Forks, Washington. Antes do Perpétuo.
O quarto estava mergulhado na penumbra, aquecido apenas pela luz de leitura fraca e pelo calor denso de Jacob Black. Ela o observava. Não havia pressa em seu olhar, apenas a aceitação serena que a distinguia. Seus olhos, cor de musgo profundo em um dia chuvoso, viam o mapa completo de seu marido.
Ele dormia, pesado, esmagadoramente presente. Seu braço estava jogado sobre ela, o peso familiar e protetor. Sentia o cheiro dele, a mistura de pinho, óleo de motor persistente e a eletricidade sutil da sua natureza Quileute. Ele era o seu lar, a sua própria Reserva Pessoal, um pedaço da floresta que ela carregava para onde fosse.
— Eles me perguntam como é amar o Alpha. Eu rio. Eu amo o homem que conserta o meu fogão e me faz torradas queimadas às duas da manhã. O lobo... o lobo é apenas o preço pela paixão. E que preço.
Trish moveu a mão, traçando o contorno da mandíbula dele, sentindo a aspereza da barba por fazer. Ela havia aprendido a ler os estágios da sua transformação, não pelo seu corpo, mas pelo seu humor. A impaciência, o calor crescente sob a pele, a necessidade urgente de movimento. Quando isso acontecia, ela não o confrontava; ela apenas lhe dava a ferramenta certa.
Lembrou-se de um dia em que ele quase perdeu o controle, frustrado com um problema no motor de um caminhão. O calor em Forks era insuportável e a energia sísmica da matilha estava alta. Jacob estava vermelho, os músculos tremendo, pronto para explodir em pele e pelo. Ela não gritou. Ela apenas se aproximou dele, no meio do cheiro de graxa e metal, e pousou a mão fria em seu peito nu.
— Respire, Jacob. — Ela disse, com sua voz calma e inabalável. — Olhe para mim. O fogo não te controla. Você é o Alpha. O fogo obedece ao seu comando. Deixe-o consertar o motor, e não a destruir a loja.
Ele havia se curvado, as mãos tremendo, e respirado fundo no cheiro de flor de laranjeira do shampoo dela. A calma dela era o seu isolante.
Era por isso que a Black's Auto Repair era tão importante. Não era uma loja de carros para ela. Era a válvula de escape dele. O seu propósito tangível.
— Você não podia ser apenas um guerreiro para sempre, meu amor. — Ela sussurrou, a mão repousando sobre a cicatriz do ombro dele. — A guerra acabaria, e o fogo precisava de uma forja. Eu te dei a Black's Auto Repair para que você pudesse construir algo de zero, algo que fosse só seu, sem a hierarquia de Sam ou os conselhos de Billy.
Era o legado para Ephraim. Ela não queria que o filho deles crescesse apenas na sombra da matilha, mas na sombra de um pai que era tanto um lobo protetor quanto um empresário de sucesso. Segurança financeira, estabilidade emocional, a chance de escolher seu futuro longe do chamado imediato da floresta.
Eles escolheram Stanford, e o dinheiro do pai dela, por causa da estabilidade funcional que a vida suburbana oferecia. Um lugar onde ele seria forçado a ser o homem por mais tempo do que o lobo.
Ela pensou no Jacob que a vida real dele se tornaria (o luto, o exílio). E ela soube que a loja se tornaria uma armadilha, uma prisão de dever. Ele a transformaria em um túmulo, em vez de um farol.
— A loja era para te libertar, Jacob, não para te prender. — Ela pensava nisso, permitindo que a tristeza penetrasse levemente. — Se eu não estiver aqui, você transformará a honra em punição. E a nossa história de amor não pode ser apenas uma dívida eterna.
Ela fechou os olhos, absorvendo o calor dele. O seu maior desejo para ele, se ela tivesse que ir, não era que ele mantivesse a loja ou a casa em Stanford. Era que ele lembrasse do homem que ele era com ela. O homem que ria, que cavava buracos na areia com o filho, que sabia que o fogo o obedecia.
O luto era inevitável. Mas o desligamento funcional de que Bruce e Billy falavam seria a verdadeira tragédia.
Trish se moveu, aninhando-se na curva do pescoço dele. Ela inalou fundo o cheiro dele, tentando gravar cada detalhe: a textura do seu cabelo, o ritmo do seu coração, o calor que emanava dele mesmo adormecido.
— Meu amor, se você estiver me ouvindo, em algum lugar... Eu te dou a permissão. Você não me traiu. Você me honra ao ir para onde você pertence. Você honra o nosso amor ao ser inteiro.
O seu amor não era uma âncora que o impedia de flutuar; era uma bússola que o apontava para o seu verdadeiro norte.
Ela se sentiu invencível ali, em seus braços. Porque ela sabia o que ela era: a âncora de musgo, suave, mas profunda, que mantinha o lobo aninhado e o homem livre.
Ela sorriu, o sono finalmente a alcançando, o cheiro de pinho e a eletricidade sendo a última coisa que ela sentia. A sua vida com ele era um presente. E esse presente, essa lembrança, não deveria ser um fardo.
O seu amor era. E seria... Perpétuo.
VOCÊ ESTÁ LENDO
PERPÉTUA - JACOB BLACK
Hombres LoboA ânsia pela concretização se arrasta tanto que a esperança se transforma em agonizante incredulidade. Se a máxima é que o tempo é um bálsamo e um revelador implacável, por que, em meu caso, ele falhou duplamente? Ele nem curou a ferida, nem mostrou...
