Às primeiras lágrimas

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           Fevereiro de 2009

Point of view of Andrea Sachs

4 horas da manhã, sentada no sofá da sala com uma xícara de café nas mãos trêmulas. Era para estar dormindo mas estou aqui arrumada para o trabalho. Esse que é o único lugar que ultimamente estou me sentindo bem, mesmo com a movimentação nos corredores por causa da edição desse mês da revista, mesmo com o humor nada bom de Miranda nessas semanas, está sendo muito melhor do que dentro desse apartamento.

Esse apartamento que já presenciou risadas, nessas últimas semanas só viu brigas, gritos e ontem o primeiro tapa.

Por causa de um lugar na cama e um travesseiro.

Em meio ao meu choro, sorri. Um sorriso desacreditado. Talvez, por nunca imaginar ser uma mulher que leva um tapa na cara de homem que não faz nada, não levanta a bunda da cama para achar um emprego, só reclama e reclama. Ou talvez, eu tenha acreditado que fosse amor.

E mais lágrimas,essas agora misturadas com lembranças.

Meus pais.

A minha inspiração para amor verdadeiro.

Lembro do meu pai chegando em casa, depois de um longo dia de trabalho. Com um buquê de rosas para a minha mãe, que ele fazia questão de passar na floricultura.

O café na minha mão estava gelado, e pela janela se notava que os primeiros raios de sol se faziam presente.

Coloquei meus dedos na direção de um dos reflexos, fazendo uma dança com eles.

Dança.

Quantas vezes peguei os meus pais dançando no meio da sala com seus sorrisos doces.

Sorri, o mesmo sorriso doce deles.

Me levantei, e a passos curtos fui na janela. O céu estava alaranjado, o sol se escondendo atrás de um prédio e a neve tinha dado uma trégua.

Hoje o dia vai ser lindo.

O mesmo pensamento que eu tive no dia do acidente dos meus pais.

O dia estava lindo também, até a polícia chegar e contar para a minha avó que meus país sofreram um acidente de carro. Enquanto estavam vindo de um almoço.

Coloquei a mão no vidro da janela da mesma forma que eu fiz quando os políciais estavam saindo da minha casa. Fechei os olhos e chorei.

Quando os caixões estavam descendo, eu me joguei em cima do caixão da minha mãe. Eu implorava para ela acordar.

Abri os olhos e olhei para o céu.

Sinto falta de vocês.

Entrei no quarto, Nate dormia tranquilamente. Queria chorar mais, me despedaçar. Como alguém chega de não sei aonde bêbado, gritando, dizendo que aquele era o seu lugar na cama, que aquele era seu travesseiro. Que coisa estúpida. Uma simples frase. Um tapa. Uma bofetada. E uma marca roxa.

Dias dessa semana, da outra, e da outra. E pensando bem outros dias que observando agora, não foram normais, sua chegada tarde em casa.

Aproveitei que ele estava roncando na cama, comecei a vasculhar suas coisas. E na sua carteira, estava lotada de dinheiro. Coloquei a mão na boca. Lágrimas ainda transbordando pelo meu rosto.

Ele não paga uma conta, não faz nada, me liga cobrando as coisas. E agora do nada me aparece com tanto dinheiro assim. Neguei com a cabeça.

Quando me olhei no espelho do banheiro, Deus. Eu estou horrível. Olhos inchados pelo choro e uma noite não dormida.

Dez Invernos (Mirandy - Intersexual)Histórias para pegar e não largar. Descubra agora