora, meu amor. — Ela sussurrou, e sua voz parecia vir de uma distância imensurável, como um sussurro da costa oeste. — Você tem que ir e ser aquele homem que riu com os olhos. É a única forma de me manter aqui. É a única forma de fazer o nosso amor... Perpétuo.
Ela lhe deu um último, desesperado e amoroso beijo na testa.
— Cuide da nossa vida. Cuide do nosso filho.
Jacob tentou agarrá-la, tentou dizer que não queria ir, que ele a resgataria dali. Mas suas mãos escorregaram, e a luz do sol de Aspen se tornou um borrão branco, a areia prateada se desfazendo em um pó frio e estéril.
O clack, clack, clack ficou mais alto, mais real.
Jacob inspirou. O cheiro não era sal marinho e flor de laranjeira, mas pó e óleo de motor. A sensação não era a areia fria, mas o chão de madeira dura e espartana.
Ele estava de volta.
Ele abriu os olhos no chão frio da sala de estar de Stanford, abraçando o casaco de Trish.
O clack, clack, clack do brinquedo de Ephraim era a sua chamada. A âncora real.
Ele se levantou, finalmente. O sonho havia terminado, mas ele havia trazido de volta a sensação da felicidade. O tributo havia terminado. O resgate começava agora.
A Maré da Felicidade havia recuado, deixando para trás a decisão correta.
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PERPÉTUA - JACOB BLACK
Manusia SerigalaA ânsia pela concretização se arrasta tanto que a esperança se transforma em agonizante incredulidade. Se a máxima é que o tempo é um bálsamo e um revelador implacável, por que, em meu caso, ele falhou duplamente? Ele nem curou a ferida, nem mostrou...
