Capítulo 9 parte ll

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    Algumas horas mais tarde, Dërhon se põe a meditar em silêncio enquanto aguarda ao lado dela na penumbra e ambos assistem o macho que ela socorreu sendo removido pelo corpo de bombeiros na estrada, e claro!

    O que ela lhe disse ainda está doendo. Mas ele deu mole não é não? Fez por merecer a rejeição. Estava muito mal acostumado em pensar livremente perto de humanos, e até dos seus iguais, e agora ela sabia o que pensava a respeito de ser ele o seu escolhido. Certo.

    Certo porra nenhuma! Enfezou-se. Foi um pensamento infeliz! Alguns pensamentos infelizes, vá lá!... Mas pelo que viu e sentiu, ele a magoou bastante ao julgar que seria motivo de piada entre seus iguais se ela o escolhesse. Entre outras coisas que pensou livremente depois, mas não vinha ao caso agora. Coisas que, se parasse pra pensar, nem deveriam ser levadas em conta. Talvez fosse visto como bacana da sua parte alertá-la de que iria passar por isso mais vezes do que pudesse imaginar por conta dos dons que recebeu na transmutação e, merda...

    Ela escolheu se voltar para ele nesse exato momento e encará-lo com seus olhos sérios e penetrantes.

— Eu posso, e seja como for eu 'vou' desligar essa conexão que me faz ver e ouvir tudo que vocês veem e pensam, não se preocupe.

    Dërhon tremeu por dentro mediante a ameaça velada, já não duvidava que ela fosse capaz de fazer o que quisesse e decidiu-se a não contestar. Mesmo tendo dito que não o escolheria e exatamente nessas palavras. Ele abriu mão de qualquer traço de orgulho masculino e ofereceu seu sangue para que cessassem as dores que ela certamente estava sentindo, mais uma vez. E mais uma vez foi rejeitado.

    É isso aí pateta! Segura essa! Agora carregue Murphy nos ombros. Afinal o cara é 'ô cara' e ele sempre tem razão, não? Podia apostar nas estatísticas da vida que muitos verões ainda se passariam naquelas terras, antes que viesse a ser perdoado pela meia dúzia ou menos de palavras pensadas em momento de autêntico desespero!

    Ela cruza os braços sobre o peito, se vira toda de frente para ele dessa vez e o encara com as sobrancelhas arqueadas em desafio e ele levanta os braços.

    Escutou tudo, certo? Arriscou ele em pensamento e ela bufou.

— Ok está bem, foi bem mais que meia dúzia de palavras, mas porra, K! Você pode até ser surpreendente em uma porrada de coisas. Em pouco mais de uma hora demonstrou talentos que a maioria de nós demoraria anos pra dominar, mas eu ainda tenho alguns milênios de experiência a mais que você e, 'coisas que se pensam' não devem ter o mesmo peso ou consideração do que as que são ditas, tá? Vai por mim. Se tudo que vier a escutar nos pensamentos dos outros tiver o poder de te magoar dessa maneira, você vai pirar no primeiro ano!

    Ela assentiu com um sorriso triste e aproximou-se dele a um passo congelando-o no lugar com sua atitude inesperada, levantou a mão, que apesar de maior que antes ainda era demasiada delicada, e com gentileza acariciou o rosto afastando seu cabelo rebelde da sua fronte.

    Dërhon deitou o rosto na mão estendida e chegou a fechar os olhos com a carícia recebida. Ela o beijou no rosto desconcertando-o e quando ele abriu os olhos ela já prosseguia alguns metros à sua frente em direção à floresta escura que cercava a estrada dos dois lados.

    Dërhon tocou no local onde foi beijado e o calor dela ainda permanecia ali. Ele sorriu balançando a cabeça sem entender o que tinha feito para merecer o carinho e a seguiu. Com a breve e inapropriada consciência de que se tivesse rabo, estaria sacodindo e espanando o chão sem nenhuma vergonha agora, e o pensamento o fez cogitar com outro sorriso descarado, se ainda sabia transformar-se em algo tão sem utilidade, só para ver a reação dela. Suas moléculas espargiram no ar e pouco tempo depois ele meio que ri ao ver suas pequenas patas latindo de felicidade. Ela olhou para trás e sorriu achando graça dele e ele conjecturou todo satisfeito que seria capaz de fazer qualquer coisa por essa fêmea!...

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