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O uivo de Jacob atingiu a reserva com uma clareza terrível. Carregava a dor da perda e, de forma mais sutil, a urgência de uma responsabilidade recém-adquirida. Os corações dos lobos - Paul, Jared, Sam, Embry, Quil e Seth - congelaram. O elo de Jacob havia se rompido em uma das pontas, mas o fio que o prendia à vida, seu filho, ainda estava tenso.

A Matilha se transformou sob a chuva, correndo em direção ao local.

Chegaram para encontrar o cenário do desastre e Jacob, de volta à forma humana, enrolado em um cobertor, a pele arranhada e um corte profundo na testa, sequer notado. Ele não olhava para a destruição, mas para o rosto pálido e adormecido de Ephraim em seus braços. Sua Green estava imóvel no metal retorcido, mas o futuro deles estava respirando.

O que se seguiu foi uma dor fria e organizada. A matilha cercou a cena. Não podiam consertar o que havia acontecido a Trish, mas podiam garantir a segurança de Jacob e Ephraim. O silêncio de Jacob era mais ensurdecedor do que seu uivo. Seus olhos, fixos nas luzes azuis e vermelhas que refletiam, não eram mais de um guerreiro em luto, mas de um pai em ruínas.

Não era possível que aquilo estivesse acontecendo. Que fosse um sonho. Apenas um sonho ruim.

A quietude de Jacob funcionou como a ordem mais assustadora. Paul e Sam, os mais rápidos, voltaram à forma humana.

Sam correu até Jacob, ajoelhando-se. - Jacob. Jacob, eu sinto muito. Vamos tirá-los daqui.

Os olhos de Paul prenderam-se à imagem de sua melhor amiga presa, esmagada entre os destroços, o fazendo cair de joelhos com o rosto entre as mãos. Embry e Seth, com os corações despedaçados, coordenaram a lenta retirada do corpo de Trish e o resgate da picape, agindo com uma eficiência militar que escondia seu próprio horror.

O pior momento coube a Sam Uley, a dor do líder queimando em sua mente. Ele viu o estado de Jacob, a quietude de Trish e o choro contido de Ephraim. A dor compartilhada da matilha estava insuportável, mas para Sam, havia algo mais frio: a falha do Imprinting, que devia ser uma garantia de felicidade, mas não de sobrevivência.

Foi Sam quem teve que cumprir o dever mais sombrio: contar a Billy. Jacob, sem dizer uma palavra, apenas entregou Ephraim, que estava finalmente exausto e quieto, para Emily. Emily, com o rosto banhado em lágrimas silenciosas, aninhou o menino, sentindo a perda da sobrinha que tinham como uma filha.

Sam encontrou Billy na sala, esperando. Apenas um olhar para o rosto de Sam e para a figura vazia de Jacob foi suficiente.

- Quem? - a voz de Billy era baixa, mas firme.

Lutando para falar e sentindo-se um incapaz, Sam baixou a cabeça.

- Trish - respondeu. - Foi um acidente, Billy. A picape. Ela... ela se foi. - as palavras soaram como brasa em seu peito. - Ephraim está bem.

Billy fechou os olhos. Não gritou. Apenas apertou as mãos na cadeira de rodas, sua dor profunda e silenciosa.

- Meu filho encontrou a felicidade e a perdeu no mesmo lugar - ele murmurou, a voz rouca. - Vá, Sam. Cuide dele. Diga a Leah para... para manter o céu em seu lugar. E ligue para o pai e o irmão dela.

A notícia de Trish precisava ser comunicada ao pai e ao seu irmão, ambos em Stanford. Jacob se recusou a falar. Sam pegou o telefone dele e ligou para Bruce.

Bruce atendeu o telefone, alegre.

- Jacob! Algum problema com o elevador? Achei que você já tinha voltado para a estrada.

A voz de Sam era formal e pesada, sem emoção pessoal, apenas a do mensageiro:

- Bruce, aqui é Sam. Eu sinto muito.

- Pelo o que sente, Sam?

- Houve um acidente na estrada, perto de Forks. A Trish... Trish não resistiu. Jacob e Ephraim estão aqui e estão seguros.

O silêncio no telefone era mais ensurdecedor do que o uivo da noite anterior. Sam podia ouvir a respiração rasa e quebrada de Bruce.

- Não... não é possível. Eles estavam vindo para cá... Eu reformei a oficina para eles... ela... ela me disse que estava feliz. - a dor do pai se transformou em raiva vazia. - Onde estava Jacob? Ele deveria ter cuidado dela!

