Capítulo 12

198 20 1
                                        

Boa leitura

Paulo

Sábado de manhã, e tenho algumas coisas para resolver antes da palestra. Tomo café com minha família, brinco um pouco com meu filho e logo depois vou correr na praia para não perder o costume. Depois da corrida, decido tomar um banho de mar, sento para descansar e fico admirando a paisagem que só o Rio de Janeiro tem. Foi então que me lembrei do sonho que tive essa noite... mais um daqueles que me fazem acordar frustrado.

No sonho, a gente se amava, e eu podia sentir seus beijos e carícias, seu cheiro, a textura da pele fina e macia. Parecia tão real que acordei suado, completamente transtornado.

— Meu Deus, isso não tem fim? Que inferno... — resmungo para mim mesmo, tomando água de coco.

Estou cansado disso. Cansado dela na minha mente, no meu corpo, nos meus sonhos. E nesse momento, resolvo tomar uma decisão: eu preciso esquecer. Preciso arrancar essa paixão doentia do meu peito de uma vez por todas. Olho no relógio e vejo que falta pouco para a palestra. Hora de ir para casa me arrumar.

Gloria

Acordo animada e disposta. Na noite passada, mandei uma mensagem para o Padilha pedindo para ele descobrir onde a Ana daria uma palestra hoje. Claro que ele quis saber o porquê, e eu contei. Não existe segredos entre nós.

— Mana, o que você tá pensando em fazer? — ele questiona, preocupado.

— Nada, Padilha, só quero conhecer o lugar. Você sabe que estou precisando... — desconverso.

No restaurante, quando saí do banheiro, eles já tinham ido embora. Não demorei muito para sair também. Agora, levanto, vou ao banheiro, faço minha higiene e tomo um banho gelado. Depois, passo meus cremes, coloco uma roupa de academia e vou malhar.

Meu treino é ótimo. Quando volto para casa, tomo outro banho, vou para meu cantinho de meditação e fico ali por uma hora, com meus bebês latindo sem parar ao fundo. Assim que termino, sigo para o escritório para resolver algumas coisas da Bemgloria.

Por volta das 9h, Padilha me liga:

— Mana, achei. É uma terapia grupal que a Ana costuma dar. Acontece na Barra da Tijuca. Vou te mandar o endereço e o horário.

— Ahhh, muito obrigada! Você é incrível! — digo animada.

— Mas, Gloria... cuidado. Não vai fazer besteira. Você é uma mulher adulta e muito responsável, lembra disso. — ele alerta.

— Pode deixar, e não se preocupa, querida. Um beijo!

Assim que desligo, ele me manda o endereço. A palestra começa às 17h30 e acontece sempre aos fins de semana. Aviso Orlando que vou sair e que não tenho hora para chegar. Ele, por sua vez, diz que precisa viajar novamente. Não me importo muito. Ele explica onde vai ficar e o que vai resolver, mas, no meio da conversa, o celular dele toca.

Vejo o número e, mesmo sem estar salvo, reconheço os últimos quatro dígitos. É dela.

Ele pega o celular com naturalidade e não atende. Uma raiva sobe em mim, mas não o questiono. Não vale a pena.

O dia passa rápido, e logo chega a hora de ir para a palestra. Pego meu carro e sigo o endereço no GPS. O trânsito está movimentado como sempre, e acabo chegando uns 10 minutos atrasada.

— Ai, eu detesto me atrasar... — penso, irritada.

Preencho a ficha de cadastro e entro. O ambiente não está tão cheio, mas quem eu quero ver está aqui.

Meu coração acelera ao procurar por ele. Será que veio com a esposa?

Não. Ele está sozinho.

E quando nossos olhares se cruzam, vejo seu rosto perder totalmente a cor. Ele fica paralisado, completamente espantado com a minha presença.

"Olá, querido... cheguei."

Penso, dando um sorrisinho, enquanto sou recebida com boas-vindas pelo grupo. Mas ele continua ali, parado, sem desviar o olhar de mim.

Paulo

Eu não posso acreditar no que estou vendo.

Ela está bem aqui, na minha frente, falando com o pessoal da minha terapia, sorrindo, sendo educada como sempre.

"O QUE ESSA MULHER ESTÁ FAZENDO AQUI? Será que já sabia desse lugar? Ou... ou veio porque ouviu a Juliana falar? Não pode ser. Não é possível. Será que ela veio só para me atormentar? Essa mulher parece uma maldição na minha vida..."

Respiro fundo, me recomponho e caminho até ela, mantendo um sorriso no rosto. Assim que me aproximo, o grupo se dispersa para conversar com outras pessoas.

— Gloria... que surpresa te ver aqui. — Digo, cumprimentando-a com um beijo no rosto.

— Oi, Paulo! Pois é! Eu já sabia dessa palestra e há muito tempo queria vir. Que bom te encontrar aqui... — respondo, me fazendo de desentendida.

— Eu faço terapia aqui há alguns meses.

— Sério? Então vamos nos ver mais vezes? — ela pergunta, inclinando levemente a cabeça, com um brilho malicioso no olhar.

— Vamos, sim. Que coincidência, não é mesmo? — digo, sarcástico.

— Muitaaa... Eu vou adorar fazer terapia com você. Sempre muito bom te rever. — Ela sorri de canto, sustentando meu olhar.

Ela fala aquilo com a maior cara de pau do mundo. A expressão dela não é a de uma santa. Pelo contrário. Eu conheço esse olhar.

— Pessoal, vamos começar? — Ana anuncia, chamando a atenção do grupo.

Gloria

Eu solto aquela provocação, mas antes que ele possa responder, Ana nos interrompe para dar início à palestra. Gosto dela. Ela parece uma pessoa incrível, assim como todos aqui. O ambiente é leve, acolhedor.

Me sento um pouco distante do Paulo, mas não adianta nada, porque a cada minuto da palestra ele me olha. E eu, claro, retribuo na mesma intensidade.

O encontro flui, e além da palestra, rolam debates bem interessantes. Participo, me envolvo na conversa. E, para minha surpresa, minha interação com todos — principalmente com o Paulo — é leve e descontraída.

Assim que tudo termina, guardo minhas coisas e sigo para o estacionamento. Estou prestes a entrar no carro quando ouço aquele sotaque que me tira o juízo chamando por mim logo atrás.

— E aí, o que achou? — ele pergunta.

Me viro no mesmo instante e vejo aquele sorriso lindo vindo em minha direção. Ele tenta me alcançar, e eu paro, esperando.

— Eu amei. Estava precisando muito disso. — Respondo, rindo leve.

— Que bom... Você vem semana que vem?

Ele me encara, e o jeito que pergunta me faz prender o ar. Apenas aceno com a cabeça, confirmando.

— Então... até semana que vem. — Ele se despede, mas não se move.

— Até! — sorrio.

Entro no carro e sigo para casa mas minha cabeça está longe dali.

No caminho, só consigo pensar no quanto desejo mais do que uma simples conversa com ele.

[...]

Desejo oculto Onde histórias criam vida. Descubra agora