Capítulo 42

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Boa leitura

Gloria

Depois que vejo o carro dele sumir na rua, uma ira enorme sobe dentro de mim — teimoso, marrento. Será que é tão difícil assim entender o meu lado? NUNCA MAIS QUERO VER ELE NA MINHA FRENTE. Que droga!

Chego na sala, pego uma almofada do sofá e a jogo longe. Sento, batendo as mãos no estofado, extravasando a raiva.

— Aquele idiota me paga! Quem ele pensa que é pra me deixar assim?! — sinto a garganta travar.

— Não, Gloria Maria, não aceito você chorar por ele, me recuso a isso — digo para mim mesma.

Deito no sofá, jogo os braços para cima, tampando os olhos. O rosto dele invade minha mente, o nó na garganta aperta, e uma lágrima cai.

— Pra que assumir gente? Pra que estragar o que tá tão bom? — levanto do sofá e volto para a piscina.

Mais lágrimas caem, mas não é só tristeza — é raiva. Olho as taças de vinho ao lado da tábua: a minha quase vazia, a dele pela metade. Vejo a hora no celular: 23h34. Pego a taça dele e bebo todo o vinho. Tiro o roupão, pego a garrafa ainda cheia e a taça, vou andando nua até a piscina. Entro, sentindo a água fria, menos quente que antes. A água cobre um pouco acima dos meus seios. Paro ao lado da escada, encho a taça, coloco o vinho ao lado e bebo tudo num gole só. Posiciono a taça ao lado da garrafa, mergulho, nado um pouco, volto para a borda, sento nas escadas, pego a taça na mão e fico ali — olhando o céu, ouvindo música, bebendo todo o vinho sozinha.

Seco a garrafa, estou tonta. Saio da piscina depois de sei lá quanto tempo, pego o celular. Nenhuma mensagem dele.

— Eu não vou te mandar mensagem! — falo, encarando o aparelho.

Subo as escadas toda molhada, entro no quarto, vou direto pro chuveiro. Tomo um banho frio, passo creme no cabelo. Lavo minhas partes íntimas e sinto algo diferente, mais liso que o normal — o esperma dele.

— Desgraçado.

Termino o banho, faço meu skincare, deito na cama ainda pelada e apago.

Paulo

Chego em casa e, depois de alguns minutos, vou direto para a geladeira. Pego uma cerveja, abro e me sento na poltrona da sala. Dou um gole que desce amarga na garganta, mas não tanto quanto o final da minha noite. Pego o celular no bolso, olho: nada dela. Tenho vontade de mandar mensagem, digito "Você está bem?", mas apago antes de enviar.

— Não, Paulo. Você não vai se prestar a esse papel depois do que ela fez hoje — digo para mim mesmo.

Largo o celular, vou para o quarto com a cerveja na mão. Deixo a bebida no criado-mudo, tiro a roupa e jogo em qualquer canto. Quando vou entrar no box, vejo uma marca no pescoço, não muito forte, mas está lá.

— Maldita.

Ligo o chuveiro frio e começo o banho. Coloco as mãos na cabeça, sinto a água cair, fecho os olhos e vejo ela naquela piscina, de costas pra mim, com a bunda empinada na minha direção. Abro os olhos e não aceito lembrar dela mais. Saio do banho, me enxugo, visto uma cueca, passo perfume e desço para comer algo. No caminho, chego à conclusão: preciso de um tempo longe daqui, preciso fugir disso um pouco.

Chego na sala e o celular toca. Paro de respirar por alguns segundos, vou até o aparelho. Vejo o nome do meu pai e solto o ar.

— Oi, pai — digo, já sabendo para onde vou amanhã de manhã.

— Oi, meu filho! Estou com saudade! — ele diz, e eu sorrio na hora.

— Pois então, amanhã a gente se vê. Estou indo pra... — sim, vou para Portugal.

— Ahhh, vem mesmo! Vou estar te esperando. Como você está? — pergunta animado.

— Estou bem, precisando de férias, rsrs. E o senhor? — respondo, num desabafo.

— Também estou bem. Isso não é problema, meu menino. Aqui tem a paz que você tanto precisa! José está bem?

— Eu sei, pai. Está sim, graças a Deus. Até amanhã, te amo! — respondo e desligo.

— Pois é, pai. Se soubesse que quem me dá paz e ao mesmo tempo me tira ela, me chamaria de louco... — digo para mim mesmo.

Entro no site da Azul e compro passagem para amanhã de manhã, volta na sexta. Não posso esquecer que confirmei um compromisso com a Ana Cruz em São Paulo.

— Droga! Sábado ela também vai.

Me lembro do evento, e infelizmente não tem como fugir. Mas pelo menos tenho o resto da semana para esquecer essa infeliz. Vou para a cozinha, preparo um pão com peito de peru e requeijão, um suco de laranja, e como. Volto para o quarto, faço uma mochila com umas dez peças de roupa e alguns produtos íntimos. Coloco o celular para despertar, deixo tudo arrumado, desligo as luzes, ligo o ar e deito. Demoro a pegar no sono, mas o cansaço vence.

[...]

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