- Ele a salvou, Bruce. Ele salvou o filho. Ele está ferido, mas está vivo. Nós a enterraremos aqui, se você concordar. Perto dele.

A dor não era apenas a de Jacob, mas de todos os que foram tocados pela luz de Trish. O pai e o irmão, distantes em Stanford, sofriam a perda da mulher que ousou ser feliz e levar seu lobo para casa. Eles aceitaram o enterro em Forks, mas a ausência deles no funeral pesou sobre Jacob: a dor dos parentes de Trish não podia se misturar com a dor da matilha.

O enterro foi pequeno e sombrio. Apenas a tribo Quileute estava presente: Jacob, a matilha, Billy, Sue Clearwater, Rachel, Rebeca e Emily. Trish foi sepultada no pequeno cemitério de Forks, com vista para a floresta que Jacob amava e que ela havia aprendido a tolerar.

Jacob se manteve em silêncio durante todo o serviço. Não chorou. Apenas segurava Ephraim, que olhava para a terra recém-cavada com a curiosidade vazia de uma criança que não entende a quietude de uma mãe.

Ao final, Jacob caminhou até o caixão, tocou a madeira e sussurrou a primeira e última palavra que ele diria naquele dia: "Consegui, Green. Eu consegui."

Ele havia cumprido seu voto, construído a vida que ela sonhara, e agora só restava o silêncio da estrada que ela não completou. A partir daquele dia, Jacob carregaria não apenas o luto, mas a eterna obrigação de viver por dois, para honrar a única pessoa que o viu como mais do que um guerreiro.

Jacob enterrou Trish ao lado da floresta, perto do penhasco.

Dias mais tarde, ele vendeu a Black's Auto Repair para Roger. O cheiro de óleo novo e a rotina de Princeton eram fantasmas de uma vida que ele não podia mais suportar sem a sua construtora ao lado.

Ele voltou para a reserva, não como o lobo em reclusão total, mas como um pai. Um pai quebrado.

Mudou-se para a casa que ele havia deixado, agora com o cheiro fraco da tinta que Trish havia escolhido para a sala, transformando o local de suas raízes em seu campo de batalha mais difícil: criar um filho que carregava os olhos da mulher que ele perdeu. Não podia mais se permitir o luxo de ser a "Sentinela Melancólica" nas falésias; ele precisava trocar fraldas, preparar mamadeiras e garantir que Ephraim risse, como Trish havia desejado.

O elemento que a matilha acrescentou foi o apoio incondicional. Eles formaram um círculo de proteção: Seth e Embry se revezavam nas madrugadas para cuidar de Ephraim, permitindo que Jacob dormisse, ou ao menos descansasse. Quil o levava para pescar, conversando sobre o silêncio do mar em vez da dor da perda. Paul, o mais incontrolável, passava horas brincando com Ephraim, tirando risadas do menino que Jacob não conseguia mais evocar.

Ephraim se tornou o sol da matilha. Era a prova viva do que Jacob havia conquistado e perdido, e sua presença forçava todos a seguir em frente. Ele era criado por uma alcateia inteira, ensinado a respeitar a floresta, a amar o mar e a nunca esquecer a mãe corajosa com olhos de verde-praia que ele mal se lembrava.

No entanto, Jacob permaneceu intocável em seu sofrimento. Ele era um homem funcional, um pai presente, mas a alegria havia sido drenada dele.

O Lobo de Jacob era visto em raras ocasiões, geralmente sob a lua cheia, correndo sozinho na escuridão. Os outros lobos o seguiam de longe, respeitando seu espaço. Eles sabiam que aquele lobo não estava mais procurando uma vida, mas apenas cumprindo um voto.

A história de Jacob Black terminou em um ato de sacrifício silencioso. Ele era forçado a viver a vida grande que Trish havia planejado, mas a cada conquista de Ephraim - o primeiro dia de escola - ele sentia a dor de não poder compartilhá-la.

O uivo naquela noite chuvosa foi o último som de Jacob, o lobo apaixonado. O silêncio que se seguiu, sob a constante névoa e a garoa de La Push, era a única música de Jacob, o guardião eterno, forçado a viver por dois na frieza de um futuro brilhante que jamais seria completo.

FIM..

PERPÉTUA - JACOB BLACKHistórias para pegar e não largar. Descubra agora